Enquanto Estavas em Viagem de Trabalho

Mariana, cheguei a casa, vem receber-me!

R-Ricardo?! Mas tu só ias voltar daqui a três dias, amor O que fazes aqui tão cedo?

Uma mulher de cerca de trinta anos aparece no corredor, apressada, tentando apertar melhor o robe de seda enquanto olha, atónita, para o marido que já atravessa a porta.

Queria fazer-te uma surpresa, Mariana. E pelos vistos consegui! Não estás contente em ver-me? sorri Ricardo, um homem alto e de ombros largos, visivelmente satisfeito com a surpresa.

Claro que estou feliz, muito feliz mesmo! Vai já para a cozinha, que eu vou aquecer o jantar

Orgulhoso por ter feito boa figura, Ricardo acena à mulher e segue para a cozinha. Lá depara-se com uma mesa repleta: morangos, chocolate, o jantar a sair do forno, tudo com um ar tentador, como se estivesse à sua espera.

Mariana! Mas o que é isto tudo? Como adivinhaste que eu vinha hoje? Que mulher incrível que tu és!

Ansioso, Ricardo enche o prato generosamente e começa a comer, deliciado. A esposa ainda não aparece, mas acha que deve estar a vestir um vestido bonito para ele, a esforçar-se por o impressionar.

Ricardo, eu Nós

Mas, Mariana, que maravilha de comida! O assado, a salada, até as panquecas está tudo divinal Pedro?!

Ricardo vira-se e vê Mariana, que vem pelo corredor de braço dado com o seu irmão, Pedro. Ela mal o consegue encarar, olhando para o chão, enquanto Pedro, de calções e t-shirt, esfrega os olhos como quem acabou de acordar.

Sim, Ricardo, sou eu. Olá, mano

Olá. Agora expliquem-me lá esta cena. Ou nem vale a pena?

Ricardo, eu Eu já queria ter-te contado. Amo o teu irmão, Pedro. Quero ficar com ele. Desculpa. Mariana dispara as palavras a uma velocidade vertiginosa, lançando um olhar tímido ao marido, que agora já é, claramente, ex-marido.

Ricardo deixa cair o prato. A loiça estilhaça-se no chão, espalhando comida por todo o lado.

Então vocês Agora mesmo

Sim. Estávamos juntos há pouco.

Magnífico, Mariana! E tu, Pedro, também és um artista! Fantásticos, os dois. Agora percebo o jantar tão especial e principalmente para quem era.

Mariana não consegue olhar para o marido, sentindo que, ao levantar os olhos, toda a coragem desaparece.

E a Inês? O que fazemos com a nossa filha? Ela já sabe?

Não, ela não sabe de nada.

E está onde agora?

Está em casa da vizinha, a ver desenhos animados.

E costumas deixá-la lá muitas vezes?

Já vai para meio ano

Ricardo ficou sem perguntas e sem forças. Vinha exausto da viagem, e nunca foi de escândalos. Por natureza tinha um feitio pacato e rara vez se irritava. Mas aquela situação com duas pessoas tão próximas desorientava-o. Ficou sem saber o que dizer, só por instantes.

Em dez minutos quero-vos fora daqui. O tempo começa a contar. diz Ricardo, servindo-se de chá e sem sequer olhar para o irmão.

«O que é que ela viu nele? Somos tão parecidos, até as pintas são iguais Sempre preguiçoso, não tem juízo Só pode perder com isto. Mas olha, é a escolha dela!», pensa Ricardo enquanto bebe.

Daqui não saio sem o teu acordo, insiste Pedro, cruzando os braços.

Que acordo é esse?

No divórcio Deixa a Mariana ir, ela não te ama.

Já vi, já vi bem quem é que ela ama sorri Ricardo. Querem divórcio? Vão tê-lo, mas será em tribunal! Quero ver como vão gastar todo o vosso dinheiro em advogados.

Ricardo Mariana toca-lhe no pulso. Ricardo, por favor, vamos resolver isto sem guerra. Tu és bom, sempre foste

Ricardo abanar a cabeça.

Está bem, seja. Mas nunca mais te considero meu irmão, Pedro António.

Ainda temos outro pedido.

Diz lá.

Deixa-me ficar com o apartamento, Ricardo! Mariana força um sorriso sedutor, continuando a acariciar-lhe o pulso. A Inês está tão ligada a este sítio, tem amigos no colégio Se formos dividir, não temos dinheiro para outro, teremos que voltar para a aldeia

Ricardo apoia o queixo nas mãos e pensa. Mariana, ao ver que o marido hesita, apressa-se a reforçar:

Ricardinho, meu sol Faz-nos este favor. Tu ganhas tão bem, logo arranjas outro apartamento sem problemas! Olha, a tua filha é só uma! Faço tudo por ela.

Tenha calma, Mariana, corta Ricardo, sorrindo. Tive uma ideia melhor.

Qual? pergunta Mariana, já esperançosa. Vais deixar-nos também o carro? A Inês ia adorar

A Inês vai viver comigo.

O QUÊ?! Mariana não acredita no que ouve. Só pode ser loucura! Tu não sabes lidar com crianças, estás sempre fora em trabalho Ela já nem se lembra do teu nome!

Vamos já ver isso, diz Ricardo, levantando-se e dirigindo-se à porta.

Passados uns minutos, Ricardo regressa pela mão da filha. A menina, de dez anos, que acabou de passar para o quarto ano, agarra-se ao pai com força e sorri, feliz.

Para que a trouxeste? Para a pôr no meio deste conflito? pergunta Mariana, amarga.

O pai nada responde. Senta-se à mesa, põe a filha ao colo e começa a conversa:

Inês, filha, posso perguntar-te umas coisas?

Claro! responde ela, feliz por o pai lhe dar atenção.

Mas promete ser sincera! Vais responder como se fosses adulta.

Como nas reuniões que fazes no escritório?

Mesmo assim.

A menina assente, entusiasmada.

A mãe já te magoou? Bateu-te esta semana, alguma vez?

Inês fica envergonhada, desvia o olhar e brinca com o tecido do vestido.

Que disparate! grita Mariana. Deixa a criança, deixa-a em paz!

Cala-te, Mariana. Eu estou a falar com a minha filha. Ricardo acaricia-lhe os cabelos. Não tenhas medo, Inês. Prometeste responder com verdade, lembras-te?

Ela acena com lágrimas nos olhos, atirando-se para o pescoço do pai e murmura baixinho, encostada ao seu peito:

Sim, ela bateu-me três vezes! Uma por causa de uma nota má, outra por ter entornado o leite E depois porque gritei com o tio Pedro. Estavam a beijar-se na cozinha enquanto tu estavas fora

Vá, não chores mais, filha. Estou aqui. Ela nunca mais te vai fazer mal.

Mentira! rebate Mariana. Nunca lhe toquei

Queres a casa e o carro pelo bem da filha? pergunta Ricardo, com um sorriso irónico. Inês, posso fazer-te mais uma pergunta?

Podes

Se pudesses escolher, com quem vivias, comigo ou com a mãe?

Inês hesita, olhando alternadamente para o pai e para a mãe. Mariana faz de tudo por chamar a filha para si, até lhe estende os braços.

Prometes que nunca mais vais embora por muito tempo?

Prometo! responde Ricardo de imediato.

Então, quero viver contigo, pai.

Ah, desgraçada! berra Mariana, quase batendo na filha, mas Ricardo protege logo a menina, abraçando-a. Pedro, sempre atrás, não abre a boca.

Pronto, Mariana, está decidido. Não a voltas a ver. diz Ricardo, tranquilamente, levando a filha para o quarto.

Passados minutos, Ricardo ajuda a filha a juntar os pertences. Felizmente, a mala da viagem ainda estava feita. Pai e filha seguem juntos para um hotel do outro lado de Lisboa, onde Ricardo costuma ficar em trabalho.

Meses depois, realiza-se o julgamento. Sem rendimentos nem casa fixa, Mariana e Pedro não conseguem ficar com a menina, e o tribunal decide que Inês ficará com o pai, como ela própria quis.

Ricardo divide o apartamento como planeado e vende a sua parte. A mãe pode ver a filha aos fins de semana, mas Inês vive agora com o pai na nova casa. Ricardo muda radicalmente o seu horário, para passar tempo com a filha. Agora já não há viagens longas E Inês sorri muito mais. Para Ricardo, isso vale mais do que qualquer dinheiro ou carreira.

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