Uma Brincadeira Engraçada

Brincadeira

Mafalda! Mafaldinha! Deixa-me copiar, anda lá!

O sussurro da Lorena fez-se ouvir em toda a sala, levando a professora, Dona Marina, a afastar-se do diário escolar, onde escrevia com seriedade.

Titova! Sossega-te, pode ser? Faz por ti!

Dona Marina, isto não é nada fácil! atirou a Lorena, sempre pronta a responder.

Mas quem disse que tinha de ser fácil? E além disso, Lorena, a Mafalda tem outra versão do teste. Por isso, nem vale a pena pedir-lhe.

Como assim?! Se ela está à frente

Pois está! sorriu de lado a Dona Marina, imitando o tom atrevido de Lorena. Dei-lhe um enunciado diferente.

Lá está! Que injustiça! Lorena enterrou o olhar no caderno, mas logo voltou à carga, a procurar outra alma caridosa.

Ninguém reparou como Mafalda se encolheu na sua carteira, com medo até de levantar a cabeça do teste.

Toda a escola sabia que ela era a varinha de condão da turma. Uma cabeça brilhante, que todos queriam usar em benefício próprio. E se ousasse dizer que não, era logo conversa de zanga e amuo.

Mas Mafalda não era má. Deixava copiar, é verdade, mas tentava fazê-lo de forma discreta, como sempre lhe dissera a mãe:

Mafalda, filha, tu tens muito bom coração. Mas deves cuidar dos teus interesses. Se quiseres entrar na escola que queres, precisas de boas notas. Não estragues o teu esforço por causa da preguiça dos outros.

A mãe dizia tudo muito certo, mas Mafalda suspirava cada vez que a ouvia. A mãe nunca ia perceber como era difícil ser a melhor aluna, numa turma onde ninguém queria saber de aprender.

Mudou de escola por causa do divórcio dos pais. A mãe achou melhor, até porque o irmão mais novo estava prestes a nascer mas esse irmão era do novo casamento do pai, ainda enquanto ela e a mãe viviam juntos com ele.

Ninguém achou que tinha de lhe explicar nada. Os adultos resolveram como lhes deu jeito; Mafalda ficava no quarto, com os lápis a pintar folha atrás de folha, sempre de preto. Concisa, cada traço metódico, sem espaço para uma linha branca.

A primeira a perceber foi a avó paterna.

Estão a ver o que fizeram? Quase destruíram a menina!

A avó sempre apoiara a nora, e não fez cerimónias em escolher o lado.

Sai mesmo ao pai, esse teu ex. Também andou por aí, e eu sempre perdoei, porque amava. E sabia que ele também gostava de mim. Talvez estranho, mas agradece à vida de o teu ex ter tido um filho fora do casamento. Se não, também voltavas a aceitá-lo e sofreres igual.

Não sei, foi tudo tão duro disse a mãe, Olga.

Eu sei, filha. Mas pensa na Mafalda! Ela é que sofre sem culpa nenhuma…

Olga fez o que ninguém esperava: sentou a filha de seis anos à frente e contou-lhe tudo, sem rodeios.

Mafalda, nós não vamos viver mais juntos.

Porquê?

Os adultos, às vezes, deixam de saber estar juntos. Vamo-nos divorciar. Daqui para a frente, só vivemos nós as duas. Mas podes ver o pai nos fins-de-semana.

E tu, também ficas? As lágrimas da Mafalda rolavam furiosas, sentindo como os adultos eram patetas a estragar tudo.

Eu não te deixo, filhota

Então a mãe percebeu o medo: que a filha tanto pintava a negro, o medo que ficasse sozinha.

Foi preciso tempo a explicar, a tranquilizar. Aos poucos, ficou mais fácil. Mafalda via o pai, não tanto quanto desejava, mas percebeu: o pai tinha deixado a mãe, não a ela. O pai continuava a levá-la à praia, a fazer-lhe vontades e até o acordo com Olga deixa claro que o mais importante era o bem-estar da Mafalda, sempre. E o irmão novo, e até a esposa do pai eram razoáveis, nunca houve problemas.

Mas os acontecimentos deixaram marcas. Às vezes, Mafalda pensava: Se calhar, o pai foi embora porque eu não era boa filha…” Embora mãe e avó a tranquilizassem, havia sempre uma dúvida minúscula que voltava nas horas difíceis.

Esse bichinho escondia-se, para logo voltar a aparecer quando mais precisava de confiança.

Ao princípio, quase não se notava. Um certo tremor nas pernas, quando em pequenina lhe pediram para recitar um poema na frente de todos.

Treinou com a mãe toda a semana, diante do espelho. Sentia-se segura, como em tantas festas do Jardim de Infância, em que lhe davam sempre os papéis principais.

Mas naquele dia, não funcionou. Entrou em pânico, procurou a mãe com os olhos, esqueceu todas as palavras e chorou tanto, sem conseguir dizer nada.

A professora-adjunta Dona Marina, a mesma ajoelhou-se ao seu lado, limpou-lhe as lágrimas e sussurrou:

Depois contas-me, pode ser?

Mafalda só conseguiu acenar.

No fim das aulas, Dona Marina esperou-a à porta.

Então, Mafaldinha, agora podes recitar para mim? Quero muito ouvir.

E assim fez, num tom tão forte, tão orgulhoso, que os adultos aplaudiram emocionados.

Vês? Conseguiste! sorriu Dona Marina.

Mas ali não consegui os olhos de Mafalda voltaram a encher-se.

Isso agora que importa? O que importa é que fizeste. Fizeste, mesmo depois. És uma campeã. Entendes?

Acho que sim

Guardaria para sempre aquele momento. E anos depois, quando a Dona Marina passou a ser a diretora de turma, Mafalda ficou sinceramente feliz. Uma sensação de proteção. Era das suas.

E Dona Marina tinha olho:

A tua filha é uma miúda muito sensível, Olga. Um génio, mas tão frágil! Devia ir para uma escola onde os outros gostem de aprender como ela. Aqui isto é bom, mas é uma escola normalíssima. A maioria pouco se importa. Para a Mafalda, é duro. Não quer destacar-se. Disfarça, abafa a luz própria. Entende?

Olga sabia, mas não podia fazer muito. A escola especializada era longe, o pai prestes a ser pai novamente, e Olga a trabalhar a dobrar para conseguir comprar uma casa melhor.

Tem paciência, Mafalda. Vais ver que tudo melhora

Não te preocupes, mãe. Eu aguento.

E a escola?

Tudo bem! tentava responder com ânimo, mas a cabeça andava pesada.

Nada disso! a mãe protestava, rindo, começando uma guerra de cócegas. Conta comigo! Mas conta tudo.

No final, Mafalda ria-se e contava-lhe o que realmente sentia.

Na escola ninguém a maltratava, mas murmurava-se pelas costas:

Lá está! A Mafalda, outra vez a espetar na História. Com respostas assim, como vamos nós tirar boas notas? Não podia responder pior, só um bocadinho?

Ninguém, até ao dia, teve coragem de lhe dizer na cara até que tudo mudou.

Mafalda! Dá-me dez minutos, senão não acabo! Lorena exigia, impaciente, fazendo Mafalda deslizar o borrão do rascunho pelo tampo da carteira.

Dona Marina, que lia uma mensagem, nem reparou no episódio.

Vasco, o colega do lado, empurrou discretamente o caderno, facilitando à Mafalda a visualização da pergunta.

Obrigada sussurrou ela, indicando-lhe o erro com o dedo.

Nem era preciso explicar. Ela e o Vasco entendiam-se desde a Primária. Um aceno subtíl, uns rabiscos trocados num instante, e estava feito.

O rascunho saltou para Lorena. Até ao fim do tempo, silêncio.

Depois do toque, caos.

És uma desmancha-prazeres! E chamas-te amiga? O fim do período, e fazes isto? Lorena batia com o punho na carteira da Mafalda.

Não tens razão nenhuma, Lorena! respondeu Mafalda, exteriormente calma, mas a ferver por dentro.

Porquê? Porque é que havia de estar sempre a ajudar, quase por obrigação?

A avó diria: Que raio de coisa, rapariga! Evitava dizer palavrões e ensinara-lhe que as coisas feias não se dizem.

Rapariga, tu és uma senhora, não uma estivadora! Porta-te como tal!

Mas tu também és, avó! E eu já te ouvi resmungar

Oh, isso é porque já não dou para o gasto! ria-se a avó. Tu, que és nova, tens de saber comportar-te. Palavra feia em menina não é especial, é ordinário. Não faças como os rapazes!

E porque é que eles podem?

Ai, vida, há coisas que são assim, filha. O que a uns é permitido

Achas que foi assim com a mãe e o pai?

Em parte mas pergunta-lhes tu, um dia. Mas nunca esqueças: homem procura mistério numa mulher. Palavrão em menina fina, nem pensar!

E o que é que isso é, avó? Mistério?

«Podia explicar-te já, mas não me peças isso, menina!»

Mafalda quase ria às gargalhadas.

Com tudo isto, a vontade de responder a Lorena com palavras de arrasar era grande, mas conteve-se.

Deixa a Mafalda, Lorena! resmungou o Vasco, a arrumar os livros. Tens o direito de te fazerem tudo?

Amizade é amizade! disparou Lorena. Até tu copias!

Eu só corrijo o erro! explodiu Mafalda. E estou farta disto! Ajudei, não foi? Então para quê esse drama todo?

Pegou na mochila, passou por Lorena e foi a correr até ao corredor, engolindo as lágrimas.

Lorena deixou-a ir, mas sibilou para si mesma:

Estás feita! Um dia ainda vais pagar

Não se falaram nesse dia, nem nos seguintes. Uma semana depois, silêncio igual.

A Lorena era inventiva. Sabia transformar a vida dos inimigos em verdadeiro tormento. Mas, desta vez, surpreendeu Mafalda.

Mafalda, deixa de embirrar! Duas semanas sem te rires! Anda lá, fazemos as pazes. Vais celebrar o Ano Novo em casa? Ou vais de viagem?

Lorena parecia ter esquecido o passado, sorrindo abertamente. Mafalda relaxou.

Errado. Demasiado ingénua. Lorena nunca perdoava, mesmo as coisas que inventava.

Por isso, quando Mafalda encontrou um bilhetinho na mochila, não imaginou ter sido Lorena.

Mafalda! Gosto muito de ti! Vasco.

A letra era igual à do Vasco, colega e amigo. Nunca passara pela cabeça que podia não ser ele.

O que Mafalda não sabia era que Lorena, aproveitando uns dias a ajudar a professora de português, apanhara um colega de caligrafia parecida. Depois, inventou uma pequena operação secreta, até conseguir o bilhete.

Vais chorar e bem, Mafaldinha! Não é só a mim que a vida custa! sorriu Lorena, enfiando a carta entre os apontamentos de Mafalda.

Na altura, estavam no balneário das raparigas junto ao ginásio, todos entretidos em voleibol. As amigas de Lorena distraíam propositadamente.

Força, Mafalda! Batida mais forte!

Quando Mafalda encontrou o papel, as outras fingiram inocência:

O que tens aí? Ainda por cima, do Vasco! Olhem, não sabia que andavas nessas, brincaram, mostrando o papel a todos. Estratégias! Isto vai dar em casamento! Lorena dançava no balneário, agitando o papel rasgado no ar.

Dá-me isso! pediu Mafalda.

Deixa lá, está tudo na boa! Aliás Vasco! E correu a bater ao balneário dos rapazes.

Mafalda ficou branca.

Só a mãe e o diário sabiam que Vasco lhe inspirava borboletas.

Achas errado gostar dele, mãe?

Não, porquê?

Porque é cedo.

O amor pode nascer cedo ou tarde, Mafalda. Por enquanto, isso não é amor, é só paixão.

O que é paixão?

É como ficares à porta de uma sala incrível. Só espreitas. Não sabes ainda tudo o que pode acontecer. Mas é bonito, sente-se aquela antecipação, aquela alegria. O amor é intenso, complicado, mas sem ele, a vida é menos vida.

Então, é bom?

Muito! Se for com juízo, minha querida.

Já falámos disto mil vezes, mãe…

E Mafalda guardava o segredo como uma jóia delicada.

Agora, Lorena percebera tudo. Pela reação, pelo gesto nervoso de esconder o papel logo ao ler. Devia ter percebido logo que o Vasco não poderia ter posto o bilhete na mochila estavam juntos no mesmo campo de voleibol!

Quando Lorena apareceu, trazendo os rapazes do outro balneário, todos se riram. Mafalda quis evaporar-se de vergonha.

O que se passa aqui? apareceu Dona Marina, naquele jeito de surgir sempre nos momentos certos. O sétimo B calou-se.

Ora, Dona Marina! Temos novidade! Lorena deu um beijo no bilhete e ergueu-o. Mafalda e Vasco, casório marcado!

O que é isso, Lorena? perguntou Dona Marina, com olhos sérios.

Um bilhete! Supostamente do Vasco, para Mafalda, a dizer que gosta dela!

Os risos estavam a rebentar, mas a professora calou logo tudo.

Silêncio! Mafalda?

Nesse instante, Mafalda lembrou-se do dia do poema, dos olhos firmes da Dona Marina. E, como se algo lhe soprasse dentro, endireitou-se, atravessou a sala e disse, com a voz mais alta que conseguiu:

A Lorena encontrou o bilhete e mostrou a toda a gente. Não queria partilhar nada disto.

Percebo, Mafalda. Vasco? perguntou Dona Marina, aos rapazes.

Sim, fui eu que escrevi! surpreendeu Vasco, tirando o papel das mãos de Lorena. Ler bilhetes de outros é feio, Lorena.

Estás a mentir! gritou Lorena, percebendo a manobra.

A humilhação que planeava tinha gorado. Nenhuma gozação, nenhuma chacota. Mafalda manteve-se composta, orgulhosa, mas já não por medo por dignidade.

Sentiu algo estranho nas costas, quase como se lhe crescessem asas. Que tolice!, pensou. Os humanos não voam Mas e aquela leveza no corpo?

Lorena? ameaçou Dona Marina.

Foi só brincadeira! Ele é que está a inventar… já quase chorava.

Dá-me isso! Vasco guardou o papel, pôs-no na mão de Mafalda. É para ti. E não deixes que mais ninguém leia, está bem? Dona Marina, hoje há composição? A Dona Galina prometeu. Não estudei…

Ai, que miúdo honesto! Há sim, mas vou pedir à Dona Galina que mude o tema. Pronto, toca a todos para a aula! O sinal já tocou!

A turma dissolveu-se, ignorando a Lorena de cara vermelha e as trocas de sorrisos entre Mafalda e Vasco.

Este papelinho foi colado no diário de Mafalda. E só o partilharia muitos anos depois, no próprio casamento.

Toma, marido!

O que é isso, mulher?

O início de nós

Confias tanto assim em mim para mostrares o que está escrito?

Mas tu já sabes tudo.

Tudo?

Bem, há segredos. Lembras-te do que te disse sobre o limiar e a porta da paixão?

Lembro.

Eu já dei o passo e fechei a porta! Agora já não gosto de ti Amo-te.

O olhar dela brilhou, Vasco percebeu bem, mesmo no meio do ruído e dos convidados.

Mesmo? Já não gostas, amas?

Claro! Ouviste bem?

Agora ouvi! Doces beijos, Mafalda!

Muitos. Amar é sempre melhor

Neste dia, aprendi: a confiança é o passo mais difícil, mas é o que realmente nos faz voar. E nunca, nunca devemos hesitar em defender quem somos e o que sentimos.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Uma Brincadeira Engraçada