Sou uma senhora muito ativa. Mesmo tendo já passado dos sessenta e cinco anos, sempre consegui visitar diversos lugares e conhecer pessoas fascinantes. Lembro-me da minha juventude com alegria e uma ponta de saudade. Naquela época, era fácil partir de férias para qualquer sítio que desejasse! Podia ir ao Algarve, disfrutar do mar e da calma. Podia acampar com amigos e colegas em Sintra. Podia fazer um passeio de barco pelo Douro. E para tudo isto bastava um pouco de dinheiro, uns escudos, nada de extraordinário.
Mas tudo isso pertence ao passado, é uma memória distante.
Sempre gostei imenso de encontrar novas pessoas. Conheci gente nas praias, no teatro do Porto. Mantive amizades com muitos dos conhecidos por vários anos, mesmo depois de cada um seguir para o seu destino.
Num certo verão, não compreendia quem nos poderia enviar uma tal mensagem. Eu e o meu marido não tínhamos planos de viajar. Mas às quatro da manhã, ouviram-se pancadas na nossa porta. Quando a abri, fiquei petrificada. No limiar estavam Amélia, duas raparigas adolescentes, uma avó e um homem, carregados de sacos e tralhas. Eu e o meu marido ficámos sem palavras. Acabámos por convidar os hóspedes inesperados a entrar. Então Amélia perguntou:
Porque é que não foste de férias por nossa causa? Mandámos-te um telegrama! Um táxi custa dinheiro, sabes! Desculpa, mas não fazia ideia de quem enviou a mensagem! Mas tinha a tua morada, por isso viemos. Eu pensava que nos íamos apenas trocar cartas, nada mais!
Depois, Amélia contou-me que uma das filhas terminara o secundário naquele ano e decidira entrar na universidade em Lisboa. O resto da família veio para dar-lhe apoio.
Vamos viver contigo! Não temos dinheiro para pagar renda! E vocês vivem perto do centro!
Fiquei incrédula. Afinal, nem éramos parentes. Porque lhes dar abrigo? Era preciso alimentá-los três vezes ao dia. Trouxeram algumas coisas, mas nunca cozinhavam; servia toda a gente à mesa.
Após três dias, já não aguentava mais e pedi a Amélia e aos seus que procurassem outro lugar. Não me importava aonde. Rebentou um escândalo danado. Amélia começou a partir pratos e a gritar cheia de nervos.
Fiquei completamente surpreendida com tal comportamento. Depois foram-se embora. Conseguiram ainda levar o meu roupão, alguns toalhões e, de forma misteriosa, até uma panela grande de sopa de couve que tinha acabado de fazer. Nunca soube como a levaram. Mas a verdade é que a panela desapareceu sem deixar rasto.







