Vou ter de ficar a viver convosco por enquanto, disse a minha sogra. A resposta da Filomena deixou-a atónita.
Ouve, Filomena, o António levou a mão aos cabelos, nervoso, a minha mãe está realmente numa situação complicada.
Que situação complicada é essa? Filomena sentou-se na poltrona, olhando fixamente para o marido. Há uma semana tinha casa própria, emprego, planos para o futuro. E, de repente, puf!, precisa urgente da nossa ajuda?
O António suspirou profundamente. Sabia que não podia esconder a verdade. Mas explicar à esposa o que a mãe voltara a aprontar não era fácil.
Tudo começou com aquele telefonema infeliz, três dias antes.
Dona Amélia ligou ao filho, uma manhã de sábado. A voz vinha estranha, meio trémula:
António, filho. Surgiu-me aqui um problema…
Que problema, mãe?
Bem…, lembras-te de eu falar do senhor Joaquim? O vizinho?
O António ficou logo alerta. O senhor Joaquim era aquele reformado aventureiro que há uns meses andava a cortejar a mãe dele. António sempre achou o homem suspeito, mas a Dona Amélia não quis saber.
O que aconteceu com ele?
António, a voz materna tremeu, ele era um vigarista. Eu… emprestei dinheiro a ele, muito dinheiro. Com um papel a dizer que me ia pagar. Agora desapareceu. E afinal o documento não vale nada.
António sentiu um frio por dentro.
Quanto dinheiro, mãe?
Quase tudo o que tinha poupado, murmurou Dona Amélia. E ainda pus a casa como garantia no banco. Achei que ia recuperar depressa, mas agora… O banco exige o pagamento total e eu não tenho nada.
Mãe, mas como foste capaz?
Ele disse que ia abrir um negócio! Prometeu devolver com juros! Dona Amélia chorava. Eu queria ajudar… Achei que íamos casar.
Mãe, calma. O que podemos fazer?
António, e o tom da Dona Amélia ganhou firmeza, tenho um plano. Vendo a casa depressa, pago ao banco e depois mudo-me para a vossa casa. Aquilo é grande, arranjam-me um quarto.
António sentiu a cabeça a latejar.
Mãe, mas a casa é da Filomena.
António! irritou-se Dona Amélia. És capaz de dizer que a tua mulher pode deixar a tua mãe na rua?
Ninguém te vai pôr fora, mãe.
Pronto, óptimo! disse ela, já prática. Falei com a imobiliária, na quarta-feira está tudo feito e na quinta trazem as minhas coisas. Desocupem-me o quarto, não preciso de muito espaço.
Mãe, preciso falar com Filomena.
Falar o quê? a voz tornou-se dura. Não és tu o homem da casa? A obrigação de cuidar da mãe é tua!
Mas a casa, legalmente, é da Filomena…, tentou justificar António.
Ah, é? Dona Amélia ofendeu-se. Então és sustentado por ela? Pareces um aproveitador! Devias ter vergonha!
Mãe, não é isso…
Está decidido, cortou ela friamente. Amanhã quero-te cá para me ajudar com a mudança!
Ouviu-se o bip da chamada terminada.
António olhou para o telefone, desanimado. Como ia dizer aquilo à Filomena?
A Filomena voltou do pilates às sete da tarde. Vinha sorridente, descontraída. E António preparava o jantar, sinal de que algo sério precisava ser falado.
Que se passa? perguntou ela, pendurando o casaco.
A minha mãe telefonou.
O sorriso da Filomena esmoreceu. A relação com a sogra nunca fora muito calorosa.
E o que queria ela?
Ela meteu-se numa alhada.
Que alhada?
António contou tudo: o senhor Joaquim, o dinheiro, a papelada falsa e a casa penhorada. Filomena escutava calada, abanando a cabeça de vez em quando.
E agora?
Ela quer mudar-se para cá.
Percebo… Filomena sentou-se à mesa. E achas isso boa ideia?
Acho que não há outro remédio para ela.
Será? Filomena ergueu uma sobrancelha. E arrendar um apartamento? E familiares? E os serviços sociais para idosos, não existem?
Filomena, é minha mãe…
E por ser tua mãe pode mandar na nossa vida? Filomena inclinou-se para trás. António, vamos ser sinceros: a tua mãe nunca gostou de mim. Em quatro anos de casamento nunca perdeu uma oportunidade de me criticar.
António calou-se. Era verdade, não valia a pena discutir.
Lembras-te do aniversário da Sónia? prosseguiu Filomena. “Uma boa dona de casa nunca compra rissóis feitos, faz em casa.” Eu tinha vindo do trabalho às nove da noite!
Não foi por mal…
Achas? Filomena riu-se com amargura. E as piadinhas sobre “mulheres normais têm filhos nos primeiros dois anos”? Ou mexer nas minhas coisas, porque “no sítio certo ficava melhor”?
O António esfregou a testa. Todos esses detalhes compunham um retrato desagradável.
A minha mãe é assim. Quer controlar tudo.
Exactamente! Filomena pôs-se de pé. E queres que venha controlar a nossa casa? A nossa vida?
Mas para onde vai?
António, ela que resolva as consequências dos seus atos, respondeu Filomena sem hesitar. Vai ter dinheiro da venda da casa, pode arrendar. Comprar uma casinha mais pequena.
Isso mal chega para salvar o banco.
Que procure os serviços sociais. Ou um trabalho. Há pessoas de 70 anos que ainda trabalham.
Filomena, não digas isso…
Não. disse ela, firme. Não aceito viver com quem me despreza. Não é pela casa, mas porque não vou transformar o nosso lar num campo de batalha.
Talvez seja só por uns tempos… tentou António. Enquanto procura alternativa.
Por uns tempos? Filomena olhou-o, triste. António, achas mesmo que ela quer alternativa? Ela fez de propósito, para não haver opções!
Achas que foi de propósito?
E tu? Filomena foi até à janela. Uma mulher de 70 anos, foi toda a vida contabilista, não percebe que não se empresta tudo a um desconhecido? Aproveitou-se da situação para conseguir o que queria: vir para cá.
António ficou em silêncio. Por dentro, sabia que a mulher tinha razão.
António, disse Filomena suavemente, voltando-se para ele, eu amo-te. Mas não vou deixar ninguém, nem a tua mãe, destruir o nosso casamento.
Ele abraçou-a.
E agora?
Agora, fazes o que tem de ser feito por um homem adulto, respondeu. Diz-lhe que tens a tua família, que a amas, mas que a tua vida é separada.
Ela não vai aceitar.
É dela o problema. Não teu.
No dia seguinte, António ligou à mãe. A conversa foi dura.
Como assim “não estão preparados”? indignou-se Dona Amélia. Já vendi a casa!
Mãe, podemos ajudar com dinheiro. Ajudamos a encontrar e pagar o arrendamento.
Dinheiro? bufou. Tenho um filho e uma família! Não preciso da caridade de estranhos!
Não é caridade, mãe, é decisão minha.
Uma decisão tua? a dor surgiu na voz. Dei-te tudo nesta vida! E agradeces assim?
Sou grato, mãe. Mas tenho a minha família. Já sou adulto.
Família?! explodiu Dona Amélia. Família sou eu!
Mãe, basta.
Basta? o tom gelou. Muito bem. Fizeste tua escolha. Vive como entendes. Mas lembra-te, nunca mais te telefono, nem se estiver à morte!
A chamada caiu.
António contou tudo à Filomena.
Ela disse que a traí, suspirou.
É a chantagem do costume, comentou Filomena. Ela vai recuperar. Sabes, quando o meu pai morreu a minha mãe também quis vir viver comigo. Ficou ofendida, mas hoje reconhece que foi melhor: construiu nova vida, tem os seus interesses.
E se adoecer?
Aí, ajudamos. Mas não precisa viver com a gente.
Passou uma semana de nervos. Dona Amélia não telefonou. Depois, veio o telefonema da irmã do António, a Sofia.
António, disse Sofia, preocupada, a mamã está no hospital. Deu-lhe um enfarte.
Como? O que aconteceu?
Dizem os médicos: foi do stress. A questão da venda da casa e a discussão contigo…
António sentiu-se culpado.
E agora?
Está de cama, choraminga, só fala de ti. Repete: “O meu filho só vai chorar quando me vir morta.”
Sofia, isso é…
Eu sei, é chantagem, admitiu a irmã, cansada. Mas magoa na mesma.
À noite, António contou à Filomena.
Vamos vê-la, sugeriu ela do nada.
A sério?
Claro. É preciso mostrar que estamos presentes.
No hospital, Dona Amélia parecia pequena e frágil. Quando entrou o casal, virou-se para a parede.
Mãe, disse António suavemente. Como se sente?
Interessa-te realmente? respondeu sem olhar.
Dona Amélia, Filomena interveio. Podemos conversar?
A mãe de António virou-se devagar:
Conversar sobre o quê?
Sobre a sua situação. Vamos ajudar. Mas não como desejava, e sim como podemos.
Não preciso da vossa compaixão.
Não é compaixão, Filomena respondeu com paciência. É cuidado. Ajudamos a encontrar um bom apartamento, pagamos a renda. Visitamo-la, convidamos. Mas não é possível vivermos todos juntos.
Porquê? perguntou Dona Amélia, sem agressividade pela primeira vez.
Porque precisa do seu espaço, e nós do nosso. Está habituada a ser dona de casa. Nós temos as nossas rotinas.
E se eu estiver mal?
Vamos sempre que for preciso. Noite ou dia. Mas não é razão para partilharmos as paredes.
Depois de pensar, Dona Amélia perguntou em voz baixa:
Ajudam mesmo a encontrar um lugar bom?
Claro, garantiu Filomena.
E vocês vêm cá?
Sim. E nas festas também. É avó dos nossos filhos futuros.
Dona Amélia chorou uns olhos.
Futuros?
Estamos a pensar nisso, respondeu Filomena com um sorriso.
Eu pensava…, murmurou a sogra. Achei que não queriam mais saber de mim.
Claro que queremos.
Um mês depois, ajudaram Dona Amélia a alugar um apartamento simpático, junto ao jardim municipal. Ajudaram a arrumar tudo, apresentaram os vizinhos. Inscreveu-se no grupo de bordados, fez amizade com outra pensionista empreendedora.
Passou a visitá-los uma vez por semana. E quando a Filomena teve uma filha, Dona Amélia tornou-se a melhor avó possível.
Sabes, disse um dia à Filomena, foi bom não teres permitido que me mudasse. Se tivesse vindo, nunca teria voltado a viver. Agora tenho interesses novos!
A Filomena sorriu:
Fizemos bem.
O António, embalando a pequenina, pensava como é importante saber dizer que não até aos mais próximos. Às vezes, o “não” salva o amor.
E vocês? O que fariam se um familiar quisesse resolver os problemas à vossa custa? Contem nos comentários…







