Veterinário acolhe gato de rua com um abraço — e fica boquiaberto ao descobrir quem realmente era

O veterinário abraçou o gato de rua e percebeu, espantado, quem ele realmente era

Recordo esta história como uma memória antiga, ecoando nos recantos da alma de quem viveu muitos invernos. Falava-se então de um veterinário idoso a quem coube a tarefa de adormecer um gato de rua feroz, mas o destino, caprichoso como sempre, quis provar que o verdadeiro laço sobrevive aos anos de afastamento, à perda dos que amamos e até à rudeza da vida nas ruas lisboetas.

Naquela noite chuvosa, quando Lisboa mergulhava mais uma vez sob um céu cinzento, doutor António Rocha apertou entre os braços o gato e em breves segundos sucedeu o inimaginável, algo para o qual nem o velho doutor, nem o mundo, estavam preparados.

António Rocha dedicara-se à veterinária durante quarenta anos. Por suas mãos passaram criaturas de todas as sortes: cachorrinhos que engoliam brincos de ouro, hamsters ressuscitados após longas sestas no frigorífico da casa de campo. Mas com o tempo, a profissão, longe de apaziguar, foi-lhe deixando um vazio no peito difícil de silenciar.

Com sessenta e oito anos, António estava exausto de corpo e de alma. Três anos antes, perdera a sua esposa Leonor e desde então a clínica tornara-se o seu único refúgio contra a solidão um sítio limpo, silencioso e, sobretudo, dolorosamente vazio.

Num final de terça-feira encharcada, pouco antes de fechar portas, entrou no consultório um jovem da câmara municipal, Duarte, dos serviços de recolha de animais. Trazia uma transportadora de plástico de onde vinha um rosnar inquieto, quase como se ali houvesse um motor ameaçando explodir.

Desculpe, doutor António disse Duarte, deixando nervosamente a caixa sobre a mesa. Nível vermelho. Fui buscá-lo ali junto ao Mercado da Ribeira, nos arredores. Atacou três colegas. Selvagem, magro, ninguém lhe pega. Os abrigos estão cheios. Trouxe requisição para ser adormecido.

António suspirou pesadamente e tirou os óculos para limpar as lentes, como sempre fazia em momentos difíceis.

Detestava estas situações. Odiava ser forçado a tirar a vida a animais saudáveis só porque a rua lhes endurecera o coração de medo.

Está bem respondeu, terrivelmente sério. Mas antes preciso olhar nos olhos desse gato. Nunca procedo a uma eutanásia sem esse momento.

Duarte recuou, desconfiado:

Tenha cuidado, doutor. Ele é mesmo perigoso.

António aproximou-se da caixa e espreitou lá para dentro. Dois olhos enormes e amendoados fitavam-no, abertos de pânico. O gato, branco mas sujo de fuligem, com as orelhas encostadas ao crânio, rosnava baixinho, fazendo tremer a própria mesa metálica.

Olá murmurou António, usando aquele tom doce que outrora acalmara cavalos assustados. Tens passado por maus bocados, não tens?

Ao invés de recorrer a sedativos, António calçou uma luva de couro espessa e, com todo o cuidado, abriu a tranca.

Contrariamente ao esperado, o gato não atacou. Ficou estático, o corpo tenso como uma corda esticada ao máximo.

Vamos tratar-te primeiro; depois se vê murmurou António em voz reconfortante.

Numa rapidez surpreendente para a sua idade, agarrou o gato pela pele do pescoço e retirou-o da jaula. O animal debateu-se furiosamente durante segundos, arranhando o metal, mas António envolveu-o contra o peito, usando o próprio corpo como escudo.

E foi nesse abraço instintivo que António viu, finalmente, o gato que escondia a sujidade: um precioso felino de pelo branco curto, focinho rosado e olhos enormes. Tremia tanto que António ouvia o bater dos seus dentes.

Não é nenhum monstro, Duarte disse António baixinho. Só está aterrorizado.

Começou a afagar-lhe a cabeça não de maneira automática, mas com o carinho paciente de quem embala um filho. Passou a mão atrás das orelhas, desceu pela coluna.

E então sucedeu algo digno de espanto.

O gato deixou de rosnar, o corpo relaxou devagar. Levantou a cabeça, piscou lentamente, ergueu-se nas patas traseiras, colocou as dianteiras nos ombros do veterinário, enterrou o focinho no seu pescoço e fechou os olhos.

Era um abraço. Quase humano.

António ficou petrificado.

Cães, ao longo dos anos, tinham-se aninhado junto a ele. Mas raramente um gato cedia tanto.

Aquele, porém, agarrou-se-lhe como se António fosse o último salva-vidas no meio de um mar gélido.

Ali estavam: o velho doutor de bata branca e o gato branco, imagem perfeita da vulnerabilidade.

Duarte ficou boquiaberto.

Doutor… nunca vi coisa igual. Este gato tentou destruir-me há pouco mais de uma hora.

António fechou os olhos e correspondeu ao abraço.

No mesmo instante, um sentimento de estranha familiaridade apoderou-se dele. O cheiro sob a sujidade, a forma como o animal se encostava ao seu peito…

Uma lembrança antiga emergiu das profundezas da sua memória.

Ficou parado assim um longo minuto, apenas sentindo o pulsar lento do coração do gato a cada batida, mais sincronizado com o seu próprio.

Não posso, Duarte murmurou António. Não consigo adormecê-lo. Levo-o comigo para casa.

Tem a certeza? questionou, cauteloso, o jovem. Ele pode enlouquecer de novo.

Nada pode convencer-me do contrário.

Enquanto António tentava pousar o gato para o examinar, mais um milagre ocorreu.

O gato recusou abrir as patas.

E então fez algo muito singular.

Esticou a pata esquerda e, delicadamente, tocou por três vezes o nariz de António.

Poc. Poc. Poc.

O tempo parou.

E a sala pareceu balançar debaixo dos seus pés.

Era um gesto só de um gato no mundo.

Cinco anos antes, quando Leonor ainda vivia, António e ela tinham acolhido um gato branco chamado Ulisses. Achado na rua, tornara-se companheiro inseparável de António. O seu passatempo favorito era sentar-se-lhe ao ombro e tocar-lhe o nariz com a pata a pedir guloseimas.

Ulisses desaparecera quatro anos antes. Com obras em casa, operários tinham deixado a porta traseira aberta e o gato fugira para as ruas de Lisboa.

António e Leonor procuraram-no durante meses: espalharam cartazes, visitaram abrigos, vasculharam as redondezas noite após noite.

Sem sucesso.

Um ano depois, Leonor faleceu, o coração alquebrado pela perda do seu anjo felino.

António estava certo de que Ulisses já pertencia a outro mundo.

Com os dedos a tremer, afastou delicadamente o gato do peito e inspeccionou-lhe a orelha esquerda. Sob a camada de sujidade, descobriu uma cicatriz fina em meia-lua igualzinha àquela que Ulisses ganhara de pequeno, ao atirar-se para cima de um roseiral.

Ulisses… sussurrou António.

O gato emitiu um miau rouco, com uma modulação muito sua.

António ajoelhou-se, esmagado pela emoção, apertando o gato contra o peito e chorando convulsivamente.

Meu Deus… és tu. Duarte, é o meu menino.

O jovem abanou a cabeça, sem perceber:

Mas doutor, este animal não tem chip.

António limpou as lágrimas.

Tinha sim. Entre as omoplatas.

Pegou no scanner e passou-o pelas costas do animal.

Silêncio.

Às vezes desviam, sabes? disse baixinho. Vão para a perna.

Com enorme cuidado, passou o scanner ao longo da pata dianteira direita.

Um apito soou.

No visor, surgiu um número.

António não necessitou conferir.

As últimas quatro cifras eram a data de nascimento de Leonor.

Ulisses sobrevivara sozinho nas ruas quase quatro anos. Fugira aos carros, enfrentara matilhas, passara fome e tornara-se selvagem porque não restava outra escolha.

Atacara humanos, por serem-lhe estranhos.

Mas agora, reconhecendo o cheiro e sentindo mãos familiares, percebeu que deixara de lutar.

Voltava a casa.

Nessa noite, António levou Ulisses consigo. Deu-lhe banho de água morna, esfregou-lhe pacientemente anos de rua, até o pelo voltar a brilhar de brancura. Alimentou-o com patê de salmão da marca que, por hábito, não deixara de comprar.

Mais tarde, António sentou-se na velha poltrona, aquela onde Leonor costumava repousar ao seu lado. O lar, há tanto tempo ensurdecedor de vazio, parecia querer lembrar-lhe todas as ausências.

Mas naquele serão, um corpo pequeno e quente dormitava-lhe ao colo.

Ulisses dormia enroscado e ronronava, grave como um motor antigo.

António olhou para o lugar vazio da esposa e pela primeira vez em três anos não se sentiu completamente sozinho. Pensou que Leonor, de algum modo, lhe enviara um sinal.

Ela já não podia voltar, mas mandou-lhe a única criatura capaz de sarar o seu coração.

O veterinário que salvara um gato acabara por ser salvo por ele.

E o demónio enjaulado não passava de um anjo perdido, pacientemente à espera de reencontrar quem amava.

E vocês, acreditam que os animais reconhecem os seus humanos mesmo após longos anos de ausência? Partilhem as vossas experiências e pensamentos connosco.

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