– Vivemos quarenta anos sob o mesmo teto e, aos sessenta e três anos, você decidiu de repente mudar de vida?

Então, quarenta anos juntos debaixo do mesmo teto, e agora, aos sessenta e três, decides que queres mudar de vida?

Leonor estava sentada na sua poltrona preferida, a olhar pela janela, a tentar esquecer o desgosto daquele dia. Horas antes, andava na cozinha, apressada a preparar o jantar e à espera do Joaquim, que vinha da pesca. Ele chegou sem peixe, mas com novidades, aquelas que há tempo queria contar e nunca arriscava.

Quero pedir o divórcio, Leonor. Peço que encares isto com compreensão soltou o Joaquim, desviando o olhar. As nossas filhas já são crescidas, vão entender; aos netos pouco lhes interessa, podemos terminar tudo de forma pacífica, sem brigas.

Quarenta anos juntos e afinal agora decides mudar tudo? Leonor não entendia. Tenho direito de saber o que vai acontecer.

Ficas no nosso apartamento em Lisboa, eu mudo-me para a casa da aldeia já trazia tudo preparado o Joaquim. Não há grandes coisas para dividir, depois o que restar fica para as raparigas.

Como se chama ela? perguntou Leonor, resignada.

O Joaquim ficou vermelho, apressou-se a guardar uns papéis, fingiu não ouvir a pergunta. Leonor deixou de duvidar que havia outra mulher. Quando era jovem, nunca imaginou que passaria os seus dias sozinha, nem que o marido acabaria por se apaixonar por mais alguém.

Ainda tudo se pode ajeitar, mãe consolavam as filhas, Rita e Inês. Não ligues ao pai, não merece preocupação.

Já não há nada para mudar suspirava Leonor. Só me resta viver o resto dos dias e alegrar-me com a vossa felicidade.

Rita e Inês foram até à casa da aldeia conversar com o pai. Quando voltaram, estavam bem tristes, mas não quiseram contar logo tudo à mãe. Mudaram o discurso e começaram a convencer Leonor que viver sozinha podia ser mais fácil, não teria de cuidar de ninguém além dela. Leonor entendeu, mas preferiu não insistir, tentando continuar a sua vida. Não era fácil, toda a família e vizinhos queriam saber o que se passava, sempre perguntas e curiosidade.

Tantos anos juntos, e agora na velhice ele fugiu com outra comentavam as vizinhas, sem muita delicadeza. Ela é mais nova ou tem mais dinheiro?

Leonor nunca sabia o que responder. Mas, no íntimo, queria ver a tal mulher, saber com quem competia. Aproveitou e foi à casa do Joaquim, fingindo que precisava das compotas de verão, não avisou ninguém para garantir o encontro. E acabou por encontrar a rival.

Joaquim, não disseste que a tua ex ia aparecer por aqui! reclamava a senhora, extravagante, com maquilhagem exagerada. Eu pensava que os assuntos estavam resolvidos, não percebo porque a Leonor cá vem.

Trocas-me por isto? perguntou Leonor, olhando a mulher insolente.

Vais ficar aí deixar esta me insultar? gritava a mulher. Por acaso só sou uns anos mais nova, mas pareço muito melhor!

Se ela acha que a aparência é o que vale, nessa idade disse Leonor, tentando captar o olhar do ex-marido, visivelmente embaraçado.

De caminho para a paragem do autocarro, Leonor ouviu a velha Barbie berrar e tentava não chorar. Só em casa é que se permitiu desabafar, ligando à irmã, a pedir companhia.

Ora, Leonor dizia Nininha, a preparar chá de hortelã. Se ela é tão fútil, não deve ser muito inteligente. Nada de comparares, tu és bonita e tens classe.

Por vezes penso que sou mesmo uma velhota duvidava Leonor.

Olha, tu estás ótima para a idade. Acho ridículo uma senhora vestir calças de leopardo ou mini-saia nos setenta. A mulher brilha em qualquer idade, se souber assumir isso.

Leonor olhou-se ao espelho e percebeu que Nininha tinha razão. Estava bem de saúde, em boa forma e as filhas sempre lhe ofereciam cremes e maquilhagem. Nunca foi espalhafatosa, nem queria ser, não imaginava portar-se como a rival.

Olha, Leonor, agora estás livre, aproveita. As filhas são independentes, há tanta coisa para fazer, tantos programas culturais, não vais ficar parada! dizia Nininha, arrastando a irmã para teatros, passeios e concertos. Montaram um grupo de amigos, todos da mesma idade, e até apareceu um senhor a dar atenção especial à Leonor, mas ela logo cortou e não quis ir a encontros a dois.

Ouvi dizer que andas pelas salas de teatro, fizeste novos amigos, vais voltar a casar? perguntou Joaquim aquando de um encontro casual num supermercado.

Que fazes tu tão longe? Já não há pão na aldeia, ou a tua mulher nova não cozinha? Leonor brincava.

Já estou habituado a comprar aqui. Difícil mudar hábitos resmungava Joaquim.

Leonor mudou de assunto e despediu-se para ir para casa. Joaquim, naquela altura, queria tanto correr atrás dela e confessar quanto se arrepende do divórcio. Sempre viveu com Leonor e as filhas, até que se deixou levar por Madalena, sempre viva e exuberante.

Ao início, parecia tudo emocionante, depois percebeu que Madalena não gostava de cuidar da casa, preferia fofoquices, festas barulhentas e homens à volta. Joaquim começou a sentir saudades de casa, de paz e conforto, que só tinha ao lado de Leonor.

Trouxeste alperce seco, eu pedi ameixa, o queijo não é o certo, esqueceste a maionese! Madalena irritava-se ao ver as compras.

Antes a Leonor fazia as compras, ou íamos juntos. Tudo recai sobre mim agora Joaquim explodiu.

Já chega das comparações, se tanto gostavas dela, porque me escolheste? Madalena gritava.

Joaquim realmente arrependia-se, mas sabia que não servia de nada falar. Leonor nunca quis conquistar o ex-marido de volta, só queria paz, e Joaquim entendia que nunca iria recuperar a confiança dela.

Várias vezes pensou em telefonar, a última até foi bater à porta do velho apartamento.

Vieste buscar alguma coisa? perguntou Leonor, sem o deixar passar do hall.

Queria conversar tens um minuto? Joaquim murmurou, sentindo o aroma do seu bolo preferido de ameixa.

Não tenho tempo, nem vontade. Leva o que precisas, tenho convidados à espera respondeu ela, calma.

Joaquim não tinha nada para levar. Queria falar, mas não encontrava palavras. Voltou à aldeia, preparou o jantar porque Madalena andava pelas ruas. Quando ela chegou, bem divertida, Joaquim confirmou a decisão, deixou-a recolher as coisas.

Depois das cenas de Madalena, Joaquim voltou a pensar em telefonar à Leonor, mas desistiu. Conhecia-a demasiado bem para saber que não havia esperança de reconciliação.

Talvez um dia, mais tarde, viesse pedir desculpa. Tinha de o fazer, ou não teria sossego. Sonhava com o perdão, mas não acreditava que Leonor conseguisse esquecer a traição. Quando começou o romance com Madalena, já sabia.

Agora, Joaquim vivia na aldeia, Leonor no apartamento em Lisboa, rodeada das filhas, dos netos e dos passeios ao teatro. O ex-marido já não tinha lugar na vida dela.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

– Vivemos quarenta anos sob o mesmo teto e, aos sessenta e três anos, você decidiu de repente mudar de vida?