Jamais me casaria, mas especialmente não com esse rapaz encantador. Sim, ele é ótimo, um homem cheio de qualidades, mas simplesmente não é pra mim.
Mais uma vez, a minha mãe apareceu em casa com o namorado e outro senhor qualquer. Já entraram um pouco tocados. Sentei-me no canto, atrás do aparador, tentando ficar invisível.
Já não há para onde fugir, na rua o frio é cortante até nevou. Só quero que tudo isso acabe. No verão termino o nono ano e vou para Lisboa. Quero entrar no Instituto Politécnico e ser professora. Lisboa fica a apenas dez quilómetros, mas vou morar na residência estudantil, decidir por mim.
Ouço os risos e vozes da cozinha: cheiro de chouriço, barulho de copos e garrafas. O cheiro faz meu estômago revirar.
Espera aí, menina! ouço a voz da minha mãe.
Que tímida! Por quê? pergunta o namorado dela.
Estão em dois
Como se fosse a primeira vez diz o Mário, o namorado da minha mãe.
Barulho de copos caindo, passos pesados. Apertei meu corpo ainda mais no canto, desejando ser invisível.
Olha, Francisco, ela está a dormir ouvi o Mário dizer.
Disseste que era uma rapariga jeitosa, mas não sei… respondeu o tal Francisco.
Ela tem uma filha…
Filha? Que filha?
A Iria, já crescida. Deve estar escondida no quarto.
Traz ela cá! disse Francisco com enorme agrado.
Iria! Onde estás? Mário entrou no quarto e ao me encontrar, sorriu de um jeito nauseante. Vem cá sentar-te connosco!
Aqui está bom pra mim.
Que vergonha é essa? Mário veio tentar abraçar-me.
Em pânico, agarrei a jarra em cima do aparador e bati na cabeça dele. O vidro quebrou. Corri, escapei do quarto.
Agarrem-na! ouvi atrás de mim.
Já estava na porta. Nem tempo de calçar os sapatos, saí pro frio em meias, velhos calções e uma t-shirt, correndo descalça pela rua do bairro.
Atrás, os homens também correram atrás de mim. As ruas estavam desertas. Pra onde ir nesse frio? Ouvi seus gritos atrás de mim. À medida que passava por uma casa grande, ouvi um cão a ladrar e alguém a mandar calar o animal.
Apertei-me contra o portão e bati. Um senhor de quarenta anos abriu.
Ajude-me, por favor pedi, quase sem conseguir falar direito, implorando com os olhos.
Entra! ele puxou-me bruscamente e fechou a porta.
Ó Luís, quem é? apareceu uma mulher à porta.
Uma miúda ele deu de ombros Tinha dois homens atrás dela.
Anda lá pra dentro! apressou-me a senhora. Conta tudo dentro de casa.
Iria, sai daí que é melhor! ouvi Mário gritar de fora.
Luís, deixa-os! disse a senhora. Não deites conversa com eles. Entra já!
Lá fora ainda se ouvia os gritos, e o cão continuava a ladrar.
Temos de ligar para a polícia disse ela, já com o telemóvel na mão.
Paulina, calma. Eu resolvo isto. Eles só estão a fazer barulho, são daqui do bairro.
Vais resolver como?
Do meu jeito. Só acalma a miúda.
Ele foi à cozinha, pegou num saco, pôs lá dentro uma garrafa de vinho e uma barra de chouriço e saiu acariciando o cão no quintal.
Na rua, um dos homens avançou pra ele:
Vai entregar a Iria!
Toma este saco e desaparece daqui!
O homem abriu o saco, viu o vinho e a chouriço, sorriu, chamou o outro e foram-se embora.
***
Eu sou Paulina Marques disse a senhora, pondo água para o chá. Senta-te, conta quem és e o que te aconteceu.
Iria, chamo-me Iria respondi, a tremer. Moro no fim desta rua.
Filha da Kátia, é isso?
Sim…
Vivemos aqui há pouco, mas já ouvimos falar da tua mãe.
Baixei a cabeça e comecei a chorar.
Calma, não chores! Paulina envolveu-me num abraço. Nunca tinha sentido carinho assim. Abracei-a e chorei ainda mais.
Pronto, calma! Vamos tomar chá.
O Luís entrou:
Já estão fora daqui.
E agora, o que fazemos com esta menina tão querida? Paulina olhou pra mim e sorriu.
Amanhã conversamos! Agora um banho e chá.
Tens fome? pôs um copo de chá e olhou pra mim com ternura. Vi logo que queria me ajudar.
Na mesa apareceram sandes e restos de bolo.
Come, come! o Luís sorriu pra mim enquanto eu observava a comida.
Não me pressionaram com perguntas, tentaram nem chamar muita atenção para não me deixar nervosa.
Depois do jantar, Paulina levou-me à casa de banho:
Toma banho e veste este roupão.
***
Eu só queria que não me expulsassem. Tão bom estar na água quente, lembrar o frio lá fora. Mas não posso demorar, não quero incomodar.
Saí. O casal esperava no sofá da sala. Sorri timidamente.
Obrigada.
Iria, pelo que entendi, ninguém está à tua procura. E não queres voltar pra casa.
Baixei a cabeça, sem saber o que dizer.
Amanhã, de madrugada, temos de sair cedo…
Eu entendo… baixei ainda mais a cabeça.
Ficas sozinha aqui. Não abras a porta pra ninguém! O nosso cão, Jack, não deixa ninguém entrar no quintal. Percebeste?
Sim! não contive a emoção.
Se quiseres, podes fazer um caldo verde pra nós sugeriu Luís. Sabes fazer?
Sei sim apressei-me a afirmar, receosa de ser enxotada. Sei cozinhar bem. E posso limpar tudo.
Lavas o chão lá em baixo, se não for esforço concordou Paulina.
***
Acordei com eles. Fiquei deitada, com receio de ser expulsa. Ouvi o carro sair do quintal. Depois ficou tudo silencioso.
Levantei-me, lavei o rosto. Na cozinha havia pão, chouriço, queijo e um bule de chá quentinho. Na tábua, costeletas de porco.
Comi o pequeno-almoço, limpei a mesa, lavei tudo. Passei pano na casa.
No corredor vi um aspirador. Liguei-o e comecei a passar nos quartos.
Quando desliguei, ouvi uma voz atrás de mim.
O que está a acontecer aqui? disse alguém.
Virei-me rápido. Um rapaz alto, bem-apessoado, talvez com dezoito anos, olhos castanhos atentos.
Estou a limpar… E quem és tu?
Hm… Ele deu de ombros, tirou o telemóvel do bolso:
Mãe, cheguei. Quem é esta?
Filho, esta rapariga vai ficar aqui uns tempos.
Tanto faz.
Guardou o telemóvel, olhou-me de cima a baixo, entrou na cozinha.
Queres chá? ofereci.
Faço eu.
***
Guardei o aspirador, continuei a limpar, ouvindo cada passo vindo da cozinha.
Ele tomou o pequeno-almoço, foi à casa de banho, saiu perfumado e barbeado.
Ó chefe, dá mais uma garrafa! ouvi alguém gritar lá fora.
Mas que é isto? o rapaz foi à janela.
Não lhes abra! gritei assustada.
Olhou pra mim curioso, sorriu e foi pra porta.
Corri pra janela. Do lado de fora, Mário e Francisco gritavam junto ao portão. Fiquei apavorada.
O rapaz saiu. Eles avançaram pra ele e… caíram na neve, ao mesmo tempo. Pareceu-me um espetáculo ridículo.
Ele falou algo pra eles. Saíram, cabisbaixos, pro lado da casa da minha mãe.
***
Ele voltou e parou diante de mim.
Estás assustada?
Sem pensar, encostei a cabeça no peito dele e chorei.
Como te chamas? perguntou.
Iria…
Eu sou Rui. Não chores. Eles não voltam.
***
Rui subiu prasua sala e só voltou à noite. Cozinhei caldo verde e sentei na cozinha, pensativa.
Gostaria de ficar aqui, com essas pessoas boas, mas sentia que já passara do limite.
Os donos voltaram. Paulina ficou surpresa com a limpeza. Luís elogiou meu caldo verde.
Acho melhor ir pra casa… disse, sem esperança. Obrigada por tudo!
Iria, fica mais uns dias!
Paulina, obrigada, mas preciso ir, de verdade.
Dei um passo pra porta, mas hesitei estava de roupão e chinelos emprestados desde ontem.
Vem cá! Paulina levou-me até ao quarto.
Abriu o guarda-roupa, olhou tudo cuidadosamente, tirou umas calças de ganga, um jumper e um casaco de desporto quente.
Veste! Somos quase do mesmo tamanho.
Não precisa, não quero incomodar…
Não vais sair despida! Veste, veste! Não faz diferença.
Vestido, olhei no espelho. Nunca tive roupas tão bonitas.
No corredor, Paulina fez-me calçar gorro e botas de inverno.
Usa isso, a teu gosto!
Obrigada, Paulina!
***
A vida voltou ao normal. Bem, quase. Minha mãe conseguiu trabalhar numa quinta. Mário desapareceu com o amigo.
Chegou a primavera. Estava estudando em casa quando alguém bateu à porta do quintal. Olhei pela janela, quase sem acreditar era o Rui. Ele fez um sinal com a cabeça, sorriu, indicando pra eu sair.
Saí correndo.
Olá! sorriu o Rui.
Olá!
A minha mãe quer falar contigo.
***
Entrei na casa onde passei aquele dia feliz.
Bem-vinda, Iria! Paulina recebeu-me bem, com um abraço caloroso.
Olá, Paulina!
Vem tomar chá!
Ela sentou comigo, serviu o chá, e então colocou um sorriso sonhador.
Eu e o Luís vamos passar um mês na Turquia! disse, empolgada. O Rui quase não fica em casa. Podias cuidar da casa? Alimente o Jack e o gato, regue as plantas. São muitas!
Claro, Paulina!
Ótimo entregou-me dinheiro. Aqui estão mil euros.
Mas, Paulina, não precisa…
Aceita! Isso não faz diferença. Anda, vou-te mostrar tudo!
Fui memorizando tudo: onde estavam os vasos e jardineiras, o ração do gato, a carne do cão. Depois ela gritou:
Rui! ele apareceu logo. Mostra o Jack à Iria!
Vem! ele pôs a mão no meu ombro e fomos ao quintal.
Soltamos o Jack e fomos passear.
Rui falou sobre a faculdade, o karaté e o negócio com o pai. Eu pensava noutra coisa. Sabia que existe uma distância enorme entre mim e o Rui, assim como entre minha mãe e os pais dele. Eles são ótimos, pessoas amáveis, mas a vida não é um conto de fadas.
«Daqui dois meses faço provas para entrar no politécnico. Vou estudar, trabalhar, lutar, mas quero ser alguém. Casar, sim, mas não com esse rapaz encantador. Ele é bom em tudo, mas não é pra mim! Sou grata pelas roupas, pelos mil euros. Pelo menos posso me aguentar um tempo em Lisboa.»
No fundo, aquele dia marcou o fim da minha infância difícil. Agora começa a vida adulta também exigente, onde tudo depende só de mim.
Voltamos à casa. Afaguei o Jack, sorri pro Rui, e rumei pra casa. Amanhã começa meu trabalho na casa deles. Só isso trabalho, nada mais!







