Diário,
Hoje foi um daqueles dias que ficará para sempre gravado na minha memória e, talvez, também no meu coração. Ou, na verdade, no lugar em que costumava estar a minha ingenuidade.
**Cenário 1: Vergonha diante do vidro**
O sol batia forte, refletindo-se nas fachadas espelhadas do edifício mais imponente da Avenida da Liberdade. Lá estava a Mariana, com o seu vestido de marca e saltos altos importados, perfeitamente maquilhada parecia saída de uma revista de moda. Mas ao olhar para mim, vi nos seus olhos apenas puro desgosto, reparando nos meus ténis sujos de cimento e no marcador de obras ainda agarrado à mão.
**MARIANA:** “Olha para ti, Filipe! Sempre cheio de pó e nódoas! Não te pedi mil vezes para trazeres roupa limpa quando vens ter comigo aqui ao escritório?”
**Cenário 2: Serenidade contra desprezo**
Mantive-me calmo, sacudindo a poeira da minha camisa de ganga, olhando-a nos olhos, decidido a não deixar que aquele olhar me derrubasse.
**FILIPE:** “Vim directo da obra, Mariana. Acabámos agora mesmo de terminar a laje do rés-do-chão.”
**Cenário 3: O corte cruel**
Mariana aproximou-se e falou quase a sussurrar, nervosa e preocupada que algum dos colegas elegantes do escritório a visse ali comigo.
**MARIANA:** “Desculpa, mas chega. Não posso continuar contigo. Tu és só um trolha. Não quero ser vista ao teu lado. Esquece o meu número!”
E deu meia-volta, pronta para sair dali como se fosse uma estrela de novela. Nesse exacto instante, as portas automáticas do prédio abriram-se com estrondo.
**Cenário 4: A reviravolta inesperada**
Um homem de fato caro saiu apressado, um tablet nas mãos, sem sequer reparar em Mariana. Foi directamente ter comigo, quase sem fôlego.
**HOMEM DE FATO:** “Engenheiro Carvalho, desculpe! Os investidores já estão prontos para sobrevoar o *seu* edifício de helicóptero!”
**Cenário 5: A verdade revelada**
Mariana ficou imóvel. Virou-se devagar, estupefacta. Engenheiro Carvalho? O proprietário da obra?
Deixei escapar um sorriso discreto, tirando o capacete e entregando-o ao assistente do lado.
O desfecho foi rápido. Mariana tentou recuperar terreno, a voz tremer-lhe:
“Filipe… eu… não fazia ideia. Porque nunca disseste que eras TU o dono deste projeto?”
Olhei para ela e dentro de mim já só restava um frio desapontamento.
**FILIPE:** “Queria perceber se gostavas de mim… ou do que eu represento. Agora já sei.”
Endireitei a camisa “suja”, que há um minuto ela desprezara tanto, e acrescentei:
**FILIPE:** “És tu que vais precisar de apagar o meu número. Eu próprio vou bloquear-te. Fica bem, Mariana.”
Afastei-me em passo firme para o elevador, ouvindo ao longe o roncar das hélices do helicóptero no topo do edifício a minha obra. Ela ficou ali, perdida diante das portas de vidro, percebendo que deitou ao lixo não um simples trabalhador da construção civil, mas a sua última hipótese de encontrar algo verdadeiro.
**No fundo, o segredo é simples:** nunca julgues o valor de alguém pelo aparente. Por trás de um par de sapatos manchados pode estar quem constrói cidades inteiras e por trás de fatos caros pode não haver nada.







