Um Copo de Leite
Nem sempre é fácil, nem para quem passa necessidades, nem para aqueles que partilham o seu caminho. Sei bem disso trabalho há oito anos no serviço social aqui em Lisboa. O tempo passou e fui-me secando por dentro, tornei-me mais ríspido, quase sarcástico, sobretudo quando alguém comentava sem saber da missa a metade o que faço. E tu, quem és para te meteres na minha vida?, perguntava eu, atravessando o curioso com um olhar verde quase felino, escondido sob a minha trunfa ruiva. Normalmente, depois disso, ninguém se atrevia a continuar, já nem para mais perguntas ficava vontade. E, às vezes, até lhes dava para fugir, nem eles sabiam bem para onde. Por isso todos no bairro já me chamavam Pedro Peste.
Durante todos estes anos andei a comprar alimentos com o ordenado, limpava as casas dos idosos que acompanhava e sabia sempre encontrar uma palavra, mesmo com os mais resmungões. Só uma vez houve chatices, quando um velhote, o senhor Armando, me ofereceu uma tablete de chocolate. Estava estritamente proibido aceitar prendas, nunca as aceitei de ninguém, mas naquela tarde acabei por vacilar. Era só uma tablete, como é que ia recusar? Trouxe-a para casa, mas o peso na consciência foi tanto que nem um quadradinho consegui provar parecia que ia engasgar-me. Dei o chocolate ao miúdo da vizinha, e recusei o presente na visita seguinte. Só que, despeitado, o senhor Armando queixou-se na Segurança Social: Hoje em dia, os assistentes querem envelopes com dinheiro!. Quiseram despedir-me. Mas não reagi Podem dispensar-me, não sou saco de pancada de ninguém. No fim, foram os próprios idosos a defender-me. Entre eles estava a Dona Madalena Ventura.
Já sentia estima pela Madalena, mas, depois disto, ligou-se a mim como se fosse minha irmã irmã essa que nunca tive. As nossas histórias eram parecidas, ambas marcadas pelo azar: perdemos os pais cedo demais. A Madalena ficou com uma limitação motora do tempo de escola; eu, apesar de parecer inteiro por fora, carrego por dentro feridas sem fim, tão fundas que ninguém, nem a Madalena, consegue perceber. O que nos igualava era a ausência de filhos. A Madalena queria tanto, eu resignei-me com o tempo. Ela, mais aguerrida, não deixava que a minha amargura tomasse conta. Aliás, nem mesmo o padre Manuel conseguiu convencê-la a abandonar os sonhos de palco quando andava pela paróquia a encorajá-la a lidar antes com agulhas de bordado. Não tinha os melhores punhos, mas persistência não lhe faltava. Fazia panos, lenços, e, um dia, lá conseguiu bordar um vestido de linho com tal detalhe que foi parar à Feira Popular, ganhou prémio e tudo. No fim, venderam-no. Com o acordo dela, claro. Quando a Madalena recebeu a quantia quase trezentos euros , ficou sem chão e chorou à chamada, porque nunca antes tinha tido um ordenado.
Calma, vamos dar conta do recado!, ri-me, segurando-lhe a voz. Compramos mais vestidos, trabalho não te há de faltar nem para dois anos. Pensa antes no futuro e larga essas ideias que te fazem sofrer.
Ela não disse nada, mas ficou magoada. Como não havia de ficar, se os sonhos dela agora centravam-se num marido, em ter uma casa normal, tudo aquilo que via nos filmes brasileiros de domingo à tarde e que, para ela, parecia tão impossível? Tudo o que podia era invejar os outros.
Com a fama do vestido, ligaram-lhe do centro de reabilitação e convidaram-na para a turma de dança adaptada queriam criar pares para um espetáculo. Disse logo que não, achou que era piada de mau gosto.
Mas insistiram. Tente, Madalena! É o momento de explorar o seu dom. Combinámos com o serviço social, terá companhia para as aulas. Vá, arrisque, nunca se sabe!, forçou a professora, Dona Margarida dos Santos, voz grossa. Eu sou a responsável, disse ela. Amanhã aparece um autocarro para a trazer, venho buscar-la depois de almoço.
No dia seguinte, veio mesmo o motorista, senhor Álvaro, com o cabelo branquinho e a cara fechada, apanhou a Madalena, que ia toda cuidadinha quis nem pôr gorro para não amassar os caracóis do cabelo, que eu próprio, Pedro, tinha ajudado a preparar. Dentro do autocarro, já estava o rapaz da cadeira de rodas. Chamava-se Hugo, o par da Madalena nos ensaios. Ela ainda corou de vergonha ao apertar-lhe a mão forte e morena.
Na Fundação Gulbenkian, o motorista e eu ajudámo-la pelo corredor até ao salão; o Hugo, muito ágil, ia sozinho. O primeiro ensaio foi um desastre. Suavam, erravam, ouvindo correções da coreógrafa, uma miúda alta e espigadinha, mais leve que um pardal, e da pequena Dona Margarida. Mas pouco a pouco, semana após semana, a Madalena foi ganhando ritmo, até deixou as linhas e os bordados de lado, tão viciada ficou na dança.
E hoje, se preparava para mais um ensaio, esperei-a, calado. Talvez o cansaço se notasse no meu rosto porque a Madalena, rindo, atirou:
Epá, que cara é essa? Estás mais carrancudo que o costume!
Olha que não estou nada!, tentei disfarçar.
Temos só quarenta! brincava ela. A esta idade, ainda podemos construir uma família!
Isso outra vez Abanei a cabeça. Já tive marido. Sete anos durou e depois largou-me. Fez bem, não o julgo. Talvez tenha sido castigo de andar atrás dos rapazes em miúda. Agora tenho mais pena dos meus pais não terem conhecido netos.
Não digas isso. No teu lugar, já me tinha casado outra vez.
E ouvir sermão?!
Se não queres marido, ao menos um filho dá para arranjar artificialmente, como vi na sic de manhã. Agora dizem que é de graça.
Isto não é tão simples. Achas que o meu ordenado de mil euros dá para milagres?
Epá, depois continuamos. Que vais vestir?
Nem me deixas acabar Estou bem com a camisola cor-de-rosa e saia cinza!
Devias usar o vestido do espetáculo, para ires-te habituando!
Só o visto na geral. No autocarro sujava-o!.
No ensaio grande, a Madalena vestiu finalmente o vestido cor de vinho, coberto de missangas, esvoaçante, daqueles que fazem sonhar. Mal entrou no centro cultural, sentiu toda a sala olhar para ela e para o Hugo ele de fato escuro e gravata, ao lado de uma mulher magra, apoiada numa bengala.
Nos bastidores, o Hugo aproximou-se, deu-lhe um beijo na bochecha: Vai correr bem, acredita! Ela não respondeu, sentiu o rosto arder, só queria que ninguém notasse. Nem se deu conta que a outra mulher se aproximava:
Não se preocupe, tudo vai correr bem, disse, meiga, apoiada na bengala.
Quem é? perguntou a Madalena, sentindo o coração apertar.
Madaleninha, apresento-te a minha esposa, a Rosário!
De relance, Madalena viu a aliança na mão do Hugo nunca a tinha visto antes! Tudo se desmoronou em segundos; parecia que faltava ar. A cabeça rodou, o chão fugiu. A Dona Margarida, aflita, chamou logo por mim:
O que se passa com a Madalena? Pedro, ela está mal. Precisa do médico!
Eu tentei acalmar Só quer ir para casa, rebentou com os nervos. Deixem-na.
Para casa, não para o hospital!, insistiu a professora.
De volta no autocarro, a Madalena agarrou-me pelo casaco nervosamente: Onde está o Hugo?
Ficou. Vai dançar com outro par da casa. Tu és uma senhorinha, não precisas disto. Fica por aqui.
Ficou magoada. Ao chegar a casa, atirou-se para a cama no vestido de festa.
Acabaram-se as excursões? troçou o motorista, pela primeira vez sorrindo.
Acabaram, sim senhor! Faça o favor de se ir embora! respondi seco.
Sentei-me ao lado dela. Vais contar-me ou não o que aconteceu?
Demorou, mas num lamento murmurou: O Hugo é casado!
Quase ri, tão aliviado fiquei por não ser nada pior.
E então, achavas que tinhas alguma coisa ali? Estavas a sonhar alto demais
Vai-te embora, Pedro! Nunca mais me apareças, estás a ouvir? És mesmo um peste!
Se tivesse gritado, acreditava que fosse a sério. Mas conheço-a demasiado bem para levar a peito.
Sai de casa, as pernas a tremer. Amanhã peço transferência, não aguento mais. Se me deixarem, vou para a creche, como nos velhos tempos. Pelo menos, lá ninguém me chamava peste.
Cheguei a casa exausto, sem forças para jantar. Só bebi um chá, deitei-me no sofá, a cabeça cheia de dúvidas. Que bem lhe fazia perceber o que tem, viver só uns dias! pensei, antes de adormecer.
Acordei com o telefone. Era o padre Manuel: Pedro, venha já, tenho de levar a Madalena ao hospital
Nem domino as emoções, vesti-me a correr. Ao chegar, vi a polícia à porta e alguns vizinhos. O padre falou-me: A Madalena telefonou, maldisposta, não disse nada. Quando cheguei, estava desmaiada no chão, frascos de comprimidos caídos
Um agente sério perguntou-me quem era. Sou assistente social, venho muitas vezes.
Parece que tentou suicídio, sussurrou o polícia.
Mas ela é um anjo de bondade
Talvez alguém a tenha levado a isso. O inquérito vai esclarecer. Tem a chave de casa?
Tenho.
Venha ligar a eletricidade, tirar a comida do frigorífico para o balcão depois fecho a casa.
Vi o telemóvel dela, mas o agente proibiu que levasse isso. Só depois de tudo selado, levou-me à esquadra para explicar a situação.
No hospital, tentei saber como estava. A Madalena Ventura entrou com intoxicação. Está nos Cuidados Intensivos, mas já está consciente, disse a funcionária.
Posso visitá-la? perguntei, aflito.
Nem pensar ainda se mantêm as restrições do surto de gripe. Nem flores. Só ligue quando a transferirem.
Os dias seguintes liguei, fiquei sem respostas. Ao quarto dia, uma enfermeira ligou:
Fala da parte da Madalena Ventura. Hoje espere sob a janela do segundo andar, terceiro à esquerda, frente ao portão. Não passe nada, nem flores! Ela vai acenar ao meio-dia.
Assim fiz. No meio das tarefas, corri ao hospital. Esperei debaixo da janela, o coração apertado. Quando apareceu, branca, magra, sorriu com os olhos brilhantes. Tentou falar, mas não se ouvia nada. Fez sinais, exibiu uma folha: DESCULPA. Sorri-lhe, limpei as lágrimas, acenei-lhe de volta e fiz-lhe sinal para ligar, assim que pudesse.
Naquele passeio, derretendo a neve já quase primavera, tudo em volta pareceu novo as vitrinas, os prédios, o sol dourando a cúpula da igreja no Bairro Alto. Senti, finalmente, que a mágoa do inverno ficara para trás. E, sorrindo de novo, percebi que, afinal, não sobrou espaço para tristezas. E recordando a Madalena, pensei com ternura: E não é que a mulher tem mesmo mau feitio é mesmo uma cabra das grandes.







