Viemos fazer-vos uma visita — Só por dois dias, prometemos!

Então vamos aí a tua casa. Só vamos ficar dois dias!

Mariana, estamos a caminho da tua casa! Já comprámos os bilhetes! foi assim que a conversa foi iniciada por uma tal de tia Adélia, parente tão afastada de Mariana, que ela nem a conseguia identificar de imediato.

Mariana olhou para o telemóvel, confusa, tentando perceber quem seria aquela mulher, de onde a conhecia, e como é que tinha o seu número.

Desculpe, quem fala? Que visita é esta?

Oh Mariana ouviu-se a voz animada de uma mulher do outro lado sou eu, a tua tia Adélia!

Por mais esforço que fizesse, Mariana não se lembrava dessa tia, mesmo assim, por precaução, respondeu:

E posso saber o que pretende?

Então, queremos visitar-te! Tu agora vives perto do mar, não é? Vamos só ficar uns dois dias aqui, e o meu filho João precisa mesmo de estar um bocadinho junto ao mar, foi o médico que recomendou

Depois de uma conversa curta, Mariana percebeu que João, o filho da suposta tia Adélia, precisava de algum ar do mar por motivos de saúde, pelo menos assim lhe diziam. A tia prometera não incomodar, que iriam ajudar em tudo e nem pareciam estar lá. Ainda assim, Mariana aceitou, já com um mau pressentimento.

Obrigada, Mariana! chilreou alegremente a mulher então chegamos sexta-feira!

Despediu-se à pressa e desligou. Mariana olhou para o filho, Pedro, que tem agora doze anos.

O que foi agora, mãe? Mais visitantes?

Parece que sim, uma tal de tia Adélia…

Liga à avó e tenta saber quem é Pedro não gostava muito daquele tipo de visitas, porque normalmente prometiam ser discretos, mas acabavam por fazer tudo ao contrário.

Apesar de recusar quase sempre, Mariana fez uma exceção desta vez por se tratar de suposta necessidade do rapaz. E só por dois dias

Três anos antes, Mariana comprou uma casinha perto do mar, em Vila Nova de Milfontes, depois de um divórcio e da divisão dos bens. Mudou-se para lá com o filho e, de repente, começaram a aparecer parentes que ela nunca ouvira sequer falar.

No início, Mariana até gostava das novas amizades, mas percebeu logo que muitos familiares apareciam só para gozar o bom tempo e nem um copo lavavam. E ainda, constantemente, a mandavam fazer tudo: A casa é tua, tens de limpar! ou Compra comida para todos!.

Rapidamente ela impôs regras a casa não era pensão, nem pousada. Muitos tentavam vir na mesma, mas ela aprendeu a não os deixar sequer entrar. Outros, poucos, eram pessoas simpáticas e prestáveis e esses, Mariana até gostava de ter por perto.

Seguiu o conselho do Pedro e ligou à mãe, que ficou na cidade, mas vinha visitá-los de vez em quando.

Olá, Mariana atendeu a mãe sorridente.

Olá mãe! Está tudo bem contigo?

Conversaram um pouco, falando das novidades, e depois Mariana abordou o tema da tia Adélia e do João.

Não me lembro de ninguém assim respondeu a mãe, franzindo o sobrolho talvez seja parente distante do lado do teu pai. Vou perguntar-lhe, mas duvido que ele saiba.

A chamada não serviu de muito, restando a Mariana esperar pacientemente pela família.

Chegaram, como prometeram, dois dias depois: Adélia, uma mulher robusta de olhar arguto, e João, que não era um menino parecia mais um adulto de quinze anos. Mariana soube depois que ninguém recomendara tratamento nenhum, Adélia queria era umas férias de borla. Nada de novo!

Então ninguém nos foi buscar à estação? foi a primeira coisa que Adélia disse, e, já agora, também o pai de Mariana não se lembrou dessa mulher.

A mãe não faz isso murmurou Pedro ao lado de Mariana.

Adélia fingiu não ouvir, mas lançou-lhe um olhar reprovador.

Mariana, onde guardamos as coisas? Qual é o nosso quarto?

Só tenho uma divisão para vocês respondeu-lhe Mariana, já irritada a casa é pequena, não dá para cada um ter o seu espaço.

Ah, disseram-nos que tinhas uma casa grande junto ao mar!

Não sei quem te disse isso, mas qualquer problema vão para um hotel. Não quero começar a nossa relação com discussões respondeu-lhe seca.

Adélia sorriu em falso e, submissamente, entrou.

Mariana, não nos corras logo à chegada! Foi o cansaço da viagem, prometo portar-me bem. Vamos lá, minha querida sobrinha!

Adélia entrou primeiro, João atrás de si, carregando as malas. O Pedro olhou para Mariana e murmurou:

Mãe, vais ver que era melhor não os termos deixado entrar.

Só vão ficar dois dias tentou Mariana acalmar o filho e a si própria.

O resto do dia passou relativamente calmo. Depois do jantar, Adélia e João foram logo deitar-se, queixando-se antes de dormirem por estarem habituados a ter cada um o seu quarto. Mariana até tinha mais duas divisões, mas estavam a ser renovadas. Propôs-lhes dormirem na sala, mas ambos recusaram. Mariana resignou-se e foi para a cama.

A noite foi tranquila, mas de manhã, um barulho ensurdecedor acordou Mariana. Olhou para o relógio: eram seis da manhã. Mariana era notívaga e detestava que a acordassem cedo. Já o Pedro sabia disso e era sempre cuidadoso ao sair de casa ou brincar com os amigos dos vizinhos.

O que se passa aqui? perguntou, esfregando os olhos.

Nada, Mariana! disse Adélia, no meio da sala a remexer malas, espalhando roupa por todo o lado não encontro o meu fato de banho!

Não podias procurar isso no quarto, em silêncio?

Não há espaço, e tentei fazer pouco barulho.

O ruído vinha do quintal João batia num balde de ferro, aparentemente a chamar a mãe.

Pede-lhe para parar com a barulheira, ainda acabamos com a vizinhança à perna

Adélia bufou, mas lá gritou pelo filho, que se sentou de trombas no banco ao pé da laranjeira.

Mariana percebeu que não ia conseguir dormir mais nada e foi à cozinha fazer café.

Onde vais?

Tomar café. respondeu secamente.

Óptimo, faz-me uma caneca grande, com leite! Três colheres de açúcar!

Mariana parou e olhou fixamente para Adélia.

Sra. Adélia, está na minha casa. Desde que chegaram que não param de reclamar, acordaram-me de madrugada, e agora quer um café de comando?

Ora, já nem é assim tão cedo retorquiu ela, indiferente mas se quiseres saber, o meu nome completo é Adélia da Graça. Então, e o café?

Aqui é self-service!

O humor de Mariana estragou-se logo cedo. Enquanto tomava o seu café, tentando acalmar-se, Pedro entrou na cozinha e pousou uma mão solidária no ombro da mãe.

Eu bem te disse, mãe. Vê-se logo que são descarados. Ainda vamos a tempo de os expulsar!

É só mais um dia suspirou Mariana. Aguentamos…

O problema é que o dia ainda agora começou, e já me acordaram também!

Ouviram passos e calaram-se. Entrou Adélia, de ar amuado.

Não fizeste o meu café?

A mãe não tem de fazer! Cada um que faça o seu voltou o Pedro a defender a Mariana.

Mariana, não ensinaste o teu filho a calar-se quando os mais velhos falam?

Não ouse falar do meu filho! Mariana começou a perder a paciência, apesar do seu feitio tranquilo.

Eu já não sou criança… murmurou Pedro.

Adélia serviu-se de café, num silêncio tenso, e depois sorriu para Mariana como se nada fosse.

Mariana, levas-nos à praia? Mostras o caminho?

Vai pela rua à direita, segues por um caminho de terra batida e vês logo o mar.

Já que Adélia falava por tu, Mariana fez o mesmo.

Não vens?

Pedro olhou para a mãe, percebendo que não queria ir acompanhar os convidados à praia.

Não, vamos mais tarde. Se querem ir já, vão sozinhos.

O que temos para almoço?

Mariana costumava cozinhar para ela, para o Pedro, e para hóspedes que colaborassem nas despesas. Não era rica para alimentar toda a família sozinha. Costumava ser clara:

Eu e o Pedro comemos por nossa conta, mas há um restaurante muito jeitoso ali ao lado para vocês.

Não podes fazer alguma coisa para nós? Odeio restaurantes. pediu Adélia com ar suplicante.

Só se pagarem. O dinheiro também não abunda cá em casa admitiu Mariana, sem cerimónias.

Adélia bufou e ergueu a cabeça.

Mais vale ir ao restaurante resmungou ela, e Pedro riu-se baixinho.

Assim, entre pequenas discussões e incidentes, passaram dois longos dias. Mas, no fim do segundo dia, Adélia declarou que afinal tinham férias marcadas para uma semana. Estava convencida de que podiam ficar.

Mariana, não nos corras agora! O nosso plano é ficar a semana toda. Vais-nos mesmo pôr fora por meia dúzia de dias? Achas que não tens coração?

Mariana não gostava de os ter ali. Aqueles dois dias custaram-lhe os nervos, e Adélia era má companhia, sempre a reclamar. João, apesar de jovem, era traquinas e arranjava problemas punha rasteiras ao Pedro, fazia lixo e barulho no quintal, e até os vizinhos já se queixavam.

Sim, tenho pena. Esta casa é minha, e amanhã vêm cá amigos meus, por isso faço questão que saiam amanhã de manhã. Acordámos dois dias. Já passaram.

Mariana respondeu calma mas firme. Adélia parecia nunca ter ouvido um não na vida, ficou boquiaberta e começou logo o drama:

Ai que horror! Vais mesmo mandar-nos embora? Vamos dormir onde, na rua? No comboio? O que vamos fazer?

João, ao lado, ouvia tudo envergonhado, nitidamente desconfortável.

Que parentes são vocês? Ninguém na minha família se lembra de ti! Têm até amanhã de manhã. Se deixarem lixo, partirem ou roubarem algo, chamo a GNR!

Mariana saiu do quarto mais leve, sentindo-se vitoriosa. De manhã cedo, Adélia e João foram-se embora, a praguejar. E Mariana decidiu que chegou: nunca mais deixava familiares daqueles em casa. Nem que fosse só por dois dias.

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