«Vou para a casa da jovem», declarou o avô de 65 anos enquanto fazia a mala, mas voltou uma hora depois em lágrimas

Vou para a nova, anunciou o senhor Manuel, de 65 anos, enquanto tentava enfiar um velho cobertor xadrez na mala, que resistia teimosamente à mudança.

Disse-o com a solenidade de quem anuncia uma viagem à Lua ou a descoberta de uma nova terra. Alto, dramático, na expectativa de um impacto que virasse a casa do avesso.

Mas o abalo não veio. Nem um prato partido, nem um grito, nem sequer um suspiro.

A esposa, Margarida, encostada à tábua de engomar, passava meticulosamente o ferro sobre a camisa de festa dele. O vapor sibilava, interrompendo apenas o silêncio habitual do apartamento.

Estou a ouvir, Manuel respondeu ela, tranquila, sem sequer levantar os olhos . E já puseste as cuecas de algodão? Que está um frio de rachar lá fora e a tua nova não te vai aquecer os rins.

Manuel ficou suspenso, com uma meia de lã presa no ar. Esperava qualquer coisa: um ataque de fúria, uma súplica para ficar, ou pelo menos ameaças de chamar os filhos.

Mas nunca aquela pergunta simples, prosaica, sobre roupa interior.

Que têm a ver as cuecas, Margarida?! exclamou ele, sentindo as faces ficarem encarnadas. Estou a falar de amor, de uma nova vida, de renascimento!

Finalmente, conseguiu fechar a mala de qualquer maneira. O fecho protestou, rangendo como os próprios ossos de Manuel, mas fechou.

E tu sempre na terra, Margarida! Que falta de romance! inspirou fundo. Lá fora é voo, é energia!

E essa energia tem nome? Margarida pendurou calmamente a camisa num cabide e estendeu-lha. Ou é só fofinha no telemóvel?

Ela chama-se Leonor! Manuel endireitou-se, peito feito. E não é uma mulher qualquer. É a minha musa.

Margarida soltou um risinho sabia que a única poesia que ele gostava eram os brindes nos jantares com amigos.

Leonor? Bonito nome. Quantos anos tem a musa?

Vinte e oito! disparou Manuel, numa tentativa de provocar.

Margarida pousou o ferro, olhou atentamente para o marido, como quem olha um móvel antigo a que se afrouxou a porta.

Manuel, disse ela com doçura, mas voz firme . Tens sessenta e cinco anos. Ficas todo torto se te sentas muito tempo e tens a dieta à base de sopa sem sal por causa do fígado.

Suspirou e acrescentou:

E o que vais fazer com uma Leonor de vinte e oito? Vais recitar poemas?

Não é da tua conta! rosnou ele, agarrando a mala. Vamos viajar! Passear ao luar! Aproveitar a vida! Eu ainda dou cartas!

Tentou erguer a mala com um puxão, mas ela recusou-se a colaborar. Uma pontada nas costas fez-lhe franzir a testa, mas Manuel manteve-se firme.

Não ia mostrar fraqueza à ex… quase ex-mulher.

Não te esqueças dos comprimidos para a tensão, conquistador atirou ela, voltando ao ferro. Estão na gaveta de cima da cómoda. E a pomada das articulações.

Não preciso de nada disso! mentiu ele, apesar do coração descompassado. Com a Leonor sinto-me com trinta! Pronto, Margarida. Adeus. Fica com a casa, não quero nada.

Agradecida, o sustento já tenho assentiu ela. Deixa as chaves na cómoda. E leva o lixo já que vais sair.

Foi o golpe de misericórdia. Nada de drama. Só um leva o lixo.

Pegou no saco à porta, ergueu o queixo com dignidade e saiu. A porta não bateu, apenas fechou com um estalido seco.

Manuel ficou nas escadas do prédio, onde cheirava a gato e a batatas fritas dos vizinhos. A mala pesava, as costas doíam e o telemóvel vibrava-lhe no bolso. Só podia ser a Leonor a nova musa à espera do cavaleiro.

Chamou o elevador. O coração saltou-lhe no peito quando viu a mensagem: Querido, estás quase? Já reservei mesa. Olha, só um favorinho….

Leu: Preciso que me passes 300 euros para a minha mãe, ela precisa de comprar medicamentos urgentemente e tenho o cartão bloqueado. Depois dou-te, ok?

Manuel franziu o sobrolho. 300 euros? Estranho. Ontem tinham sido 200 euros para o táxi. Anteontem mais 100 para a internet. Semana passada, 600 para o famoso curso de inspiração.

O elevador chegou. Manuel entrou, carregou no botão do rés-do-chão. O espelho devolveu-lhe a imagem de um homem grisalho, rosto ruborizado, olhar perdido.

Vou para a nova, repetiu mentalmente, mas a frase já não brilhava.

Lá fora, na rua, chovia pela frincha do céu, as árvores nuas abanavam ao vento. Manuel arrastou a mala até à paragem de autocarro. Leonor morava nos arredores, nos prédios novos.

Sentou-se no banco molhado do abrigo e foi ao banco no telemóvel. Saldo: 238 euros. A reforma só vinha para a semana.

Bolas… murmurou.

Escreveu: Leonorzinha, querida, neste momento só tenho pouco. Levo em dinheiro, está bem? Tenho uma caixinha guardada.

A resposta chegou num instante: emoji de olhos revirados. E logo a seguir: Ó Manuel, não sejas criança! Pede a alguém! A minha mãe precisa. Se me amas, arranja forma!

Manel. Assim o tratavam os vizinhos, não uma musa.

Algo azedo tremeu-lhe no peito. Não era amor; era desconfiança.

De repente lembrou-se: nunca falara com Leonor em videochamada. Era sempre câmara avariada ou mau wifi. As fotos do perfil? De revista.

Ligou-lhe para ouvir a voz. Chamou muito, depois desligaram-lhe na cara.

Nova mensagem: Não consigo falar, estou a chorar!

Manuel ficou sentado, abraçando o cabo da mala. O trânsito salpicava-o com água suja. O frio entrava pelos ossos, já doridos.

Leonor… disse em voz baixa. O nome soube-lhe a plástico.

O telefone vibrou: E então? Já transferiste? Se não, esquece. Não quero homem que não resolve nada.

Manuel olhou o ecrã, as letras desfocadas.

Pensou em Margarida. Como, na véspera, lhe pusera calmamente pomada nas costas. Como cozinhava os pastéis de peixe que ele odiava, mas comia, pelo fígado. Como sabia onde estavam as meias dele, melhor do que ele próprio.

Não quero homem assim…

Visualizou-se na casa de Leonor: sofá estranho, odores desconhecidos, regras alheias. Sempre a ter de dar provas, de parecer mais novo. Sempre a gastar, a pagar, só para estar perto da juventude.

E se, de repente, as costas o traíssem? Será que Leonor lhe esfregaria a pomada? Ou torceria o nariz?

Levantou-se devagar, os joelhos estalavam como ramos secos. Viu um autocarro aproximar-se, mas não embarcou.

Deixou passar, envolto numa nuvem de gás.

Ainda ficou mais um bocado na paragem, a olhar fixamente a rua deserta. Depois deu meia-volta, agarrou a pesada mala e assentou destino: casa.

O caminho de regresso foi uma eternidade. O elevador avariado, claro. Teve de arrastar a mala pelas escadas até ao terceiro andar.

A cada piso, parava ofegante, a suar. O coração batia forte mas já não era de amor, era de canseira.

Parou diante da porta. A mala pousada, tocou à campainha. Silêncio. Ninguém.

Sentiu-se gelar. E se ela, realmente, tivesse ido? E se tivesse mudado a fechadura? Ele deixara as chaves, que disparate!

Insistiu, mais demorado.

Margarida! chamou, rouco. Margarida, abre!

O trinco rodou, e a porta abriu-se. Lá estava ela, de robe e postura firme.

Manuel, molhado, sujo, com a boina toda encharcada na mão, lágrimas nos olhos reais, lentas, feitas de vergonha.

Eu… começou, falhando-lhe a voz Eu, Margarida… O autocarro… A chuva… E eu pensei…

Não conseguiu confessar que a Leonor era vazia, interesseira. Custava demais à dignidade.

Margarida olhou-o, olhou a mala e suspirou:

E o lixo, levaste?

Manuel olhou a mão livre. Esquecera o saco na paragem.

Esqueci… murmurou.

Margarida abanou a cabeça e afastou-se um pouco, deixando espaço.

Entra, Romeu. O chá está a arrefecer. E vai lavar as mãos, porque vens todo porco.

Entrou no hall, arrastou a mala. O cheiro a casa roupa lavada e um aroma suave a bálsamo encheu-lhe os pulmões.

Era o melhor cheiro do mundo.

Descalçou-se, foi lavar a cara, limpando lágrimas e desgosto em água fria.

Na cozinha, Margarida já servia chá na sua caneca preferida. Sobre a mesa, pastéis de peixe a fumegar.

Margarida disse ele, sentando-se baixinho . Desculpa. Fui um tolo.

Come, que esfria respondeu ela, sem o olhar.

A sério. E aquela Leonor… A musa… Eu sem ti… Nem sei onde está a apólice do seguro.

Está na pasta dos documentos, na gaveta de cima do móvel respondeu ela, mecanicamente, sentando-se. Só te peço para parares com as novelas. Voltaste, pronto.

Manuel começou a comer, pastéis melhor que qualquer petisco caro.

Aquela Leonor… tentou ele, mentindo para salvar a face afinal era um desapego. Até fuma! E diz asneiras.

Margarida viu-o por cima dos óculos, com um leve sorriso nos olhos.

Que horror ripostou, séria . E tu, refinado, não aguentaste.

Claro! Disse-lhe logo: Minha senhora, o seu vocabulário não condiz com a postura! E ela…

Encolheu os ombros:

Enfim, percebi. Vazio, Margarida. Vácuo total.

Ainda bem que o percebeste na paragem e não na conservatória.

Ela levantou-se, foi buscar o tubo de pomada e pousou-lho na mesa.

As costas devem estar uma lástima da mala.

Manuel corou.

Um pouco.

Vá, tira a camisa. Vou tratar disso.

Deixou-se cuidar. As mãos firmes de Margarida massajaram-lhe as costas, ardentes mas reconfortantes.

Margarida… murmurou ele.

O que foi?

Sabias que ia voltar?

Ela deu-lhe uma palmadinha carinhosa no ombro.

Sabia, Manuel, claro que sabia.

Porquê?

Ela sorriu, muito de leve:

Porque não levaste nem cuecas, nem meias, nem comprimidos. Só enfiavas o cobertor e o meu casaco velho, aquele que pedi para ires à lavandaria.

Manuel gelou e virou-se devagar.

O casaco?

O casaco. Vi-te de manhã a esmagares aquilo na mala. Achas que não reparei? Sem óculos não vês nada…

Silêncio. Então, Manuel percebeu: ia começar uma nova vida com o cobertor e a roupa da mulher.

Começou a rir-se, baixinho. O riso virou tosse, depois gargalhadas. Margarida não resistiu e sorriu também:

És mesmo um cabeça dura. Vá, come. Amanhã vamos ao campo. Há que levar as compotas para a adega. Isso sim é ginásio e ar puro.

Vamos, Margarida. Sempre juntos afirmou Manuel, enxugando o riso.

O telefone, esquecido no bolso, vibrou de novo. Leonor: Onde estás?? A minha mãe está a morrer!!! Passa-me nem que seja 20 euros!!

Manuel carregou com decisão em Bloquear. Depois Apagar conversa. Pousou o telemóvel com o ecrã para baixo.

Margarida, que tal esquecer essas compotas? Fazemos antes um churrasco! Eu preparo a carne como tu gostas, com cebola.

Ela levantou a sobrancelha. Churrasco era novidade; há anos que Manuel não ia ao grelhador.

Churrasco? E o fígado?

Que se lixe o fígado abanou ele a mão. Só vivemos uma vez.

Pegou-lhe na mão, calejada de tanto trabalho, e beijou-a desajeitadamente, mas com alma.

Obrigado por me abrires a porta, Margarida.

Ela retirou a mão, tímida.

Vá, come, Don Juan, que isto arrefece tudo.

Lá fora, a chuva aumentava, o vento batia nos vidros. Mas na cozinha havia calor. O cheiro de chá, pomada e roupa lavada.

Naquele instante, Manuel pensou: vinte e oito anos é certo que são bons.

Mas só quem nos conhece de verdade nos volta a abrir a porta, mesmo que levemos só um velho casaco e um cobertor.

Margarida chamou ele.

Que foi agora?

Hei de levar o casaco à lavandaria amanhã.

Leva. Mas desfaz a mala primeiro. E tira de lá o cobertor, que ainda me faz falta.

Manuel acenou e deu uma trinca no seu pastel, saboreando.

A vida continuava e, caramba, até não era nada má.

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