Olha, já tive três relações sérias na minha vida. Em todas pensei que ia ser pai. E nas três, acabei por sair quando o assunto dos filhos começou a ficar sério.
A primeira mulher com quem estive, a Mariana, já tinha uma filha pequena. Eu tinha 27 anos na altura. Ao início, nem liguei muito, só fui entrando na rotina delas, adaptando-me aos horários, às voltas todas de quem tem uma criança. Até que um dia começámos a falar em ter um filho nosso. Os meses iam passando… e nada. Ela foi logo ao médico. Disseram-lhe que estava tudo bem com ela. Depois, claro, começou a perguntar se eu já tinha feito exames. Eu dizia sempre que não valia a pena, que ia acontecer quando tivesse de acontecer. Mas aquilo começou a mexer comigo… comecei a ficar desconfortável, irritadiço, tenso. As nossas discussões eram cada vez mais frequentes. E, de um dia para o outro, fui-me embora.
Com a segunda, a Filipa, foi diferente. Ela não tinha filhos. Desde o início combinámos que queríamos uma família. Anos e anos a tentar, e cada teste negativo deixava-me sem chão. Ela começou a chorar à minha frente mais vezes, cada mês era mais difícil. Eu comecei a evitar o tema, fechava-me, dizia-lhe que estava a exagerar quando ela sugeria irmos juntos ao médico. Comecei a chegar tarde a casa, desinteressado, cada vez mais a sentir-me preso naquela situação. Depois de quatro anos, acabámos.
A terceira, a Inês, já tinha dois filhos adolescentes. Desde a primeira conversa disse-me logo que não queria ter mais nenhum. Mas a conversa voltou, nem sei como. Acho que fui eu até a puxar o assunto, para me convencer a mim próprio de que era capaz. E outra vez: nada aconteceu. Voltei a sentir-me a mais. Como se estivesse num sítio onde não pertencia.
Olha, nas três situações foi sempre a mesma coisa. Não era só desilusão, era medo. Medo de ir ao médico e ouvir que a culpa era minha.
Nunca cheguei a fazer exames, nunca confirmei nada. Preferi sempre ir-me embora do que encarar uma resposta daquelas, que honestamente não sei se iria aguentar.
Agora estou com mais de quarenta anos. Às vezes vejo as minhas ex-namoradas com as suas famílias, filhos que não são meus. Dou por mim a pensar se alguma vez fui embora por estar cansado… ou se, no fundo, foi porque nunca tive coragem para enfrentar aquilo que talvez estivesse realmente a acontecer comigo.







