Já na minha velhice, os meus filhos lembraram-se de que têm uma mãe, mas nunca esquecerei o que fizeram comigo.
Quando o meu marido me trocou por uma rapariga muito mais nova, os nossos filhos ficaram do lado dele afinal, sempre fora um homem respeitado, diretor de uma empresa importante em Lisboa. Durante anos, pareciam ter-se esquecido completamente da minha existência. Fiquei sozinha, abandonada. Recentemente, o meu ex-marido faleceu e, só então, eles descobriram que todos os bens tinham ficado para a nova esposa.
Foi só aí que se lembraram de mim. Agora visitam-me com frequência, mas eu bem sei as razões… Há pouco, a minha filha começou a lançar indiretas: Mãe, já pensaste no futuro, no testamento? Nenhum deles imagina a surpresa que preparei. Tudo será revelado quando já cá não estiver.
Passei anos perdida, como se vivesse no fim do mundo. Os meus filhos sempre olharam para mim como se fosse uma estranha, como se não falássemos a mesma língua.
O divórcio foi a estocada final. Todos ficaram do lado do pai afinal, era respeitado, diretor de uma grande empresa lisboeta. Ficar ao lado dele era mais vantajoso. E eu? Fiquei só, mulher largada, mãe esquecida.
Os meus filhos esqueceram-se de mim; só sabia deles pelas conversas de conhecidos, que contavam das viagens todos juntos ao Algarve, dos jantares caros e dos sonhos que faziam em família com a mulher nova do pai.
Eu permanecia no meu apartamento vazio em Almada. Cada novidade cortava-me como uma faca.
Chegou um dia em que decidi: tinha de viver por mim. Fui trabalhar para o estrangeiro, em França. Pela primeira vez em anos senti-me livre.
Ao fim de anos de trabalho, regressei a Portugal com o suficiente para recomeçar. Fiz obras em casa, comprei novos móveis, eletrodomésticos e guardei algum dinheiro para a reforma.
Enquanto isso, os meus filhos seguiam com as próprias vidas, casamentos grandes, filhos, festas. Depois, recebi a notícia inesperada do ataque cardíaco do meu ex-marido. Toda a fortuna passou para as mãos da jovem esposa.
O meu filho e a minha filha ficaram de mãos a abanar. Num piscar de olhos, começaram a recordar carinhosamente a mãe esquecida.
De início, visitavam-me trazendo rebuçados, fruta, perguntando como estava. Recebia-os com um sorriso, mas dentro de mim sabia: cada um deles só pensava em proveito próprio.
Hoje tenho 72 anos. Sinto-me saudável, animada e satisfeita. Mas ainda há pouco, a minha filha atirou mais uma boca: Mãe, devias começar a pensar no testamento… Duas semanas depois, a minha neta que se casou há cerca de um ano veio cá a casa fazer uma visita.
Avó, não te sentes sozinha aqui nesta casa tão grande? disse com ar curioso.
Não, filha, sinto-me muito bem, respondi.
Mas sendo tão grande, deve dar muito trabalho, não achas? E se eu e o Tiago viéssemos viver contigo? Sempre fazias companhia e nós não precisávamos de pagar renda.
Sorri para ela. Via-se bem a intenção.
Quem disse que não tinham de pagar? respondi serena. Faço-vos um bom desconto na renda.
A neta ficou sem saber o que dizer. Certamente, esperava que abrisse os braços e dissesse entrem, fiquem com tudo; mas eu tinha outros planos.
Já há alguns anos tratei do meu testamento, deixando escrito que o apartamento deve ser vendido e o dinheiro doado a uma instituição de apoio a crianças doentes.
Quando a minha filha descobriu, ficou furiosa: telefonou-me aos gritos, dizia que estava a arruinar o futuro dos netos. Logo de seguida, apareceu o meu filho, mais calmo, com insinuações de que tomava conta de mim. Mas esta afeição repentina deixou-me fria.
E você, no meu lugar, abriria a porta da sua casa para a neta morar consigo? Aprendi, nesta vida, que a gratidão verdadeira não se pede, sente-se e já não me deixo enganar por gestos de conveniência.







