A amante do marido era impecável. Uma mulher como ela teria escolhido a si mesma, se tivesse nascido homem.

A amante do marido tinha uma beleza rara. Se fosse homem, ele teria escolhido ela também. Sabem, há mulheres que conhecem o próprio valor: caminham erguidas, com vestes dignas, encaram os olhos fixos, ouvem até o fim. Não se apressam, não gesticulam de forma agitada, não sentem necessidade de exibir ombros ou peito para chamar atenção; mantêm uma serenidade régia e jamais se perdem de vista.

Ele a teria escolhido, talvez exatamente por ser o oposto dele. Como era ele? Sempre a mil, elevava a voz com os filhos ou com o marido, deixava cair as coisas das mãos, não conseguia concentrarse em nada; no trabalho chegava sempre atrasado, e os chefes estavam perpetuamente descontentes. Vestia sempre calças e tshirts ou suéteres, pois quem teria tempo de passar uma saia ou uma blusa? Nem lembrava quando se vestira pela última vez com rendas ou volantês. Apenas a máquina de secar roupa de última geração lhe poupava o peso de passar.

A amante, porém, era impecável. Silhueta, postura, pernas longas, cabelo abundante, olhos claros, rosto lindo dava vontade de tocar! Desde que a viu, não conseguia respirar com calma. Tudo aconteceu depois de uma visita de trabalho a um bairro mais afastado de Lisboa. Cansada e faminta, entrou por acaso num café. Estava cheio; só um canto tinha uma mesa livre. Sentouse, levantou os olhos do cardápio e… nada lhe pareceu estranho: reconheceu o marido que estava à sua esquerda. E viu a amante ao seu lado.

Ele mantinha as mãos entrelaçadas nas palmas, beijava longamente os dedos. Parecia uma tela: os dedos exalavam perfume de manjericão. Quis olhar para o céu, mas reconheceu que a mulher era realmente diferente.

Um sentimento estranho a invadiu. Como quem sente uma queimadura: vê as marcas vermelhas na pele e sabe que, em segundos, doerá; até lá, vive à espera da dor, tentando aliviar a ferida com sopros desesperados.

Precisava sentir a dor, mas por dentro havia apenas vazio. Nada mais.

O marido chegou a casa pontualmente. Normalmente era calmo e equilibrado. Ela era quem sempre se inflamava, impetuosa, impulsiva. Ele era um sanguíneo moderado, com um humor agradável, totalmente oposto a ela.

Todo o resto da noite, ela queria confrontálo diretamente, com tom imparcial: Então, como fica a história da amante? Vite ontem no Café Verde, era muito bonita, entendote, eu também não teria ficado calada. Enquanto falava, observava o suor escorrendo pela testa dele, o rubor que subia ao rosto, lutando para manter a compostura.

Ele poderia ter respondido com humor, mas o tom dela não era adequado para a situação.

Ela queria perguntas diretas: Então, e agora? As crianças vão conhecer? Onde fica a nova mãe? Vou mudar para um apartamento próprio ou pensasse mudar para a nossa casa? Ele não respondeu. Como de costume, abraçoua e adormeceu rapidamente ao seu lado.

Talvez nem tivessem chegado à parte física; ele se afastou para o outro lado da cama, riu consigo mesmo. Pensou: É assim que pensa quem vê a traição nos olhos e insiste que tudo parece certo. Talvez ainda estivessem no início, no estágio dos olhares, dos corações a baterem no mesmo ritmo. Ele sabia esconderse, não trair nenhum olhar nem movimento.

Deitouse na cama, dormiu em fragmentos, sonhou com flores coloridas e amantes em vestidos vermelhos desconhecidos.

De manhã, levantouse com a cabeça pesada, moveuse mais devagar que o habitual, preparou os filhos para a escola com calma. Passou o dia perguntandose o que fazer. O que costumam fazer as mulheres que pegam os maridos com outras? Procurar no Google? O Google não lhe deu resposta. Não tinha plano. Continuar a viver? Não precisava tentar; já vivia como antes. A mesma rotina, o mesmo marido que chegava a tempo, sem perfume estranho na camisa, os filhos ruidosos, ida ao cinema aos domingos. Tudo igual, as duas partidas de amor por semana, às vezes três, se fosse atenta aos detalhes.

Será que errou no café? Não. Ligou ao almoço; ele não respondeu. Pegou um táxi e voltou ao mesmo café. Deu ao taxista uma breve explicação: esperava um envelope importante para o trabalho. O carro do marido estava estacionado em frente. Viuos sair juntos e subir ao carro.

Pálido, pediu uma garrafa de água ao taxista, simulou uma chamada e gritou ao telefone fechado: Mas que vergonha, com o vosso pacote! Eu não fico aqui, vou ao trabalho! Até então, pouco lhe importava o que o taxista pensasse.

Quando se descobre uma amante, a vida vira de cabeça para baixo. Divorciar? Talvez. Mas como viver de outro modo? Suportar? Para quê, para quem?

Lembrouse de um casal de amigos, onde o marido também tinha uma amante. Escondiase, mentia, mas a esposa acabou descobrindo. Foi escândalo; ele insistia que não era verdade, até ser pego por mensagens no telemóvel. Diziam que eram sabotagens, inveja de concorrentes.

Então, a esposa disse firmemente: Nunca mentiria. Seria ridículo negar. Se faz algo, tem a responsabilidade de reconhecer. Decida: ou corta a amante e fica com a família, ou parte, mas cuide dos seus.

Aquela frase lhe pareceu admirável. Que pessoa séria tem ao seu lado! É fácil dar conselhos de canto, sem estar no meio da tempestade. Quando a vida te coloca no centro, quando os outros aguardam decisão e equilíbrio, a coragem e o equilíbrio desaparecem num instante.

Ela voltou ao mesmo café e sentouse à mesa deles. A amante levantou os olhos, surpresa. O marido ficou rígido, depois esfregou as mãos sob a mesa. Silêncio. Era curioso observarlos. A amante percebeu de imediato quem era. Ou já sabia.

O marido tentou falar, mas ela o interrompeu com a mão levantada: Não é como se eu não tivesse percebido, certo? Disse calmamente: Não há nada anormal aqui. Acontece. Mas, por favor, pensem em como resolver: temos filhos, apartamento, pais idosos. Vocês são adultos, conseguem gerir. Levantouse. O vestido recémpassado lhe ficava bem. Lamentou não usar uma roupa elegante há tempos.

Às vezes, a coragem é dizer a verdade e seguir em frente com dignidade, por mais difícil que seja. A dignidade de uma mulher não vem de sapatos ou vestidos bem passados, mas da tranquilidade com que, no fim, recolhe as forças e continua a viver a sua vida.

A lição que ficou gravada foi que, quando a confiança se quebra, a única forma de reconstruir não é através de mentiras ou vingança, mas mediante a honestidade, o respeito mútuo e a escolha consciente de onde se quer estar. Só assim se encontra paz interior e se preserva o verdadeiro valor de quem somos.

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A amante do marido era impecável. Uma mulher como ela teria escolhido a si mesma, se tivesse nascido homem.