Um armário caótico, pilhas de roupa amarrotada, sopa avinagrada no frigorífico tudo isto era a nossa casa. E eu caminhava à deriva por esse cenário, como num sonho enevoado em que o chão se afasta dos nossos pés. Resolvi abordar a minha mulher com palavras leves, mas, num repente, ela devolveu silêncios acusadores e improvisos de mágoa.
Apaixonei-me instantaneamente por Mafalda, mal a vi; foi como se um nevoeiro salgado do Atlântico me envolvesse e não conseguisse sair. Não resisti ao seu encanto soalheiro e ao jeito dela de rir da vida. Senti-me um sortudo, com uma mulher tão bonita, espirituosa e asseada ao meu lado, e não hesitei em pedir-lhe em casamento numa rua de Lisboa perfumada a jacarandá.
Decidimos juntar os nosso destinos e, logo nos primeiros dias, Mafalda avisou-me: não era dada a tarefas domésticas. Preferia mergulhar na carreira, dividir as tarefas da casa a meio meia dúzia para mim, meia dúzia para ela. Aquilo pareceu-me justo e sensato, uma promessa sussurrada no eléctrico 28 a caminho da Graça. Mas, naquela época, não adivinhava os labirintos que o tempo nos traria.
Distribuímos as obrigações: ela jurava dar conta do recado, equilibrando trabalho e casa com o jeito de quem joga malabares numa feira medieval em Óbidos. Confiei, sem pestanejar.
Mas seis meses depois, vieram os ventos estranhos. A carreira de Mafalda não floresceu como as amendoeiras do Douro, só havia empregos pontuais, horários retorcidos, um salário a pingar de quando em vez, quase sempre gasto em vontades só dela. Eu, por meu lado, trabalhava do nascer ao pôr-do-sol, como um pescador sem retorno. Mas Mafalda, com um golpe de memória selectiva, lembrava-me das tarefas partilhadas; e quando esquecia as dela, fechava os olhos e adiava.
Ao início, cumpriu o combinado com afinco, mas logo a chama apagou. A casa enchia-se de pilhas de roupa como dunas em Sagres, tudo desordenado, e eu era o alvo das culpas: dizia que lhe devia mais ajuda. Doía-me ouvir aquilo, como pé descalço em calçada portuguesa partilhada ao meio. Era um peso brutal tentar conciliar a labuta do escritório com a casa sem afundar.
Eu acreditei, sonhador, que as coisas mudariam quando nosso filho nascesse: que Mafalda, durante a licença de maternidade, cuidaria de tudo entre as quatro paredes. Mas foi o contrário: a confusão aumentou e o tempo torceu-se num nó cego. Às vezes, numa daquelas noites paradas de verão alentejano, penso que talvez fosse melhor viver só. À desordem já nossa, juntaram-se discussões que ecoam como gaivotas barulhentas na Ribeira.
Por mais que tente vestir a pele de Mafalda, ouço sempre o eco do meu próprio cansaço. O escritório, a casa, o miúdo, as sopas sem receita não peço luxo, só descanso. Pergunto-me, nesse vórtice de sonho confuso, o que faz Mafalda durante o dia, o que a impede de preparar o jantar ou varrer o chão. O nosso bebé tem apenas dois meses e dorme muito; talvez, penso, eu conseguisse despachar algum serviço nesse tempo. Fico a imaginar como será se tivermos mais filhos. Quero igualdade e parceria, mas parece-me que Mafalda ficou presa numa ideia enevoada de justiça.
Não desejo desmanchar a família o amor pelo nosso pequenino é maior do que qualquer frustração. Mas estou exausto, no limiar da minha paciência, como se o Tejo tivesse secado ao fundo da janela. Não sei como seguir. E tu, perdido neste sonho ao sabor dos ventos portugueses, de que lado ficarias nesta história?







