Querido diário,
Hoje senti nostalgia e precisei refletir sobre tudo o que tenho passado desde que trouxe a minha noiva, Leonor, para o campo. Herdámos da minha avó uma casa antiga numa aldeia perto de Arraiolos. Era a única alternativa realista, já que na cidade de Lisboa eu não tinha nada para além de uma pequena divisão que ocupava na casa da minha irmã, Matilde, partilhada com o meu sobrinho mais velho.
Nunca foi fácil ali. Matilde, apesar de ser minha irmã, estava sempre insatisfeita com a minha presença. Apenas no final do mês, quando lhe entregava o pouco do ordenado que me sobrava, ela parecia ficar de melhor humor. O resto do tempo, aumentava as exigências: todos os fins de semana lá estava eu, a bater os tapetes, sacudir mantas, passear os três miúdos (um com um ano, outro com três e o mais velho com seis anos). O marido dela andava sempre longe, entre viagens de trabalho pelo Porto ou simplesmente a descansar em casa dos pais dele.
Leonor já sabia de tudo isso. Percebia que, mesmo com o meu emprego estável e ordenado razoável, quase não me sobrava um cêntimo tudo acabava nas mãos da minha irmã. Se, por acaso, eu poupava algum dinheiro para nós, era logo ameaçado. O dia em que finalmente decidi sair, depois de semanas de discussões, tive mesmo de cumprir aviso prévio no emprego até conseguir mudar-me para o quarto da Leonor no residêncial de estudantes.
Quando finalmente nos mudámos para a aldeia, fomos recebidos de braços abertos. Apesar de não termos familiares ali, conhecia a maioria das pessoas tantas lembranças de infância passada nas férias de verão com a avó! A minha mãe ainda vive, mas está numa aldeia no norte, perto de Braga. Os pais da Leonor ficaram em Tavira, o que fazia com que estivéssemos por nossa conta.
Casámos discretamente e começámos a reconstruir a vida juntos. Leonor arranjou trabalho no infantário local, enquanto eu entrei num pequeno serração da zona. Uma vizinha idosa ofereceu-nos uma cabra, pois já não conseguia tomar conta dela. Pagávamos o favor com uns copos de leite diários. Depois vieram as galinhas e as ovelhas.
A verdade é que o nosso salário não era grande coisa, mas o que o campo dá e as encomendas de costura da Leonor ajudavam-nos a viver sem grandes preocupações. O nosso pequeno filho, Miguel, já tem três anos. Leonor regressou ao trabalho assim que pode os tempos mais duros ficaram lá atrás pensava eu.
Até que, para meu espanto, a minha irmã Matilde anunciou uma visita. Há anos que não aparecia desde que fui viver para a aldeia, nunca mais deu notícias. Veio carregada com os três filhos, porque o marido ficou como sempre na cidade a “descansar”.
Também vivi aqui em tempos! gabou-se ela, ao chegar. Nas férias, vinha sempre ter com a avó.
Duraste pouco respondi-lhe. Ao fim da primeira semana sem os pais, já chateavas toda a gente para ires para casa. Eu ficava todo o verão…
E quem aguentava este tédio? Agora aproveito e vou descansar na Costa da Caparica! Os miúdos vão ficar aqui na aldeia.
Mas quem vai tomar conta deles, Matilde? Estamos os dois a trabalhar, e por vezes nem sequer estou em casa por uns dias.
Deixa estar, isto é o campo, nada lhes há de acontecer! Eles distraem-se uns aos outros, não é?
Se queres que alguém os vigie, fica cá tu. A Leonor não vai alinhar nessa.
Mas tu és meu irmão! Basta dizeres à tua mulher.
E o teu marido? Ele não ajuda?
Está bem melhor sozinho. Disse que precisava “de descanso”.
Vocês sempre a descansar um do outro
Enquanto discutíamos, os filhos dela corriam pela casa. De repente, ouviu-se um alvoroço lá fora. Espreitei pela janela e fiquei de boca aberta: os miúdos libertaram o porquinho, que agora fugia por toda a horta atrás deles! Lá o consegui apanhar, mas as couves e as cenouras estavam todas pisadas. Depois foi a vez de andarem atrás da cabra e dos cabritinhos metade do repolho foi-se.
Fiquei possesso, a Leonor preocupada, mas os miúdos voltaram à rua sem qualquer noção.
São só crianças, Jorge! Se não podem correr atrás das cabras na aldeia, onde hão de correr?
O Miguel nunca fez isto desde os dois anos!
Ainda tem tempo para aprender
Prefiro que não aprenda, obrigada.
Enquanto voltávamos à paz, ouvi nova gritaria. Tinham ido espreitar as galinhas. As minhas galinhas de raça, que nos dão ovos de todas as cores! Mal abriram a porta do galinheiro, o galo lançou-se a eles.
Que aldeia é esta, onde ninguém cuida do que é seu? reclamou Matilde.
O galo é para defender as galinhas, são as regras. Diz antes aos teus filhos para não andarem a mexer em tudo.
Pede lá à tua mulher para tirar férias e olhar pelos meus filhos. De certeza não se vai importar.
Já agora digo para ela cuidar da tua vida também…
Não abuses, que ainda não foram mexer no cão nem se cruzaram com o touro bravo do vizinho. De noite não vão à rua as gansas do Sr. António são mais valentes que o nosso galo!
Achas mesmo graça a isto tudo?
Só estou a avisar-te…
Nisto, o filho mais velho da Matilde apareceu pela mão do vizinho. Tinha decidido brincar com fósforos atrás da garagem!
Se isto pega fogo com este calor… resmungou o vizinho. Quem são vocês, afinal?
Matilde, não me peças para ficar com eles. É demais. Vai com eles à praia e aproveita para não assustar os peixes.
Vocês são todos uns esquisitos! E eu que sempre te ajudei
Só vivi contigo um ano, e foi porque não tinha outra escolha. De resto, bem te lembras como era
Vou levar-vos aos avós! disse ela aos filhos.
Nós queremos ficar contigo, mãe!
Já chega! disse ela, sem paciência.
Na manhã seguinte partiram. Ficámos eu e a Leonor a recordar aquela passagem agitada. Estes dias mostram como a simplicidade do campo se pode transformar num caos quando é invadida por quem não entende ou respeita os ritmos da terra, da família e dos animais. Sinto-me grato por termos construído o nosso refúgio, mesmo com todos os desafios. E prometo a mim mesmo: da próxima vez, só abro a porta a quem vier por bem.
JorgeDa varanda, avistei a neblina a erguer-se sobre os campos, revestindo a manhã de uma serenidade que só o interior conhece. Leonor apareceu atrás de mim, Miguel ao colo, e encostou a cabeça ao meu ombro. O cheiro da terra molhada, das oliveiras e das flores de alfazema misturava-se com o riso leve do nosso filho tão diferente das vozes estridentes do caos recente.
Ali, com o braço dela a aquecer-me, percebi que, afinal, a raiz da felicidade é mesmo esta: crescer devagar, cuidar do que é simples, amar quem fica. Na cidade, por tanto tempo, pensei que tudo o que me pertencia era demasiado pequeno ou insuficiente, mas agora sei é aqui, rodeado de campo e da minha família, que tudo faz sentido. Mesmo nos dias agitados em que a visita de um parente ameaça virar o mundo ao contrário, o caminho de volta à paz está sempre ao alcance da porta.
Sorri para Leonor e sussurrei:
Acho que, finalmente, estamos em casa.
E, dessa vez, o silêncio foi a nossa melhor resposta.






