Vim devolver algumas coisas que pertenciam à minha ex-namorada… E quem abre a porta quase sem roupa é a mãe dela

Vim devolver algumas coisas que pertenciam à minha ex-namorada E foi a mãe dela quem abriu a porta, praticamente só de roupão.

Não era para eu ficar. Não era para eu dizer uma única palavra. Eu era só um tipo com uma caixa de cartão e um plano de sair dali depressa e sem sobressaltos. Mas a vida raramente respeita os nossos planos. Chamo-me Miguel Carvalho. Tenho 31 anos. Trabalho em gestão de obras. E há três semanas terminei tudo com a Inês Duarte.

Não houve drama. Não houve gritos. Foi como um pneu a vazar lentamente. Só quando está completamente murcho é que te apercebes do momento em que desististe. Estivemos juntos quatro meses, o que pode soar pouco, mas quatro meses podem ser longos quando se percebe que duas pessoas simplesmente não encaixam. Não ficou mágoa, só uma caixa com as coisas dela parada no canto da minha sala, a ocupar espaço, a lembrar-me todos os dias que tinha aquilo por resolver.

Mandei mensagem à Inês três vezes em duas semanas a perguntar quando vinha buscar as suas coisas. Ela dizia sempre que vinha, mas nunca apareceu. Por isso, numa quinta-feira ao fim do trabalho, ainda de botas e com a t-shirt cheia de pó, pus a caixa no carro e conduzi 40 minutos até Almada, onde ela tinha voltado a viver com a mãe porque o contrato do apartamento dela tinha acabado. Sempre disse que a mãe tinha uma casa grande e um jardim bonito numa zona calma.

No caminho, imaginei uma senhora de cinquenta e tal anos, de óculos de leitura, talvez a mexer num tacho de caldo verde. Bati à porta apenas uma vez. Ouvi passos do outro lado, calmos. E, de repente, esqueci-me ao que ia. Graça Duarte abriu-me a porta num robe de seda curto. Só o robe, mais nada. O cabelo castanho-ruivo caía-lhe pelos ombros, ainda húmido como se tivesse acabado de sair do banho dois minutos antes.

Não se atrapalhou. Nem mostrou desconforto. Fitou-me com uns olhos castanhos claros, muito serenos, e disse, És o Miguel, não és? Disse que sim, acho eu. Não tenho a certeza de ter articulado bem as palavras. Ela sorriu, abriu a porta mais um pouco e explicou que a Inês tinha saído para ir ao supermercado e só voltava dali a uma hora. Perguntou se queria esperar lá dentro.

Olhei para a caixa nas mãos. Olhei para ela. Toda a parte racional em mim dizia para deixar a caixa à porta, agradecer, e ir embora. Entrei. Ela fechou a porta atrás de mim e sumiu pelo corredor, perfeitamente à vontade como se fosse normal receber alguém daquela forma numa quinta-feira à noite. Fiquei no hall, a olhar em volta. A casa era quente, não só de temperatura, mas daquelas que se percebem vividas e acolhedoras.

Havia vasos com plantas verdadeiras no parapeito da janela, nada de plástico. Um puzzle a meio no aparador junto ao sofá. Uma estante tão cheia que havia livros empilhados na horizontal em cima dos outros, por falta de espaço. Quando Graça voltou, tinha vestido uns jeans e uma camisola de linho creme, mangas arregaçadas. O cabelo ainda molhado, mas puxado para trás do rosto.

Tinha um à-vontade que encolhia a distância, no melhor sentido possível. Trouxe dois copos de chá frio, entregou-me um sem perguntar e gesticulou para a mesa da cozinha. Senta-te, disse, sem ser brusca, apenas direta. Sentei-me. Perguntou quanto tempo tinha estado com a Inês. Disse-lhe os quatro meses. Acenou lentamente, como quem confirma uma suspeita.

Perguntei o que sabia ela sobre mim. Graça olhou para o copo e respondeu: O suficiente para saber que foi mútuo e que não és má pessoa. E olhou-me nos olhos. O resto estou a perceber sozinho. Fiquei sem jeito, mudei de assunto, falei sobre o puzzle no aparador. Ela disse que era um mapa dos parques naturais, mil peças, já andava há três semanas a fazê-lo porque as peças estavam sempre a perder-se entre as almofadas do sofá.

Afirmei que era bom em puzzles. Ela ergueu uma sobrancelha: Duvido. Perguntei porquê. Os homens bons em puzzles só dizem que o são quando lhes perguntam. Nunca tão cedo. Ri-me, a sério, antes de pensar se era apropriado. Ela sorriu dentro do copo. Ficámos ali sentados, à mesa da cozinha, quarenta e cinco minutos. Fiquei a saber que Graça tem 53 anos, dito como quem diz o pedido do café. Só um facto.

Está divorciada há dois anos, depois de um casamento de vinte que descreveu como algo que simplesmente terminou o seu ciclo. Sem azedume. Apenas uma página que se vira. Ficou com a casa. Montou um pequeno negócio de jardinagem. Adora discos de fadistas antigos e filmes de ação que considera péssimos. E tem ideias muito específicas sobre a forma correta de fazer açorda.

Falei-lhe do meu trabalho, de crescer em Torres Vedras, de como, por acaso, tinha entrado na construção civil num verão aos 17 e nunca mais saí. Ela ouvia, sem pressa, sem as distrações habituais de quem só espera a sua vez. Fazia perguntas, ligava pontos com coisas que eu dissera minutos antes. A Inês ligou-me ao minuto 47: afinal ia demorar mais uma hora e meia porque o supermercado estava impossível.

Graça olhou para mim por cima da mesa e disse, sem cerimónia, que podia aquecer comida se tivesse fome. Disse que não queria incomodar. Ela levantou-se, abriu o frigorífico, Estás a beber o meu chá, sentado à minha mesa. Já não sais daqui sem jantar, Miguel. Fiquei. Jantámos frango com arroz, simples e bom, na mesma mesa pequena, enquanto a noite caía na janela da cozinha e o bairro acalmava.

A certa altura deixei de pensar na Inês, na caixa, no caminho de regresso. Só estava ali, naquela cozinha quente, com uma mulher que conhecia há pouco mais de uma hora e sentia-me, curiosamente, totalmente à vontade. Quando a Inês finalmente chegoufaróis a cortar a janela da cozinhaestávamos a debater se era mais stressante conduzir na autoestrada ou no centro da cidade. Graça disse cidade, sem hesitar: Ao menos na autoestrada, toda a gente vai na mesma direção.

Ainda pensava nisto quando ouvi a chave da Inês na porta. Ela olhou a caixa no chão, viu-me à mesa com a mãe, e parou. Olhou para Graça, para mim, para os dois pratos vazios na banca. Jantaram juntos? perguntou. Graça confirmou calmamente. Queres comer também? A Inês pousou devagar os sacos das compras, como quem precisa de tempo. Miguel, há quanto tempo estás aqui? Olhei para o relógio. Há duas horas e onze minutos. Não disse isso em voz alta. Limitei-me a responder: Há um bocado.

Ela ficou a olhar para mim um momento longo. Depois para a mãeum olhar entre elas que só existe entre quem se conhece a vida toda. Inês olhou de novo para mim e por um instante, no olhar dela, houve algo diferente. Não raiva, nem ciúme. Algo mais calmo. Puxou os sacos e foi para a cozinha sem dizer mais nada. Levantei-me para sair, agradeci o jantar à Graça. Ela seguiu-me até à porta, encostada ao caixilho, braços cruzados, Não foi trabalho nenhum.

Saí para a noite fresca. O candeeiro ali por cima piscou duas vezes quando desci os degraus. Notei a caixa da ligação mal apertada e guardei mentalmente, sem comentar. Quando olhei para trás, Graça ainda estava à porta, a ver-me, sem o tornar óbvio. Vai com cuidado, Miguel. Acenei e caminhei até ao carro. Uma viagem inteira a pensar numa mulher em quem não devia pensar. E o pior, ou talvez o mais honesto, é que não queria deixar de pensar.

Disse a mim mesmo que não voltava. Não porque tivesse acontecido algo indevidonão aconteceu. Jantámos frango e arroz, conversámos sobre condução e fui para casa dormir, como qualquer pessoa normal. Mas havia qualquer coisa naquela cozinha, na forma como Graça se encostava ao balcão e me dava um copo sem perguntar; na maneira como escutava, impossível de largar no dia seguinte.

Fiquei acordado, deitado na cama, a pensar no que ela dissera: Ao menos na autoestrada, toda a gente vai na mesma direçãotão simples, tão certo, e ficou comigo. Fui trabalhar. Concentrei-me. Revisei plantas de uma obra para um edifício comercial na zona oriental de Lisboa. Resolvi dois telefonemas com subempreiteiros. Almocei à secretária. Não pensei na Graça. Bom, não pensei nela mais do que quatro vezes, e sempre tentei desviar o pensamento, como quem quer mostrar que tem controlo.

Sábado de manhã, fui à loja de ferragens buscar material para arranjar o deck do quintal do Zé, um amigo. Passei por uma prateleira de peças de iluminação de exterior, lembrei-me do candeeiro da Graça, o tal que piscava, pensei na tal ligação solta. Daquelas coisas que se ignoram até algo correr mal, quase sempre com chuva. Era uma questão de segurança, convenci-me, até disse isso em voz alta no corredor, para ninguém ouvir. Uma senhora a dois metros, com o carrinho cheio de terra, olhou de lado e seguiu caminho.

Comprei o material do deck do Zé e também as peças para o candeeiro da Graça. Não liguei antes. Sei que aqui já parece que decidi, mas não fui totalmente honesto comigo próprio sobre o que isso queria dizer.

Cheguei à casa dela a meio da manhã, com uma caixa de ferramentas e dois cafés daquela loja na Rua do Alecrim. Dois cafés. Já nem tentei fingir. Graça abriu-me a porta de jeans manchados de tinta e uma camisa de flanela larga, mangas puxadas. Tinha uma mancha azul no braço e outra, mais pequena, a espreitar no maxilar. Cabelo solto e a segurar um pincel ainda molhado de tinta.

Olhou para as ferramentas e os cafés e ficou sem dizer nada uns segundos. Vens por causa do candeeiro, não é? Disse que sim. Notei na quinta-feira ao sair. Com chuva vai dar problemas. Ela olhou para mim com aqueles olhos castanhos claros, calmos.

E o café, isso já não explicas tão facilmente. Cedeu passagem. Estava a pintar o quarto de hóspedes. Tinhas móveis fora, plásticos espalhados, e andava com um pincel pequeno, a fazer os cantos com cuidado. Mostrou-me. Paredes azul-claro, duas demãos, limpinhas.

Disse que já andava há um ano para o fazer, mas finalmente decidiu-se. Perguntei: Porquê agora? Encolheu os ombros: Há alturas em que uma pessoa se cansa de olhar para o que está por fazer. Arranjei o candeeiro em vinte minutos. Trouxe-me café e sentou-se no degrau da entrada enquanto eu trabalhava. Não encheu o silêncio, apenas esteve ali, tranquila na manhã. Apercebi-me de que trabalhava devagar de propósito.

Quando fui lavar as mãos ao lava-loiça, já ela estava de volta à pintura. Sequei as mãos e perguntei se precisava de ajuda. Respondeu que não. Eu já sabia, disse, e então: O outro lado ainda precisa da segunda demão, caso queiras fazer de inútil aqui parado. Peguei no rolo suplente e pus mãos à obra. Pintámos lado a lado no sossego confortável que já nos era natural. Circulámos na sala sem nos atrapalharmos.

A certa altura perguntou como é que as coisas estavam verdadeiramente, não apenas como me sentia, que é o que se pergunta sem esperar resposta honesta. Mas como estavam mesmo, que é muito diferente. Continuei a passar o rolo na parede e pensei dar-lhe a resposta fácil. Mas, em vez disso, fui sincero. Disse que passara o último ano a sentir-me em movimento, mas sem sair do sítio. Que tudo no trabalho ia bem, que a vida parecia boa por fora, mas qualquer coisa por dentro estava adormecida e eu sem saber consertar.

O fim com a Inês nem doeu como costuma doer, e isso inquietava-me, por me fazer duvidar se sequer tinha estado presente. Graça ficou um tempo em silêncio depois de eu acabar. Depois disse, sem olhar, Sabes o que é isso, não sabes? Perguntei o que achava. É o que se sente quando se faz o que faz sentido durante tanto tempo que de repente esqueceste o que realmente te faz sentir vivo.

Parei com o rolo. Olhei para a parede azul e deixei essas palavras pousarem cá dentro, de forma tão justa que quase doía. Perguntei-lhe como sabia. Finalmente olhou para mim.

Não havia pose, nem desejo de parecer sábia. Só quem fala a verdade, porque já a viveu. Vivi assim uns doze anos. E precisei de mais três para perceber que tinha nome. Terminámos a última demão mesmo antes do almoço. Ela lavou os pincéis; eu arrumei os plásticos, empurrei móveis para o lugar.

Quando acabámos, ela ficou à porta, a olhar o quarto, a medir o antes e o depois. Está melhor, disse, não tanto para mim, mas para o espaço. Fiquei ao lado dela a olhar: Muito melhor. Ela foi abrir o frigorífico e disse que eu podia almoçar ou ir embora, à vontade. O convite mais subtil de sempre, mas dos mais sentidos que já recebi. Fui atrás dela para a cozinha. Quando o telemóvel dela acendeu no balcão, ela olhou e pousou-o com o ecrã virado para baixo, sem atender. Reparei, mas não perguntei.

Almoço foi sopa de tomate enlatada e pão tostado com queijo da ilha derretido por cima. Sentou-se à minha frente e falámos sobre o negócio dela, sobre clientes difíceis, sobre ter criado tudo sozinha para provar a si mesma que era capaz. Disse-lhe que parecia estar a resultar. Ela sorriu, Alguns dias sim. Outros parece que ainda estou só a tentar aprender. Disse-lhe que éramos dois. Ela sorriu, surpreendida por se sentir compreendida.

O telemóvel dela voltou a acender. Desta vez virou-o totalmente, e deixámos o silêncio instalar-se. Depois disse, cuidadosamente, Tenho coisas que ainda estou a resolver na minha vida. Não levantou os olhos. Queria que soubesses antes de isto, seja lá o que isto for, ir mais longe. Pousei a colher. Olhei-lhe o rosto. Estava fixa na sua tigela, como quem se prepara para o que vier. Disse não tenho pressa. Procurou no meu rosto alguma garantia. E encontrou o suficiente, porque acenou e voltou à sopa.

Saí passado uma hora, com tinta no braço e a sensação de ter entrado em algo maior do que um candeeiro por arranjar. Daqueles passos que não se recuam, e, depois de tanto tempo sem sentir nada especial, não queria recuar. Ela ligou-me primeiro.

Não era algo que esperasse. Era uma terça à noite, pouco depois das sete, eu sentado no meu carro à espera de um hambúrguer sem vontade de cozinhar, com pouca energia desde sábado. O telemóvel vibrou. Olhei: Graça Duarte. Olhei dois segundos antes de atender.

Não disse olá logo. Houve pausa e só depois: O portão do quintal está preso. Tenho visita de clientes amanhã cedo e precisava de montar uns vasos esta noite. Outra pausa. Já tentei destrancar aquilo de três maneiras. Não mexe. Perguntei se tinha tentado levantar o portão ao empurrar. Já tentei. Perguntei se a madeira inchou com as últimas chuvas. Ela parou um pouco. Não pensei nisso. Disse-lhe que ia lá ver.

Ela não queria incomodar. Eu disse que não era incómodo, era coisa para 15 minutos, e que estava preso numa fila de drive-in que não avançava há 6 minutos. Ela riu-se, Pronto. Cheguei perto das 8. O céu azul escuro, a hesitar entre o dia e a noite. Graça estava no jardim, casaco leve e botas, ao lado de vasos alinhados junto à cerca. O portão de madeira notava-se inchado no fundo do lado direto após dois dias de chuva intensa.

Baixei-me. Ela observava, sem se meter. Disse que a madeira inchara, o aro estava a apertar. Tenho um cepilho no carro, em dez minutos resolve-se. Ainda se usa cepilho?, ela riu-se. Simfuncionam melhor do que parecem. Fui buscar o cepilho e trabalhei uns vinte minutos. Ela ia arrumando e alinhando vasos, com precisão calma. Reperei que movia os vasos e recolocava até acertar.

O portão abriu-se às 8:30. Graça testou-o duas vezes, olhou para mim: Foi mais rápido do que pensava. A chuva fez metade do estrago, disse, eu só discuti com a madeira. Ela sorriu e continuou com os vasos.

Indiquei se era preciso arrastar um grande vaso de barro para o canto. Arrastei, ela ajustou só mais uns centímetros. Brinquei que falhei por pouco. Ela rebateu: Só no jogo da malha é que conta. Ficámos no quintal, frente aos vasos já montados, e o ambiente era de quem confia em quem montou tudo aquilo. Disse-lho. Ela aceitou o elogio com honestidade.

Devia ter ido embora ali. Mas ela perguntou se queria sentar-me uns minutos no alpendre. Não havia nada na minha vida mais importante naquele instante. Sentámo-nos em duas cadeiras de madeira baixas de frente para o jardim, os vasos iluminados pela luz da cozinha. Ela com um copo de água, eu sem nada. Ofereceu bebida, recusei, Estou bem. Olhou-me de lado: Tu dizes muito isso. O quê? Que estás bem. Usas como porta fechada. Não respondi logo.

Foquei o jardim. Perguntou, O que preferias que eu dissesse? Virou-se: O que for verdade. Pensei. Ouvia-se grilos, um cão lá ao fundo ladrava duas vezes e parava. Disse: Não estou bem. Não tenho estado, mas aqui, fico melhor. Era verdade.

Graça fez silêncio. Eu também, murmurou. Duas palavras pequenas, cheias de significado, e não sentimos necessidade de dizer mais nada. E então tudo mudou: faróis iluminaram o lado da casa, um carro estacionou. Graça endireitou-se. A mesma tensão discreta dos outros dias quando o telemóvel tocava.

O portão lateral abriu-se. Um homem de quase sessenta, ombros largos, camisa abotoada, ar de quem veio de um sítio sério, entrou no quintal. Parou ao ver-me. Olhou-me a mim, à Graça, aos vasos. A cara fechou-se num misto de surpresa desagradada.

Graça levantou-se. Tom de voz igual. Roberto, devias ter avisado. Ele olhou para mim, para os vasos. Passava aqui perto e decidi entrar. O tom era leve, mas os olhos não. Quem é este? Graça respondeu: É um amigo que me ajudou com o portão. Ele olhou para o portão, para mim: Muito simpático, disse, com sentido oposto. Levantei-me, apresentei-me. Apertou-me a mão com aquela força de homem a querer marcar posição. Retruquei sem entrar em competição.

Disse a Graça que queria falar sobre o assunto do banco do divórcio que o advogado mencionara. Voz fria, calma treinada. Ela disse que sim, mas que devia telefonar primeiro. Ele disse que ia tentar lembrar-se, sendo claro que tentar era ameaça. Dez minutos depois saiu. Graça sentou-se, suspirou fundo, como quem pousa um fardo.

É o meu ex-marido, disse, como se eu não tivesse notado. Acenei. Virou o copo nas mãos. Faz istoaparece quando lhe apetece, para lembrar que pode. Pausa. Antigamente funcionava. Perguntei, E agora? Menos do que antes. Acenei. Sentei-me de novo ao lado, sem opinar sobre um homem que só conhecia há oito minutos. Fiquei só, ao lado dela, no escuro do jardim, a cheirar a terra fresca e à chuva, como se o tempo, finalmente, nos pertencesse.

Depois de um bocado, disse: Não precisavas de ficar. Respondi: Eu sei. Ela acenou, e ficámos ali mais um pouco, a noite a instalar-se à nossa volta, paciente, como se esperasse por isto.

Quando finalmente me despedi, Graça veio até à porta, encostada ao caixilho como da primeira vez. Mas agora havia algo diferente no olharuma decisão. Disse, Ele vai ser um problema. Respondi-lhe: Aguento bem problemas. Olhou-me fundo: Volta no sábado. Eu faço o jantar, desta vez a sério. Respondi: Lá estarei. Caminhei para o carro sem olhar para trás: sabia que ela ainda estava lá, algumas coisas só se sentem.

No sábado cheguei mesmo às 18h, com uma garrafa de vinho que levei meia hora a escolher e o sangue-frio construído durante a semana. Bati à porta. Graça abriu com um vestido verde-escuro, simples. Passei uns segundos calado, só a olhar. Ela olhou a garrafa: Hoje vieste arranjado. Olhei para a camisa: É só uma camisa. Sorriu: Fica-te bem. Cedeu passagem.

A casa cheirava ao forno: alho, ervas, fundo e quente, cheiro de quem pertence ali. A mesa posta com loiça a sério, guardanapos dobrados, uma vela em copo no centro. Um disco de jazz de fundo, baixo. Ela entregou-me um copo de vinho e disse que ainda faltavam vinte minutos para o jantar, se aguentava. Respondi-lhe que esperara até ali, senão desistia agora. Ela notou esse facto com um olhar por cima do copo.

Ficámos na cozinha, ela mexendo as coisas no forno com aquela maneira dela de se mover no espaço, segura. Falei do cliente da quarta-feira, que tinha pedido para cuidar de mais dois jardins. Ela contou, sem gabarolice, só a dividir algo bom. Disse-lhe para se orgulhar. Ainda estou a chegar lá. Perguntei por Roberto. Voltou-se devagar, O advogado dele ligou ao meu para o assunto da conta. Está a tratar-se. O Roberto só aparece assim para tentar mostrar que ainda manda.

Perguntei se fazia isso no casamento. Ela pousou a luva de forno. Sim, e eu deixava. Ainda estou a trabalhar nisso. Acenei, não lhe disse para ultrapassar, apenas deixei que dissesse. Ela pareceu agradecer.

Jantámos frango assado com legumes e um pão robusto de uma padaria ali perto. Senti, pela primeira vez, que não era casual. Perguntou pelo meu trabalho, se gostava mesmo da construção ou só era competente. Pensei: Alguns dias gosto. Ela disse: Alguns dias, chega. A meio do vinho, o telemóvel brilhou. Ela olhou, mandíbula tensou, depois voltou para mim. Ele espera. Quem? O Roberto. Liga sempre à noite quando acha que estou sozinha.

Pegou no garfo. Agora, tenho companhia. E dito de forma tão genuína, que me soou a lar. Até ao fim da noite, ficámos no alpendre a terminar o vinho. Ela tinha posto uns fios de luz do lado desde terça-feira. Uma faixa de luz quente, a tornar o espaço digno de se ficar.

Disse-lhe que estava bonito. Graça disse que, depois da volta do cliente, quis fazer algo pequeno, só para si. Sentados lado a lado no banco encostado à parede, sentia a escolha de estar ali. Contou-me o casamento em detalhes: como foi deixando de ocupar espaço, de dizer coisas para não criar ondas, até ao ponto em que olhou para o espelho três anos antes do divórcio e não se lembrava da última coisa que fizera só por prazer. Ouvi tudo.

Quando acabou, olhou quase surpreendida: Tu tens o dom de ser fácil de conversar. É um pouco chato. Sorri: Posso tentar ser mais difícil. Ela riu-se, cheia, solta. Depois calou-se de novo, mas era um silêncio que antecede, não que termina.

Fitando os vasos, disse, sem me olhar: Não deixo que apeteça algo há muito tempo. Era mais seguro assim. Disse: E agora? Virou-se para mim, quente na luz de uma só faixa: Agora, estou farta de seguro. Peguei na mão deladevagar, a saborear. Ela olhou para as nossas mãos e depois para mim, não recuou. Inclinei-me, beijei-a. Um beijo simples, certo, honesto. Beijou-me de volta. Ficámos encostados. Ela suspirou devagar. A Inês vai ter opiniões. Provavelmente. O meu ex-marido, mais. Que fique. Pausa.

Não te assustas com isto? Olhei para ela: a mulher do roupão de seda, que me ofereceu chá gelado e telefonou por causa de um portão preso porque, já só um bocadinho, queria deixar alguém entrar; a mulher que pintou, construiu por si; que deixou de ser pequena para alguém que nunca mereceu tanto. Respirei fundo: Nem um pouco.

Entrelaçou os dedos nos meus, deitou a cabeça no meu ombro e ficámos ali. O disco continuava a tocar baixinho, a noite lá fora paciente, fresca, sobre nós.

Meses depois, o portão nunca mais ficou presotinha renovado a estrutura toda num domingo, com a Graça sentada no cadeirão do jardim, café na mão, num ar de gerente que me irritava e fascinava. A Inês teve de facto opiniões, conversou longamente com a mãe e, por fim, admitiu nunca a ter visto tão tranquila. O Roberto ligou duas vezes desde aquele sábadoGraça não atendeu, deixou o advogado tratar. O resto da vida ela tratou.

Num serão, meses depois, sentei-me na cozinha enquanto ela queimava o fundo de um queijo quente porque estava demasiado ocupada a fazer-me rir. Praguejou, abriu a janela, eu levantei-me, acabei de grelhar. Ficou ao meu lado, Afinal, não és tão inútil como pensei! Ainda bem que me deixaste mostrar. Com o ombro roçou no meu: Ainda bem que sim. Lá fora, a luz que arranjámos juntos brilhava estável, sem piscar, só a fazer o seu trabalho. Certas coisas, quando se arranjam de verdade, ficam mesmo.

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Vim devolver algumas coisas que pertenciam à minha ex-namorada… E quem abre a porta quase sem roupa é a mãe dela