– Mariana, para que é que precisas de um apartamento tão grande, filha? És só tu. Nem filhos, nem marido. Amigos também não vejo muito, pelo que percebo. Para que é que queres um T2? Olha, nós somos cinco cá em casa e nem espaço temos. Anda lá, decide-te, filha. Olha que depois dá sempre para trocar de volta. Quando os meus miúdos crescerem, trocamos novamente. Então, o que dizes? O meu pai olhava para mim com um ar atento e um pouco submisso.
O que é que eu acho? Pergunto-me como é possível sequer fazer esta proposta. Um pai de quem nem sabia nada há tantos anos, do nada aparece na minha vida com uma oferta tão… surreal. Fiquei completamente paralisada. Nem imaginava que a lata de alguém pudesse chegar a este ponto. Amigos, claro que tenho, os necessários para mim…
Então, Mariana, fechamos negócio? O meu pai já estava impaciente.
E a mãe?
A tua mãe? O que é que tem?
Ela vem cá umas vezes por mês e fica comigo uns dias, às vezes uma semana inteira. Por isso a segunda divisão é essencial nesses dias.
Umas vezes por mês não é problema! No meu sótão tenho uma poltrona-cama velha. Limpamos aquilo, damos uma arranjadela e metemos na cozinha. Qual é o drama? Até dá jeito, fica logo ali junto ao frigorífico riu-se ele. Dá para comer e dormir no mesmo espaço, não tem que andar para trás e para a frente…
Olhei para o meu pai e já não conseguia sentir raiva. As palavras sozinha, desamparada, já nem me magoavam. Fiquei apenas boquiaberta. Como é possível? Ser assim tão directo, tão… básico. Será que ele acredita mesmo que é mais esperto do que toda a gente à volta?
Mariana, olha que é uma bela solução para ti. E se pensares bem, a tua mãe só vem duas vezes por mês. Duas! Nós precisamos todos os dias deste espaço. Entendes a diferença?
Pois, claro. Para ele, com a família. Eu, pelos vistos, não conto. Já há muito tempo. Afinal, só sou filha do primeiro casamento, não é? Os três filhos e a mulher dele isso é que é família! Suspirei. Nem tinha vontade de discutir. Só me dava curiosidade de ver quando é que ele percebia que não tem o monopólio da inteligência…
Pai, paguei agora há pouco a última prestação do empréstimo. Foram anos de sacrifício… Eu trabalhei tanto para esta casa, custa…
Ai, deixa-te de dramas. Sacrifício… Tiveste foi um bom ponto de partida, já te esqueceste? olhou para mim desconfiado.
Ponto de partida? Ah, engraçado. Ele até parece saber tudo. Pois o que tive foi da mãe, não dele. Mas nem me dei ao trabalho de responder. Para quê dizer algo que ele não vai ouvir? Qual o sentido?
Pai… Eu vou pensar.
Pronto, pensa! Pensar ninguém te tira. Bateu-me no ombro, como se estivéssemos os melhores amigos.
***
Mariana, devias era mandá-lo àquele sítio! Trocar de casa… Que lata! Porque não lhe ofereces logo o T2? Ele que tem três filhos, precisa, coitadinho! Isto é surreal! A minha mãe andava de um lado para o outro, indignada.
Oh mãe, ele é meu pai… Fica sempre um bocado estranho envergonhei-me.
Minha filha, por amor de Deus! Estranho é o à-vontade dele. Pedir a casa assim, como quem pede um copo de água. Tens de perceber que ele sempre foi assim, só se preocupa com ele. Adora o que é à borla. Sempre foi assim e nunca mudou! Não fiques triste, não tem nada a ver contigo. Percebes? Sorriu e apertou-me a mão.
Não estou triste. Só fico pasmada, porque já é a segunda vez que faz a mesma proposta. Ao início achei que tinha percebido mal, não podia acreditar que alguém pudesse ser tão descarado… Ele era assim quando estavam juntos também?
Sempre foi. Nunca mudaste porque só o conheceste já crescida. Para ser franca, nem percebo para que é que ele agora se lembrou disso, depois de tantos anos. Nunca o impedi de ter contacto contigo aliás, quando nos separámos até se indignou por não lhe dar direito à casa da minha mãe, como se fosse dele só por ter lá vivido! Percebes o disparate? Sorriu dessa vez, mas nos olhos só vi cansaço.
Se calhar era melhor cortar relações, não achas, mãe? Acabar de vez com isto?
Não faças isso, Mariana. Não desças ao nível dele. Afinal, gostes dele ou não, é teu pai. Família… O que temos.
Sim, família. Para ele somos estranhos. Suspirei.
A minha mãe encolheu os ombros. Sabia bem que era verdade, mas o que fazer? Só o tempo dirá…
Também encolhi os ombros e desviei o olhar. É mesmo curiosa a vida. Ali está a família dele, a de verdade, e eu sou um apêndice. Claro: três filhotes sobre quem fala com orgulho, ao milímetro. Quando deram os primeiros passos, o primeiro dente, o primeiro galho, quem gosta de quê, quem comeu quanto. O tema preferido: os filhos dele. E a nova mulher, sempre presente.
Pronto, mãe, vou tentar não ligar e responder à altura, se insistir. Antes ter uma relação assim, do que nenhuma. Há quem nem pai tenha. E ao menos o meu não é dado à bebida, como tantos por aí, não é?
Pois, se calhar tens razão… respondeu ela sem muita convicção.
Na semana seguinte voltei a ver o meu pai, já em casa dele. Aproveitámos que a família dele foi toda ao centro de saúde.
Mariana, vieste mesmo a tempo. Olha o armário embutido. Cabe tudo aí dentro! E o papel de parede, não achas giro? guiava-me emocionado pelo andar.
Pai…
E a cozinha, repara! Pequena mas acolhedora. Aqui podemos meter a tal poltrona para a tua mãe. O frigorífico é antigo, não é como o teu, mas isso depois mudas. Até tenho aqui um cartão de descontos para a Worten…
Pai, para quê tudo isso? Não preciso nem do frigorífico, nem do papel de parede, nem do cartão… Senti-me tão cansado, de repente.
Então filha, mas tens de ver tudo antes de trocar. Saber o que te espera! Via que me olhava, mas sentia que olhava através de mim.
Pai, desculpa… Eu não vou mudar para cá. Gosto da minha casa. Não quero trocar. Tentei ser delicado.
Está bem, está bem. Mas olha para a casa de banho, parece nova, mudei o poliban há pouco. Até o autoclismo é polaco! Insistia, como se nada.
Não estás a ouvir? Já te disse: não vou trocar, nem me quero mudar. A minha casa está óptima! Irritei-me, principalmente comigo próprio por ainda tentar agradar-lhe.
Não vais trocar? Ficas tão agarrada às coisas? Então para que é que vieste cá? Isto só me magoa. Eu estava à espera de mais de ti. Desiludiste-me. Olhou-me com um ar estranho. Baixei a cabeça e saí dali em silêncio…
Fui andando pelas ruas de Lisboa naquele Outono. Nem sabia se devia rir ou chorar. Parei e, sem pensar muito, tirei o telemóvel e apaguei o contacto do meu pai e todas as mensagens. Só aí senti alívio. Paciência… Talvez fosse a única decisão possível. Quanto a ele, se quiser, que me procure, escreva, apareça… Mas, cá dentro, sabia que não voltaria. Afinal, já não havia mais nada para me tirar. A tal troca não aconteceu…







