UMA VIDA SURPREENDENTE

VIDA INCRÍVEL

Na boda da minha amiga Joana, a festa durou dois dias: com muita comida, vinho do bom e alegria a rodos. O noivo, Miguel, parecia saído de um filme francês: bonito como um galã, mas com aquela humildade rara em quem podia ser manequim. Estivemos todas de olho nele, a avaliar cada detalhe: olhos azuis de fazer inveja, pestanas grossas e longas que, valha-me Deus, aquilo era desperdício na cara de homem! Sobrava-lhe um queixo determinado, o nariz parecia desenhado à mão, e a pele, morena, lisa, sem uma pinta. Para terminar, tinha quase dois metros e uns ombros de levantar o mundo. Se não adorássemos a Joana, tínhamos pegado à batatada ali mesmo pelo espécime raro.

Raios, Joana, onde é que foste desencantar tal pedaço?! atirámos-lhe juntas, cada uma a fazer cara ainda mais miserável e carente, caso Miguel tivesse irmãos à altura.

Vocês nem sabem! O Miguel conquistou-me pela sua simplicidade. Veio de uma aldeia do interior, cresceu com a avó, é mãozinhas de ouro! Os meus pais compraram uma casa de campo lá na terra dele e, por acaso, foi assim que nos conhecemos. Ele é doce, sério, daqueles em quem se pode confiar. A casa dele era um exemplo até eu fiquei parva. Mas custou um figurão convencê-lo a vir para Lisboa! Foram semanas para o fazer mudar de ideias, não foi fácil, juro-vos!

E temos de admitir: além de toda a preparação rural, o Miguel adaptou-se depressa à cena citadina. Aprendeu sobre vinho, perfumes, política, arte, viagens e finanças só em meia dúzia de anos. Até já sabia discutir o índice PSI-20 e debater futebol no café. Perdeu o sotaque fechado do Alentejo num instante.

Pegou no volante do carrão que o sogro lhes emprestou, arranjou logo emprego na empresa do pai da Joana, com um ordenado daqueles. Quem ofereceu o apartamento? Bem, tu sabes família, pronto.

Ao fim de dois anos de casados, descobrimos-lhe uma mania: Miguel só usava meias brancas. Branquíssimas, imaculadas e usava-as com tudo, em casa, nos jantares, nos ténis, até nas botas de borracha! Nada de chinelos ou pantufas, só a meia branca a brilhar. Joana não partilhava o fetiche, mas lavava os pisos a toda a hora e esgotava lixívias nas promoções. Chamou-lhe Meia e o nome pegou.

Foi no oitavo mês de gravidez que a Joana soube que o Miguel tinha outra. E, como se fosse pouco, a amante também estava grávida, e pelo mesmo tempo.

Em menos de um dia, Meia foi escorraçado, despachado do emprego, amaldiçoado e muito chorado. E depois vieram dias pesados, compridos, daqueles em que o outono parece não acabar. Joana mal saía da cama, imóvel, os olhos secos cravados no teto.

Chorar? Depois, não agora. Não faz bem ao bebé repetia.

Parecia uma estátua, ficava ali deitada, as amigas a fazer turnos, só para não a deixarmos ficar sozinha naquele silêncio.

Apeteceu-nos todas rasgar páginas do destino, vasculhar livros, berrar e chorar, mas engolimos o que sentíamos. Às vezes, é o que resta: esperar.

No dia em que o menino nasceu, fizemos uma festa na maternidade: balões, confetis, promessas à enfermeira de lhe pagar as tentativas de a convencer a vir connosco festejar até com ciganos e ursos! O avô era o mais emocionado: na véspera, depois de prometer mundos às auxiliares, escreveu a giz em letras tortas debaixo da janela da Joana: Obrigado pelo neto! Tentou ainda cantar-lhe uma trova, mas a segurança tratou de o levar para a casota, onde partilhou o sentimento com um cálice de aguardente.

No dia de alta, o avô estava novo em folha, limpinho e chorou de felicidade. Todos chorámos, para dizer a verdade, abraçámos Joana, bisbilhotámos o bebé António ali no fofo envelope azul e nem piámos sobre o nariz grego do miúdo (era igualzinho ao do pai). Mas a Joana, mesmo feliz, não chorava:

Depois, que ainda pega o leite

Ficámos dois meses assim, feitas sombra para a Joana, e depois um dia ela decidiu: vou lá falar com o Miguel. Sem fósforos ou ácido, mas pronta a gritar se fosse preciso. Queria desancar, partir pratos se desse descontar a dor acumulada em quem a traíra, destruir o que restava das ilusões, ou talvez só libertar-se daquela prisão em que se deixara enredar.

E mais: Joana queria olhar a amante nos olhos. Sim, ela imaginava-os insolentes e bonitos. Pronto, ia cuspir neles, decidiu. E se fosse preciso, arranhava também.

Descobriu a morada sem querer, numa daquelas conversas de escada, que só as avós para saberem tudo. Pararam-na enquanto passeava o bebé, explicaram-lhe onde eram os ninhos dos pecados e ainda sugeriram formas de se vingar. Joana congelou, quis ir embora, mas ficou.

E lá estava: Joana em frente a uma entrada velha numa rua pobre da Amadora, só tinha de subir ao quinto piso e, pronto, ou gritava ou cuspia.

No primeiro andar, pensou que, com a sorte dela, não ia estar ninguém. No segundo até desejou que não estivesse. No terceiro ouviu um choro desesperado de criança lá de cima.

Abriu-lhe a porta uma rapariga magrinha, pálida e de olhos inchados, tão diferente da femme fatale que Joana imaginara.

Enquanto Joana, paralisada, analisava os quarenta quilos de rival encharcada em lágrimas, na sala ouvia-se o choro do bebé.

Olá, Joana. O Miguel já cá não está, foi-se embora há duas semanas. Não sei onde anda suspirou a rapariga, sentando-se no chão e rebentando em pranto.

Joana, de repente, perdeu toda a raiva. Só quis entrar e confortar o bebé, depois, talvez, arranjar maneira de dizer, de forma bem seca, qualquer coisa feia, só para deixar claro quem ali era a vítima.

O bebé estava seco, os olhos inchados de tanto chorar, a testa azulada de esforço. Só alguém com fome chora assim, pensou Joana. Ele esgotava as poucas forças que tinha, e a mãe, ali no chão, perdida no desespero.

Joana já nem lembra bem depois como foi, lembra-se de revirar armários vazios, o frigorífico parco, e encontrar, sobre a mesa, meio bilhete começado: Peço na minha., de gelar o sangue.

Sentada no chão, a rapariga contou-lhe tudo como se fossem amigas de infância: não tinha para onde ir, o leite tinha secado, o Miguel evaporou-se, nunca houve dinheiro, arrepende-se de tudo, pede desculpa, pede para ser beijada ou até esbofeteada, se fosse preciso. E apresentou o filho: Chama-se Nuno. Decora, Joana. Só para não esqueceres. O Nuno só era nove dias mais velho que o António da Joana.

Joana teve de correr para casa o António exigia a mãe dali a vinte minutos. Nem foi fácil: foi com duas sacas das compras da Oksana (a miúda!) e esta, a trote, a abanar o já calado Nuno. Enquanto corriam, Joana calculava onde ia encaixar mais duas camas.

Três anos depois, dançámos no casamento da Oksana. Ao fim de quatro, na boda da Joana. O marido da Joana agora não suporta meias brancas, diz que vida quer-se colorida e adora a mulher, o filho e as duas filhas. A Oksana é mãe de quatro rapazes e o marido dela ainda sonha com uma meninaE nós, o mesmo grupo de sempre, já não tínhamos lágrimas por culpa, só ríamos largo e bem, como quem aprendeu a dançar de novo um passo depois do outro, sem medo de pisar o pé a ninguém. Na mesa, dois miúdos riam, gémeos de vida mas com olhos diferentes: Nuno de olhar aberto, António de sorriso travesso. E ali, entre brindes e cantorias desafinadas, percebi que a vida nem sempre devolve o que prometeu, mas, se dermos tempo ao coração, ela acaba por improvisar melhor do que qualquer plano.

Quando a noite acabou, abraçámos a Joana, o vestido rodopiou no ar e as crianças adormeceram amontoadas num banco corrido, sonhando talvez com coisas que só eles sabiam. As histórias partilhadas entre dramas e alegrias ecoaram no salão, e naquele instante, ficou claro: não valia a pena procurar finais felizes. O segredo era construir vidas incríveis e essas, sim, ninguém nos podia tirar.

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