Diário de António, Julho
Hoje ao relembrar tudo, penso em como a vida me deu voltas inesperadas. Foi quando trouxe a minha noiva Leonor para viver numa aldeia em Trás-os-Montes. Ficara-me em herança a casa antiga da minha avó, aquelas pedras grossas, o telhado antigo com cheiro a lareira. Escolhe, Leonor. Ou ficamos na aldeia ou tentamos a sorte a arrendar um T1 em Lisboa disse-lhe, sabendo que no fundo, opções não eram muitas.
Na cidade, não tinha nada: vivia apertado num quarto com o meu sobrinho mais velho, na casa da minha irmã Mariana. Ela nunca ficava feliz com a minha presença. Só quando lhe dava, no fim do mês, o que sobrava do meu ordenado, era capaz de sorrir um bocadinho. O resto do tempo, embirrava comigo, arranjava sempre mais tarefas.
Cada sábado caía-me em cima: aspirar tapetes, limpar cobertores, levar os três sobrinhos a passear o João com seis, a Beatriz com três, o Afonso com só um anito. O marido dela estudava em Braga, ou sumia-se para casa dos pais. Fugia para longe do reboliço.
Até Leonor sabia que, mesmo tendo uma profissão decente, eu mal conseguia juntar dinheiro. A irmã levava quase tudo. Quando comecei a sair com Leonor e tentei guardar algum para mim, Mariana quase me pôs fora de casa. Acabei por ter de aguentar mais duas semanas até sair de vez.
Era prático ter-me por perto: dinheiro certo, ajuda nas limpezas, companhia para gerir as crianças. Quando me recusei a continuar, tive de sair com a mala às costas e fui bater à porta da Leonor, ao quarto dela na residência universitária.
A aldeia recebeu-nos bem. Não tinha familiares por lá, mas conhecia toda a gente desde miúdo muitas tardes com a avó valeram-me amigos. A minha mãe estava noutra vila, longe, e os pais da Leonor ainda mais distantes. Sabíamos que estávamos sozinhos.
Casámo-nos discretamente, começámos a trabalhar: eu na serração, ela no infantário.
Uma velhinha vizinha ofereceu-nos uma cabra, que já não conseguia cuidar. Só tínhamos de lhe dar meio litro de leite todos os dias. Depois vieram as galinhas, mais tarde umas ovelhas. Não ganhávamos muito, mas com a horta e mais umas costuras da Leonor por encomenda, vivíamos sem grandes preocupações.
Já tínhamos o nosso Tomás, com três anos, e a Leonor voltou ao trabalho depois da licença de maternidade. Os tempos piores pareciam ir ficando para trás.
Eis que, num verão quente, a Mariana apareceu sem avisar. Andava sem me ver desde que saímos de Lisboa. Os miúdos iam com ela; o marido nem se dignou, preferiu ficar em casa dos pais, como sempre.
Sabes, eu também já vivi aqui! disse logo. Passava os verões com a avó.
Só que ficaste pouco tempo respondi-lhe. Duas semanas e já choravas para ires para os pais. Eu ficava cá as férias todas.
Que aborrecido! atirou. Agora decidi, preciso de descansar vou de férias ao Algarve. Ficam com os miúdos aqui!
Estás louca, Mariana? Eu e Leonor trabalhamos. E às vezes passo vários dias fora na serração. Quem toma conta deles?
Mas é uma aldeia! Eles não precisam de supervisão, olham uns pelos outros.
Mariana, leva-os contigo ou então ficas cá a tomar conta deles cortei-lhe logo. A Leonor nunca aceitaria.
Não tens que lhe perguntar nada, és meu irmão! Dizes-lhe e pronto.
E o teu marido não faz nada? Nem sequer pode vir dar uma ajuda?
Não. Ele prefere descansar de mim e das crianças. Cada um no seu canto, não é?
Vida estranha, esta vossa…
Enquanto discutíamos, as crianças dela andavam a correr por todo o lado. De repente, um barulho enorme lá fora. Olhei pela janela e não quis acreditar: tinham soltado o leitão e ele fugia por toda a horta, com eles atrás. Só consegui agarrá-lo depois de muita correria, mas já as couves estavam todas pisadas. Ainda consegui evitar que deixassem a cabra e os cabritinhos à solta, mas não escapámos a perder quase metade das plantas.
Tentei ralhar, mas a Mariana só dizia: São crianças, estão numa aldeia! Deixem-nos brincar.
O Tomás, com três anos, nunca fez uma destas!
Há de experimentar, não te preocupes.
Não faz porque sabe que não pode.
Ouvi outro alarido: estavam no galinheiro a mexer nas galinhas das raças mais coloridas. Palpita-me, não ficou um ovo inteiro. O galo assustou-os assim que puseram o pé lá dentro.
Que gente! Nem um galinheiro conseguem olhar reclamou Mariana.
A culpa não é do galo. Ensina-os a não intrometerem-se.
Olha, que a tua Leonor tire férias e fique de olho neles. Não quero tragédias enquanto estou no Algarve!
Olha lá, nem chegaram a mexer no cão. E na casa ao lado têm um touro bem mau. E os gansos? Se saírem à noite aí sim, correm o risco de levar um susto…
Estás a inventar para me assustar?
Estou só a avisar.
Nisto, um vizinho chegou pela mão do João, todo envergonhado tinha-se posto atrás das arrecadações a brincar com fósforos.
E se pega fogo nisto tudo? Há um mês que não chove! Insistiu o homem, chateado. Já agora, quem são vocês?
Estava claro: não ia ficar com aquela responsabilidade. Mariana, pega nas crianças e leva-as contigo ao Algarve. Se calhar ainda assustam as sardinhas, mas pelo menos já não é comigo.
Ela ficou ofendida. E quando precisaste de mim? Não viveste na minha casa?
Um ano, Mariana, por pura necessidade. E o que eu passava contigo não se esquece.
Pronto, vamos embora. Vou levá-los à casa dos nossos pais.
Os miúdos protestaram. Queremos ficar! gritavam.
Não pode ser! respondeu ela.
Na manhã seguinte, lá se foram todos. Eu e Leonor ficámos sozinhos finalmente, mas lembro-me muitas vezes dessa visita.
Aprendi que, por mais fortes que sejam os laços familiares, é preciso saber dizer não quando está em jogo o nosso equilíbrio e respeito. Aqui na aldeia, aprendi também que a paz não tem preço nem mesmo em euros.






