“Tu fazes a doação, eu cuido das crianças”, disse a minha sogra.

Estive em licença de maternidade durante quatro anos. Como os meus filhos têm idades próximas, acabei por me dedicar totalmente ao papel de mãe. O meu marido tem dois empregos, temos o nosso próprio apartamento em Lisboa, por isso vamos levando a vida da melhor forma.

O que é que já alcançaste aos 25 anos? Primeiro, devia ser uma carreira brilhante, como a minha filha! foi o comentário da minha sogra.

A minha cunhada, Leonor, nunca teve pressa para casar, sempre foi muito ambiciosa. A juventude e a sua beleza vinham em primeiro lugar não estava disposta a enterrar a juventude para ter filhos. Mas essa foi a escolha dela; eu já tinha feito a minha há cinco anos. Aliás, a carreira dela cá não ia grande coisa. Ela era conhecida por invejar toda a gente e adorar espalhar boatos.

Enquanto isso, Leonor não desperdiçava tempo adorava viajar, passar férias em Albufeira ou no Gerês, e tinha um estilo de vida agitado. Mas, há um mês, apareceu-me em casa aflita a pedir ajuda. A supervisora dela ia entrar em licença de maternidade e a empresa queria alguém para substituí-la. Iria ficar o cargo para quem apresentasse o melhor projeto. A minha cunhada nem percebia muito de computadores, pelo que não estava minimamente preparada para tratar daquele desafio sozinha.

A minha sogra também começou a pressionar-me. Não percebia como é que eu haveria de tratar de um projeto importante e ainda cuidar dos miúdos. Mas a mãe do meu marido garantiu que tomava conta de tudo lá em casa só para eu poder ajudar a filha dela. Acabei por aceitar.

No dia seguinte, a minha sogra liga-me:
Não posso ficar com as crianças, tenho de ir à aldeia. Tenho que fazer as conservas para o inverno, vão ter de se desenrascar!

A Leonor também não apareceu para ajudar. Passei a noite a tentar trabalhar no projeto, mas estava exausto. Tentei dar uma mão, mas não tinha tempo porque ninguém se dignou, nem por uma vez, a tomar conta dos meus filhos.

Então, porque é que ainda não está pronto? Tinhas prometido! Leonor começou a levantar a voz.

E tu e a tua mãe não disseram que iam cuidar das crianças? Não tive tempo para me dedicar a estar tarefa a sério.

Ela ficou possessa e exclamou que faria tudo sozinha. Claro que não fez nada, porque para ela a preguiça falava sempre mais alto o novo cargo acabou por escapar-lhe.

És horrível, montaste uma armadilha à minha filha! Tens é inveja dela! indignou-se a minha sogra.

Já nem me preocupei em dar explicações. O mais importante é que o meu marido percebeu tudo, e proibiu qualquer contacto meu com a irmã. Agora, que Leonor se desenrasque sozinha. Afinal quer tanto ser livre e independente.

Hoje percebi: não adianta ajudar quem não quer ser ajudado nem valoriza o esforço dos outros. O melhor é proteger o nosso espaço e a nossa paz.

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“Tu fazes a doação, eu cuido das crianças”, disse a minha sogra.