Tulipas: A Beleza Colorida que Floresce na Primavera Portuguesa

Tulipas

Eh pá, que maravilha! Dona Amélia, a senhora é uma feiticeira!

As tulipas coloridas faziam brilhar o olhar. Mariana sabia bem o quanto aquela beleza tinha custado a Dona Amélia. Foram vários anos de batalha para aquela vizinha transformar um pátio cinzento e triste num pequeno paraíso florido. Até o parque infantil, para onde agora caminhavam Mariana e a pequena Leonor, era obra de Dona Amélia. Há pessoas que têm mãos de fada, e ela era um caso desses! O pátio parecia outro: limpo, arrumado, cheio de espaço. E as flores… essa era conversa de outro nível. Dona Amélia plantava tudo com as próprias mãos. Mariana já ali morava há uns quinze anos, desde que os pais decidiram trocar a vida em Lisboa por uma urbanização pacata em Setúbal. Nesse tempo todo, se há alguém que já semeou flores naquele pátio foi Dona Amélia, e só depois de ter ficado viúva. Diz quem sabe que é difícil habituar-se à solidão nessa idade. O filho, o Rui, tinha ido viver para Braga com a família. Mais ninguém ali por perto.

Mudança? Nem pensar! O coração dela estava bem preso àquele pedaço de Setúbal: foi lá que cresceu, viveu amores e desamores, fez amizades eternas. O Rui fazia a sua vida, claro, a nora tinha mãe e apoio de sobra, e Dona Amélia sentia-se um bocadinho peixe fora de água. Afinal, por mais simpática que fosse, era sempre a sogra.

Nunca se pôs a chorar as mágoas com Mariana, mas esta via bem: quando se está sozinho, pesa. Mariana sabia o que isso era. Depois do divórcio do primeiro marido, quase precisou de rede para não dar um malho. Por meia dúzia de acasos talvez até tivesse conseguido manter o casamento, era fechar os olhos àquela escorregadela. Mas como é que se faz isso se a amante do marido era logo a Andreia grande amiga, oito anos de escola juntas! Mariana enfiou o orgulho na gaveta, agarrou nas chaves do apartamento e entregou-se à desgraça uma semana de sofrimento, a lamber feridas e a devorar gelado à colherada, com olhos de peixe morto. Tinha tirado férias só para isso.

Mas não durou. Estava ela no sofá, a abraçar um balde de gelado e a chorar como se o Benfica tivesse perdido o campeonato, quando batem à porta, ou melhor, parece que estão a tentar deitar a casa abaixo. Em vez de se assustar que bem poderia foi abrir. Andava tão derrotada que já nem media perigos.

Ver Dona Amélia ali quase mete medo. Sempre tão composta, sempre com aquele sorriso tranquilo, a saber de cor todos os meninos do pátio, perguntando pelas barrigas das mães, pelas cólicas do bebé, se a Leonor já dorme melhor, e o Tiaguinho já deixa a mãe descansar

Sabia-se que ela era médica. Pediatra! Não só de formação como de alma tinha sempre tempo, coração e mãos para qualquer miúdo do bairro, de graça e sem pressas.

Mas aquela Dona Amélia era outra. Descabelada, pálida, os olhos a transbordar tristeza… Viu Mariana, e de repente pareceu-lhe que saia fora da própria dor e ficava de olho de mãe-galinha:

Que aconteceu, Mariana? Estás nesse estado… estás doente?

E foi ali, na cara dela, que Mariana percebeu: alguém tinha passado muito pior. Se para ela perder o marido era difícil, ao menos sabia que ele andava algures, são e salvo, talvez até feliz. Mas Dona Amélia tinha perdido tudo de vez. Não deu tempo para nada. O senhor António teve um ataque, achou que passava com uns comprimidos, mas quando decidiram chamar o INEM, já era tarde demais. Dona Amélia, que estava habituada ao mercado todas as manhãs para comprar requeijão fresco e legumes, encontrou o marido caído à porta. Só percebeu que algo se passava quando o leiteiro lhe chamou a atenção para a porta entreaberta.

Nesse dia Mariana só teve tempo de agarrar o telemóvel, enfiar a primeira gabardina e ir atrás da vizinha.

Voltou a casa já noite cerrada. O gelado derretido foi pelo cano abaixo. Ficou ali pela cozinha, a rodar a chávena fria com o dedo, a pensar. No dia seguinte foi, finalmente, entregar os papéis do divórcio. Não podia continuar a adiar. Ou avança, ou fica presa para sempre no charco da mágoa. E não é isso que queremos da vida, pois não? Disse a si mesma que não valia a pena desperdiçar o tempo em zangas e traumas. Que o melhor era dar um passo à frente.

Primeiro devagarinho, depois com mais ânimo, saiu daquela espiral. Trabalho novo, nova paixão… Também nada foi fácil, mas agora tem o Diogo e a Leonor e a vida voltou a ter cor.

Dona Amélia, claro, trouxe sempre aquela nuvem cinzenta atrás. Habituou-se à dor, como se habitua quem já não tem alternativa. Mas Mariana via bem que, apesar de sorrir e perguntar por todos, aquilo era tudo espuma: lá no fundo, o coração já não aquecia nem às flores.

Passaram-se anos. Mariana soube que Dona Amélia se reformou e meteu-se quase a tempo inteiro na casinha da aldeia. Mas teve de vender precisava ajudar o filho no sinal de uma casa em Braga. E como dizia ela, “filho único, não há que pensar muito!”

Quando perdeu a casa do campo, Mariana percebeu que não podia abandonar aquela mulher que sempre ajudou toda a vizinhança. Não se pode largar alguém que está sempre pronta a largar tudo por nós e pelos nossos filhos.

A maioria dos vizinhos nem ligava, estavam entregues aos seus próprios dramas. Mas os pais de Mariana já a tinham ensinado de outra forma:

Não fiques de braços cruzados, Mariana! Nunca se sabe quando podes ser tu a precisar. Pode não te resolver a vida, mas um ombro amigo já não é mau.

Sempre seguiu aquele conselho. Para ela, família era isso: como a história do nabo, puxar todos juntos até o problema vir cá para fora. Mesmo com os pais agora a viver no Porto, falava todos os dias, e sentia o amor deles, à distância que fosse.

Só que palavras não chegavam para Dona Amélia. Mariana bem tentava, mas a vizinha murchava a olhos vistos, saía menos de casa, parecia que tudo doía e nada a animava. O Rui não ia voltar, tinha feito a vida noutro sítio orgulho misturado com saudade.

Exceto umas poucas crianças para tomar conta de vez em quando, e um ou outro almoço com amigas já de cabelos brancos, sobrava-lhe a companhia da televisão e do silêncio. Uma solidão que até metia medo, capaz de nos pôr a uivar à lua de tão pesada.

Mariana começou a perceber que toda a conversa era tempo perdido. O silêncio de Dona Amélia tornava-se cada vez mais espesso. Tinha de agir talvez precisava de acção, de sentir-se útil.

E foi assim que, numa daquelas epifanias dignas de filme cómico, Mariana lembrou-se das tulipas. Culpa do Diogo, que um dia chegou a casa com um grande ramo de tulipas para a surpreender, quando estava grávida da Leonor. “Eureka!” gritou ela. Diogo quase caiu para o lado, achando que Mariana andava a ler livros de auto-ajuda demais para uma grávida equilibrada. No dia seguinte, Mariana estava à porta de Dona Amélia, com um caixote de bolbos de tulipa comprado naquela manhã. Diogo, num gesto rápido de sobrevivência conjugal, fugiu do cenário assim que ouviu a fechadura rodar.

O resto é comigo! garantiu-lhe Mariana, toda confiante.

A ideia pegou fogo.

Mariana contou uma desculpa tão convincente, sobre não conseguir resistir à velhota das flores no mercado, que se enganou a ela própria. E ainda rematou:

Lembrei-me é que a senhora sempre tinha as tulipas mais lindas na terrinha! Ajudou tantas vezes a minha mãe com aqueles ramos… Dona Amélia, pelo amor de Deus, salve-me! O nosso pátio está uma tristeza! Se pusermos aqui flores, não vai ficar um jardim à maneira? Mas eu, com este barrigão, não valho nada para plantar! e juntou as mãos num drama digno de novela.

Dona Amélia mexeu nos bolbos, ameaçou-a com o dedo e milagre! sorriu, mesmo que só um bocadinho.

Vai ficar um mimo, Mariana! Mas olha que só tulipas não chega, são flores de pouca dura. Temos de pensar noutros plantios, senão em duas semanas já era… E a beleza, convém durar até ao São João!

E assim começou a grande saga do jardim maravilhoso do pátio.

A vizinhança não estava propriamente entusiasmada para sujar as mãos, mas para dar uns euros para plantas e bolbos, aí já agitavam carteiras. Mariana tratou da logística ao princípio, depois nasceu Leonor e Dona Amélia tomou conta do recado. Só que as flores não lhe chegaram. Voltou a usar as antiguas influências e arranjou valentes melhoras no pátio: recantos floridos, um parque de criança novo em folha, bancos pintados com primor.

O pátio ganhou vida.

Até os vizinhos do lado dos homens, sempre tão práticos, puseram mãos à obra e fizeram vedação branca a delimitar os jardins. Dona Amélia emocionou-se mesmo dizem que chorou ao ver aquela cerca.

A partir daí, quase só lhe viam o casaco velho, o regador e as mãos na terra. Dava gosto ver como lhe voltou um brilhozinho aos olhos Mariana agradecia ao marido, mentalmente, pelas benditas tulipas que mudaram tanto.

Quando a Leonor começou a andar, ia todos os dias com a mãe ao jardim, ansiosa para ver as primeiras tulipas da Dona Amélia florescerem.

E um dia lá estavam! Espectáculo de cor.

Mariana ficou tão abananada que largou por um segundo a mão da Leonor. Lá foi a menina, em corrida frenética na direção do passeio.

Leonor! Mariana correu atrás, a tentar alcançá-la antes do inevitável.

Dona Amélia, que estava de pincel na mão a pintar a cerca, espreitou e riu-se:

Apanha-a, Mariana! Olha o teu ginásio aí, depois não digas que não fazes exercício!

Pois, nem me fale! Mariana apanhou a Leonor e a miúda desatou aos guinchos, a fugir das bejocas da mãe. Onde é que se vão buscar miúdas tão elétricas assim, hã?!

São rápidas essas tuas meninas… Já reparaste que ela corre sempre em bicos dos pés? Dona Amélia franziu o sobrolho.

Já. Em casa nota-se ainda mais. É mau?

Não custa prevenir. Mostra essa menina a um neurologista, só para despistar, está bem?

Tem algum para recomendar?

Logo vou ver. Aparece mais logo, que pode ser que conheça algum bom. Os mais velhotes estão todos nos quintais ou a tomar conta de netos e bisnetos. Os novos mal conheço, vou perguntar ao rádio.

Ao quê?

Rádio galinha, filha! Telefone sem fios: vou ligar a toda a gente, logo sei novidades! Dona Amélia voltou a rir.

Depois de agradecer, Mariana foi para o parque com a filha. No caminho de regresso, ficaram boquiabertas: uma pequena peste, talvez uns dois anos mais velho que Leonor, arrancava as flores todas do canteiro. Os pés pequenos, mas assassinos, tinham deixado as tulipas em fanicos. Para cúmulo, a mãe do vândalo estava encostada à cerca, a ver aquilo tudo como se o filho estivesse a pintar um quadro digno do Museu Gulbenkian.

Desculpe, mas o que é que se passa aqui?! Mariana tentou ser a adulta na sala.

Passa, menina? Nada! O Tomás está a brincar! e sorriu, orgulhosa, como se o filho tivesse acabado de inventar os pasteis de nata.

Mas ele está a destruir as flores!

E depois? As flores são para serem apanhadas, não são?

Não, estas não são flores selvagens, alguém trabalhou muito para as plantar!

Ai, que gentinha sensível! Olhe, não se enerve com essas coisas… São só tulipas, outras nascem!

Mariana aguentou até onde pôde. Trincava os dentes para não gritar e não assustar a filha, que agarrava o dedo da mãe com força.

A senhora pode recolher o seu filho? Vou chamar a polícia!

Valha-me Deus! Agora tudo é polícia! Faça favor, chame. O que é que me vão fazer?

Pegou no Tomás, que começou a chorar aos berros.

Estão a ver? Agora vai ficar a chorar o dia todo!

Azar o seu! Mariana disse num tom baixo mas firme, perceptível para os curiosos já de olho na situação.

Quando a barulheira acalmou e a vizinha se foi embora a resmungar, Mariana ainda apanhou Dona Amélia à porta, um regador numa mão, um bolinho para a Leonor na outra, com ar derrotado.

Como é possível? O que é isto, Mariana? Eu…

Ia começar a explicar, mas Dona Amélia perdeu a força, largou tudo na escada, e arrastou-se até casa, como quem carrega o mundo.

Mariana ficou sem palavras, levou a filha para cima, mas aquela imagem doía.

Dobrou os turnos à porta de Dona Amélia, tentou telefonar ao filho, Rui:

Ela está bem, só não quer ver ninguém… está muito em baixo, mas não há nada de grave. O que aconteceu?

Mariana explicou a tragédia do canteiro, garantiu que não a ia deixar sozinha, e prometeu arranjar solução.

Nessa noite, Leonor ficou com o pai. Mariana fez uma ronda pelo prédio casa a casa, a explicar em poucas palavras a sua ideia.

No dia seguinte, o pátio foi invadido pelos moradores: cada um trazia uma caixa, um saco, um vaso. Houve mãos e pazadas para todos. Mariana, cansadíssima mas determinada, sentiu aquele impulso que só as mães ganham ao verem os filhos assustados ou tristes. A pequena Leonor, que ficara aterrorizada ao ver as flores arrancadas, precisava de aprender que, às vezes, a beleza se volta a construir.

No sábado seguinte, Mariana tocou à porta de Dona Amélia.

Dona Amélia, preciso muito de si, a sério. Venha comigo, faça favor!

De má vontade, quase a arrastar-se, a vizinha lá vestiu o casaco e desceu. Quando abriu a porta foi atingida por uma onda de luz e cor: um mar de tulipas, canteiros novos e flores por todo o lado. A lágrima escorreu-lhe sem aviso.

Então isto…? Quem fez isto tudo?

Dona Amélia, perdoe-nos! Não conseguimos salvar as flores antigas, mas todos juntos fizemos um novo jardim. Olhe para estes meninos e pais, muitos deles são miúdos que salvou das constipações, das bronquiolites… Sabemos o quanto faz falta aqui. Não nos deixe, está bem? Pode não gostar de novidades, mas precisamos das suas mãos. Eu nem catos consigo manter! E a senhora faz nascer até limões e palmeiras! Ajude-nos a manter este pátio bonito, pode ser?

Oh, Mariana, obrigada… Dona Amélia limpou as lágrimas e endireitou-se.

E pronto, lá foi ela inspecionar as novas plantações com ar decidido, como se nunca tivesse saído dali. E a vizinhança sabia: a Dona Amélia ainda durava muito mais que as tulipas.

E assim ficou o pátio: mais colorido, mais unido, e um bocadinho mais feliz.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Tulipas: A Beleza Colorida que Floresce na Primavera Portuguesa