Vasquinho

Gaspar

Guiomar, perdeste o juízo! A dona Beatriz vai pôr-te na rua por causa disso!

Mariazinha, onde é que eu o deixava? Ia deitá-lo fora? Coitado! É tão pequenino e indefeso!

Ele pode ser pequenino, mas quem vai ficar em apuros és tu se ficares com ele aqui.

Maria, deixa lá isso! Não é nenhum leão, é só um gatinho. Pode ficar uns dias, não pode?

Achas que me convences? Maria riu-se, fazendo uma festa no topo da cabeça do inesperado hóspede ruivo. Como se eu não sentisse pena! Onde é que o encontraste? Está um esqueleto! E parece doente, mal tem forças para manter a cabeça levantada. Um tesourinho!

Vim da fábrica, estava a atravessar o Jardim da Estrela. Estava ele estendido no meio do caminho, meio coberto de neve, imóvel, pensei que estivesse morto. Peguei-lhe estava gelado! Mas, de repente, senti fraquinho, mas ainda vivo. Corri com ele e vim logo para casa. A dona Beatriz até abriu a boca quando me viu passar.

Então prepara-te para uma visita dela. Ai, Guiomar, ela vai-te ralhar como nunca! Lembras-te quando a Carolina trouxe uma gata? Quase foi escorraçada daqui. Diz ela que temos reputação a manter e que animais não podem estar num lar de estudantes.

Mariazinha, prometes que não contas? Se ela vier, esconde-o, sim? Quero só aquecer-lhe um pouco de leite. Já volto.

Vai lá Maria agarrou no cachecol com o gatinho e tirou o seu novelo de lã do cesto de crochet. Eu não vi nada, não sei de nada, ninguém me arranca uma palavra! cantou, piscando o olho à amiga. Anda lá, vai tranquila!

Guiomar desapareceu e Maria espreitou a cesta, abanando a cabeça:

Que sorte a tua… Ruivo atrevido, vive lá! Respira, magricela. A Guiomar tem bom coração. Se te acontece alguma coisa, há de chorar dias seguidos. E eu? Preciso disso?

O gatinho não respondeu. Mal respirava de olhos fechados, sem reagir a nenhuma palavra.

A sala enchia-se devagarinho das sombras do entardecer. Maria não acendia a luz. Gostava dessa hora longa, o fim do dia só para si. Quando trabalhava no turno da noite, mal chegava a casa, já tinha de dormir. Assim era melhor: podia ler, conversar com Guiomar, perguntar-lhe do amor dela com o Miguel. Maria suspirou. Que sorte a da Guiomar! Um namorado atencioso e até proposta de casamento. E ela, Maria? Nada. Muito alta, muito robusta, dizia a avó uma verdadeira varapau, ninguém a agarra. Em criança, bastava um olhar para os irmãos mais novos pararem as traquinices. Agora, eles já estavam crescidos. O mais velho até casara com uma rapariga de quem Maria gostava muito. Maria viera de propósito da aldeia para a festa. Mas ela própria… sempre só. Nem sinal de namorado na cidade. Ninguém à altura da sua altura e postura. Será que devia voltar para a aldeia como a avó queria? Mas lá só restava a quinta. E estudara tanto para quê? Na fábrica era reconhecida, respeitada. Até uma viagem ao Algarve ganhará por mérito. Maria afugentou pensamentos tristes. Casamento? Há de chegar o momento.

Guiomar voltou à sala, procurar uma colher de plástico para alimentar o gatinho. Ele não tinha forças para lamber leite da taça, batia com o focinho, mas não conseguia. Maria pousou o livro, pegou no ruivito e disse:

Deixa cá!

Encheu a colher com leite quente, segurou a cabeça do gatinho e forçou-o a beber um pouco:

Ora vamos lá! Trouxeram-te cá para venceres, não para desistires!

O pequeno engasgava-se, tossia, mas começou a engolir.

Passaram a chamar-lhe Gaspar. Dona Beatriz não descobriu nada durante quase um ano, até um dia ver um lampejo ruivo a entrar, pela janela aberta do rés-do-chão, vindo do jardim.

Que raio é isto?!

O grito dela pôs a casa de estudantes em alvoroço.

Dona Beatriz, por favor! Nem sabia que tínhamos gato! Ele é tão esperto, que nem dá por si. Apanha ratos!

Que ratos? Aqui não há ratos! Isto é casa exemplar!

Isso era se não fossem os ratos exemplares, bem gordinhos, que o Gaspar me deixa em fila ao lado da cama quase todas as manhãs. Quer ver? Da próxima trago-lhos à amostra. Se calhar, convida-se também o diretor da fábrica a admirar as caçadas dele Maria, com os braços cruzados sobre o peito largo, fitava a dona Beatriz, empurrando o Gaspar com o pé para trás das suas pernas.

Maria! Ainda te vais arrepender de tanta graça. Dona Beatriz olhou para Guiomar. Foste tu? E quando casares, levas este animal contigo?

Não sei. Ele gosta de mim, mas parece que é à Maria que chama dona. Ia sentir saudades

Ora essa! Dona Beatriz riu-se olhando para a atarantada Guiomar. Fales dele como de um homem! Rapariga, é só um gato. Quer é comer.

Não é bem assim. Eu faço-lhe festas, trato-lhe disto e daquilo, mas ele só faz festas à Maria. Guiomar devolveu o gato à colega e abraçou a ombros da dona Beatriz. Então, podemos ficar com ele?

Ai, raposa! Dona Beatriz abanou a cabeça e apontou-lhe o dedo. Que ele nem se veja nem se ouça! Percebido? Ou vamos todos para a rua e com razão!

A boda da Guiomar foi celebrada à antiga, e Maria ficou sozinha com o Gaspar. Os dias arrastavam-se mais lentos, dolorosos. Dona Beatriz não apressava a distribuição dos quartos. O velho prédio estava a chegar ao fim, aguardava-se o novo. Maria e as colegas iam aos fins de semana ajudar na obra, sonhando com os quartos modernos. Numa dessas visitas, ocorreu aquilo que Maria imaginou ser o seu destino.

António, como ela, era de fora. Tinha ficado por Lisboa para cuidar dos pais. Depois de os perder, mudou-se para a cidade. Não tinha grande coisa, mas a vida pareceu-lhe mais alegre. Havia raparigas por todo o lado, mas António queria uma mulher com perspetivas, uma casa, alguém que ajudasse. Maria não lhe servia não tinha dote. Mas quando a viu, elegante e alta a cruzar o corredor, não resistiu.

O jeito atabalhoado de António fez Maria rir ao princípio.

Valha-me Nossa Senhora! Para que me serve um homem assim? Qualquer dia dou-lhe palmadinhas na cabeça: nem me chega ao ombro! contava, rindo, à Guiomar.

Maria! Isso é importante? Olha o que ele tem por dentro!

Não sei, Guiomar Não sei.

Via Guiomar a levantar-se com dificuldade, alisando a barriga já bem evidente, e a despedir-se de Gaspar, estendido na cama.

Pesa muito? Maria ia buscar o frasco de mel trazido pelos irmãos.

Nada, só é estranho. Parece que estou na estação à espera de um comboio para um sítio onde vai ser bom. E só penso: que venha depressa Guiomar dava um beijo à amiga e atirava um adeus ao gato. Até logo, Gaspar! Toma conta dela!

Talvez fosse por causa da solidão, mas António passou a ser visita frequente. O Gaspar não o suportava: rosnava, eriçava o dorso sempre que ele aparecia, saltava para o parapeito e dali lançava-lhe olhares invasivos, pronto a saltar-lhe às pernas. Maria punha-o fora, a saber que logo à noite o gato voltava, ofendido e faminto.

Tens ciúmes, é? respondia Maria pela pergunta da dona Beatriz, a quem o Gaspar passou a visitar nos dias de António ficar para jantar.

Talvez tenha. Ou sente alguma coisa. Tem cuidado, Maria. Esses homens entram e saem, e tu depois?

Não, dona Beatriz. O António não é assim.

És tu quem sabe, rapariga.

E, de facto, Gaspar e a dona Beatriz tinham razão.

Os enjoos matinais de Maria passaram despercebidos ao princípio. O leite azedava, os cogumelos que a cunhada enviara já lhe pareciam estragados. Mas, sem melhorar e já cansada, encontrou um dia a Guiomar a passear o bebê de carrinho, que lhe tirou as dúvidas de imediato.

Maria! Como foste deixar acontecer? Sabes de quanto tempo? Já lhe disseste?

Maria ficou paralisada. As palavras da dona Beatriz ecoaram-lhe, súbitas, na cabeça:

Olha que te avisei, rapariga. Vê se pensas na tua vida.

Foi como um clique. Maria apressou o passo para casa. Era preciso falar com António, pensar no futuro.

Mas ficou sozinha com todos os problemas.

Desculpa, Maria. Mas não posso. Como é que sei que é meu filho? Não aceito. António empurrou o gato, que se atirou ferozmente às suas pernas.

Larga-o, Gaspar! Maria sorriu, surpreendida com o próprio sangue-frio. Não te dês ao trabalho, não queremos porcarias cá em casa.

Ficou ainda muito tempo sentada, a olhar para a porta. Gaspar enrolou-se às pernas, saltou-lhe para o colo (inédito), ali ficou a ronronar devagar, até que Maria o afastou:

Chega de tristezas! Apetece-me chá.

O filho foi registado só com o nome dela.

Não tem pai, nunca teve. Tem mãe. Chega? disse firme à funcionária do registo.

Guiomar trouxe enxoval, dona Beatriz conseguiu um bom carrinho. Brigou pela colega junto à direção da fábrica para tentar um apartamento no novo prédio. Mas não havia solução à vista, e Maria manteve-se firme no velho quarto. O frio era imenso, mas o gato, que agora via claramente o bebé como seu, deitava-se ao lado do pequenino, que acalmava ao sentir o calor do amigo felpudo. Maria sorria ao vê-los, oferecendo a Gaspar algum petisco. O dinheiro era curto, e sem a ajuda dos irmãos seria muito pior. António desaparecera de Lisboa e Maria nem o queria ver. Só ficou dela o melhor o filho.

A família apareceu em peso quando Maria teve alta com o pequeno.

Que bochechas! Um tanas, Maria, é igual a ti!

Maria ia desabar, de agradecimento. Ninguém lhe fez qualquer censura bem pelo contrário, a cunhada disse baixinho à entrada:

Fizeste bem, filha. Agora nunca mais estarás sozinha. E há de aparecer um bom homem. Não te faltará quem tenha valor. Quanto ao pequeno, não te preocupes. Criamo-lo juntos, podes contar connosco.

E cumpriram. De duas em duas semanas, vinha um irmão à cidade, sempre com um cabaz. Maria desfazia-se em lágrimas, a arrumar compras como é fácil a felicidade: saber que se tem quem nos ame e nunca largue. E que, se for preciso, o filho também será filho deles.

O infantário para o João foi difícil. Adoecia muito, Maria dividia-se entre o trabalho e a casa. Sem ajuda de Guiomar e dona Beatriz, já teria voltado à aldeia mas não queria incomodar a família vivendo com o irmão. Sentada junto ao berço do filho, Maria recordava a paixão que não fora e pensava que nem todos têm sorte no amor; mas ela já sabia o que queria: alguém que, sem palavras vãs, lhe fizesse um chá quente e lhe mandasse ir descansar:

Vai! Fico com o João.

E que, ao fim de semana, os levasse ao Jardim Zoológico e comprasse ao menino um balão, elogiasse a sopa dela e pregasse aquela prateleira em falta. Que estivesse sempre, sempre lá. Isso bastava.

Dormir chegava sem convite. Muitas noites, Maria adormecia tombada sobre o berço.

Foi numa dessas noites que tudo mudou. João estava doente há três dias. Nem o médico da rua, que ia ver o bebé sem ser chamado, trazia novidades.

Está a fazer tudo certo, Maria. Temos de esperar. O organismo dele é forte.

Maria não largava o filho, embalando-o, deitando-se com ele a cada momento, sentindo o desespero nas crises de choro.

Dona Beatriz apareceu com uma panela de canja:

Ainda não cedeu a febre?

Não, nada a fazer.

Mais vale assim, dizem os médicos: se há febre, é porque luta. Dona Beatriz mimou o João. Aguenta mais um pouco, Maria. Tens de comer e dormir. Logo o dia traz a solução.

Maria preparava um penso quando Gaspar, deitado junto ao bebé, agitava o rabo, impedindo que o pequeno o apanhasse. O menino adormeceu agarrado ao gato e Maria decidiu deixá-lo ficar.

Foi à cozinha aquecer a canja e, de repente, ouviu o barulho de algo a partir-se e o choro do João. Correu para o quarto. Abriu a porta e gelou de medo. Pegou no banquinho e correu a socorrer o gato.

Uma ratazana enorme andava em combate. Gaspar rodopiava furiosamente, já estava ferido. Tinha uma das orelhas desfeita, o lado cortado. Maria ainda brandiu o banco, mas Gaspar saltou sobre a ratazana, ferrando-a pelo pescoço. Só largou quando Maria o arrancou de cima da presa morta.

Gaspar, meu herói, já chega, está bem? Conseguimos!

O gato miou, tomou balanço até ao berço, onde João chorava. Maria ficou em pânico: no berço estava outra ratazana, mais pequena, mas ainda assustadora. Arrancou o João dali, chamou por ajuda.

Horas depois, agasalhada, foi para casa da dona Beatriz, que lhe cedeu as chaves e prometeu cuidar do gato.

Coisa feia! Ratos aqui! Onde já se viu! Dona Beatriz lamentava-se, amuada por não poder resolver tudo naquele velho prédio.

Tratou das feridas do Gaspar:

És um verdadeiro herói, Gaspar! Valeu a pena acolher-te!

O gato respirava com dificuldade, sem forças para comer. Na manhã seguinte, Maria foi visitá-lo.

Pode tomar conta do João, dona Beatriz? perguntou aflita. Onde há veterinário por aqui?

Vais ali, duas ruas abaixo. Corre!

Maria quase voou até ao consultório. Gaspar estava muito mal.

Preciso de um médico, o melhor! pediu tomando de assalto a sala de espera.

A rapariga da receção hesitou, mas ao ver Maria, assentiu e mandou-a sentar-se.

Mais não esperou: uma figura imponente entrou, ajeitando-se para não bater nos caixilhos.

O que se passa aqui? O vozeirão abalou Maria.

Embriagada pelo desespero, estendeu o gato:

Aqui está…

Mas quem o pôs neste estado? O médico virou Gaspar, avaliando os ferros.

Foram ratos.

Não me parece gato de rua. Tem bom pêlo.

É meu.

Como foi isto? Anda na rua?

Não, em casa.

Curioso. Mas olhe que não é preciso gritar, minha senhora. Chamo-me Henrique, e você?

Maria

Ora, já estamos apresentados! Da próxima vez, calma e confiança.

O médico acenou com a cabeça, abrindo um sorriso:

Vamos salvar o vosso herói. Não se preocupe.

Anos mais tarde, o grande gato ruivo entrava sorrateiro no quarto das crianças, inspeccionando os cantos, antes de se enroscar na cama do João. A pequena Leonor, sentindo o calor do amigo, puxava-lhe o pêlo no sono. Gaspar ronronava doces melodias e a menina adormecia ainda mais profundamente, sem se dar conta de que os pais também entravam no quarto. Maria compunha o cobertor do filho, ajeitava a meia da filha, encostava-se ao ombro do marido.

Que babá de luxo, Henrique, não achas?

Insubstituível respondia ele, coçando por debaixo da orelha com cicatriz do herói de quatro patas. Valeu cada noite sem dormir a tratá-lo e cada ralhete teu naquele dia na clínica. Gatos destes são ouro.

Já era dourado antes, vês como brilha?

Gaspar enroscava-se junto a Leonor, puxando-a a si com a pata. Maria apagava o candeeiro de presença, levava o marido pela mão e fechava devagar a porta do quarto. Os filhos nunca tinham medo do escuro, pois Gaspar sempre lá estava e, com ele, não havia nada a temer.

No fundo, a verdadeira família constrói-se na amizade, na partilha e na coragem de começar todos os dias de novo, com quem nos quer bem. E, muitas vezes, o amor aparece quando menos se espera, nas formas mais improváveis.

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