Sem Conselhos: Uma Troca de Cartas Entre Neto e Avô, Entre Receitas, Dúvidas e Verdades – Do WhatsAp…

Sem Conselhos

Ao Salvador chegou-lhe uma mensagem no WhatsApp a fotografia de uma folha quadriculada. Esferográfica azul, letra inclinada, embaixo a assinatura: O teu avô, Nicolau. Ao lado, um recado curto da mãe: Agora é assim. Se não quiseres, não precisas responder.

Salvador ampliou a foto até conseguir decifrar as linhas.

Olá, Salva.

Escrevo-te da cozinha. Tenho aqui um novo amigo o medidor de glicose. Anda rebelde logo de manhã se como muito pão. O médico mandou-me andar mais a pé, mas para onde vou eu, se os meus já foram todos para o cemitério e tu andas pelo teu Porto. Por isso, passeio pela memória.

Hoje, por exemplo, lembrei-me de quando, em setenta e nove, descarregava vagões na estação com os rapazes. Pagavam uma miséria, mas dava para sacar umas caixas de maçãs. As caixas eram de madeira, com aquelas argolas de ferro. As maçãs eram verdes e ácidas, mas era festa. Comíamos logo ali, sentados nos sacos de cimento, com as mãos cinzentas e as unhas cheias de pó, e os dentes a ranger de areia. E mesmo assim sabia bem.

Isto tudo porquê? Por nada de especial. Só me lembrei. Não penses que te venho ensinar a viver. Tu com a tua vida, eu com as minhas análises.

Se quiseres, diz-me como está o tempo e a faculdade por esses lados.

Teu avô Nicolau.

O Salvador sorriu. Medidor de glicose, análises. Em baixo, o WhatsApp dizia: Enviado há uma hora. Já tinha tentado ligar à mãe, mas ela não atendeu. Deve ser mesmo assim agora.

Desceu a conversa. As últimas mensagens do avô eram do ano passado: parabéns rápidos em áudio e um como vai a faculdade. Salvador respondeu com um emoji e sumiu.

Agora ficou muito tempo a olhar para a fotografia com a folha quadriculada, depois abriu a caixinha de resposta.

Avô, olá. Aqui está três graus e chuva até aos ossos. Exames está quase. As maçãs estão a cento e vinte euros o quilo, está tudo impossível.

Salvador.

Pensou, apagou Salvador, escreveu só O teu neto Salva. e mandou.

Uns dias depois, a mãe reencaminhou outra foto nova.

Salva, bom dia.

Li a tua mensagem três vezes antes de responder a sério. O tempo aqui é como aí, só que sem as tuas poças urbanas. De manhã cai neve, à hora de almoço é água, à tarde congela tudo. Já quase tirei uma queda épica, mas pelos vistos ainda não está na hora.

A propósito de maçãs caríssimas: vou-te contar do meu primeiro trabalho à séria. Tinha vinte anos, entrei para a secção da fábrica a fazer peças para elevadores. Só ouvia estrondo e o pó impregnava o ar. As minhas calças de fato-macaco ficavam sempre cinzentas, lavasse elas quantas vezes quisesse. Os dedos andavam sempre cheios de cortes, unhas negras de óleo. Mas sentia-me importante porque tinha cartão de funcionário e passava pela portaria todo adulto.

O melhor não era o ordenado, era o almoço. No refeitório serviam sopa grossa em pratos de louça pesados, e quem chegava cedo ainda podia sacar mais um pedaço de pão. Sentava-me à mesa com os outros, ninguém dizia nada não por falta de assunto, mas por falta de forças. A colher parecia pesar mais que uma chave inglesa.

Tu agora deves estar ao computador a imaginar tudo isto como arqueologia. E, olha, enquanto escrevo, pergunto: naquele tempo era feliz, ou só não tinha tempo para pensar?

E por aí? Só estudas? Trabalhas nalgum lado, ou agora só andam todos a inventar startups?

O avô Nicolau.

O Salvador leu isto enquanto esperava na fila do kebab. À volta, discussões, alguém a protestar, o altifalante do caixa a berrar promoções. Deu por si a reler a parte da sopa e dos pratos pesados.

Respondeu ali mesmo, encostado ao balcão.

Avô, olá.

Vou arranjando uns biscates de estafeta. Levo comida, às vezes documentos. Não tenho cartão de empresa, só a app, que vive em crash. Mas como na faina, às vezes. Não é que roube comida, é que nem passo por casa. Agarro qualquer coisa barata, como nas escadas ou no carro de um amigo. Também em silêncio.

Se sou feliz? Nem sei. Também não paro muito para pensar.

Mas uma sopa de cantina parece-me ideia.

O teu neto Salva.

Ia escrever sobre as startups, mas achou explicação a mais. Que o avô imaginasse como quisesse.

A carta seguinte foi de repente curta.

Salva, olá.

Ser estafeta é outra conversa. Já te imagino diferente, não um miúdo colado ao portátil, mas um tipo de ténis a correr rua fora.

Falaste em trabalho? Vou puxar à memória do tempo em que ia para obras fazer horas extras. Entre turnos na fábrica, quando o dinheiro não esticava. Carregávamos tijolo até ao quinto andar em escadas de madeira. Pó por todo o lado: nariz, olhos, ouvidos. Chegava a casa, tirava as botas e era areia por todo o lado. A tua avó resmungava sempre que eu desfazia o soalho.

O mais estranho é que só me lembro de um detalhe: estava lá um homem, o Bernardo, que chegava sempre mais cedo e sentava-se num balde ao contrário, a descascar batatas com um canivete. Punha-as numa panela velha trazida de casa. Ao almoço, cozia-as numa placa elétrica, e todo o prédio ficava a cheirar a batata cozida. Comíamos aquilo à mão, sal no pacotinho de papel. E achávamos um pitéu.

Vejo-me agora a olhar para um saco de batatas do supermercado já não é o mesmo. Se calhar, o problema não é da batata, mas da idade.

E tu, quando estás estourado, o que é que comes? Não dessas modernices de entrega. De verdade.

O avô Nicolau.

O Salvador não respondeu logo. Ficou a matutar o que dizer sobre de verdade. Lembrou-se do inverno passado, quando depois de doze horas a trabalhar, comprou rissóis numa lojinha vinte e quatro horas, cozeu-os na panela partilhada da residência (onde antes tinham feito salsichas), aquilo desfez-se todo, a água ficou nojenta, mas comeu tudo mesmo assim, de pé à janela, porque grande mesa não havia.

Dois dias depois, respondeu.

Avô, olá.

Quando chego todo partido, quase sempre faço ovos estrelados. Dois-três, às vezes com uma fatia de chouriço. A frigideira é má, mas aguenta. Aqui na residência não há nada de Bernardos, só um vizinho que queima tudo e depois solta uns palavrões.

Tu falas muito em comida. Tinhas fome naquela altura, ou agora?

O teu neto Salva.

Assim que enviou, arrependeu-se da última pergunta. Parecia-lhe seca. Mas já estava.

A resposta veio mais depressa do que o costume.

Salva.

A pergunta é boa: eu tinha fome, sim, mas não era só de comida. Queria uma moto, sapatos novos, um quarto meu para não ouvir tosses no corredor. Queria respeito, não contar trocos na mercearia. Queria que as raparigas olhassem para mim em vez de passarem ao lado.

Agora como bem o médico até resmunga que estou demasiado bem-disposto à mesa. Escrevo sobre comida porque é coisa que posso tocar e memorizar. É mais fácil falar do gosto da sopa do que de vergonha.

Já que perguntas, vou-te contar uma história, mas sem moral no fim, como gostas.

Tinha vinte e três. Andava já com a tua futura avó, mas as coisas abanavam. Na fábrica precisavam de alguém para ir para o Alentejo numa obra grande. Pagavam bem dava para poupar, talvez um Renault usado. Entusiasmei-me. Já via a cena: a chegar num carrinho meu, passeios à beira-rio com ela.

Só que há um senão. A tua avó disse logo que não ia; tinha a mãe doente, emprego, amigas. Disse que não aguentava o calor e a secura de lá. E eu disse-lhe que me estava a puxar para trás. Que se me amava, apoiava. Disse isto de forma pior, mas não te cito.

Fui sozinho. Meio ano depois deixámos de nos escrever. Voltei dois anos mais tarde com dinheiro e um carro velho. Ela já estava casada com outro. Passei anos a contar que ela me tinha traído. Que eu por ela, e ela…

Na verdade, escolhi o dinheiro e o carro em vez da pessoa. E ainda andei muito tempo a fingir que tinha sido sempre a decisão certa.

Eis o meu apetite.

Perguntaste o que senti naquela altura achei-me importante e dono da razão. Depois, durante anos, fingi que não sentia nada.

Se não quiseres responder, não faz mal sei que há mais que fazer do que aturar histórias de velhotes.

O avô Nicolau.

O Salvador leu três vezes. A palavra vergonha ficou-lhe presa como farpa. Procurava uma desculpa nas entrelinhas mas o avô não a oferecia.

Compôs novo texto: Arrependeste-te?, apagou. Escreveu: E se tivesses ficado?, voltou a apagar. Mandou outra coisa:

Avô, olá.

Obrigado por contares isso. Não sei o que responder. Por cá falam na avó como se ela nunca tivesse sido outra coisa, sem alternativas.

Não te julgo. Também escolhi trabalho em vez de alguém. Tinha namorada. Entrei como estafeta e começaram a dar-me bons turnos. Só parava em biscates. Ela dizia que não nos víamos, que estava sempre no telemóvel, cansado e a responder torto. Eu dizia que era só esperar, que depois ia melhorar.

A certo ponto, fartou-se de esperar. Eu disse que era problema dela. Também usei palavras feias, mas não te cito.

Agora, quando chego à residência à noite e aqueço ovos, penso que escolhi dinheiro e entregas em vez de ligar a alguém. E também faço de conta que foi o melhor.

Se calhar, é de família.

Salvador.

A carta do avô desta vez não vinha em papel quadriculado, era de linhas. A mãe explicou por áudio: Acabou-lhe o caderno.

Salva.

Dizeste bem: de família. Por cá é sempre a culpa dos genes. Bebe porque o avô bebia, berra porque a avó berrava. Na verdade, cada um escolhe para si só que admitir isso mete medo, e inventa-se uma tradição.

Quando regressei do Alentejo pensei que era nova vida. Carro, quarto na residência, dinheiro no bolso. À noite sentava-me na cama sem saber o que fazer ao corpo. Os amigos tinham ido, o capataz da fábrica mudara, casa só pó e o velho rádio.

Uma vez fui ao prédio da quase avó. Parei do outro lado da rua, vi luz numa janela e na outra escuro. Fiquei ali até gelar. Vi-a sair com um carrinho de bebé. Um homem ao lado, braço no dela. Conversavam, riam. Escondi-me atrás de uma árvore, de miúdo. Vi-os até dobrarem a esquina.

Aí percebi: ninguém me traiu. Cada um escolheu caminho. Mas aceitar isso demorou anos.

Dizias que trocaste pessoa pelo trabalho. Talvez tenhas trocado, sim mas por ti próprio. Talvez precisasses mais de te desenrascar do que de cinema ao sábado. Não é bom nem mau. É o que é.

Sabes o que custa? É que raramente dizemos: olha, isto agora importa-me mais do que tu. Só inventamos rodeios e sobra mágoa.

Não te escrevo isto para ires atrás dela. Nem sei se vale a pena. Mas, talvez um dia, estejas debaixo de uma janela alheia e penses que dava para ser mais honesto.

O velho avô Nicolau.

O Salvador ficou sentado no parapeito do corredor da residência, o telemóvel quente nas mãos. Cá fora, carros a chapinhar nas poças, alguém a fumar no átrio. Da sala do lado vinha música, o baixo a vibrar a parede.

Ruminou o que responder. Lembrou-se de si, em tempos, debaixo da janela da ex, já ela não atendia. Via as cortinas, as luzes do quarto, imaginava que, agora, ela ia abrir e olhar para baixo. Mas não aconteceu.

Escreveu:

Avô, olá.

Também fiquei debaixo da janela. Também me escondi ao ver sair com outro. Ele de mochila, ela com saco das compras. Riam juntos. Achei que tinha sido apagado da vida dela. Agora, ao ler-te, penso se não fui eu que saí sozinho.

Dizes que só percebeste isso ao fim de dez anos. Espero conseguir mais rápido.

Não vou atrás dela. Mas, se calhar, vou parar de fazer de conta que não me faz diferença nenhuma.

O teu neto Salva.

A carta seguinte já era sobre outro tema.

Salva.

Perguntaste um dia sobre dinheiro. Não respondi porque nunca soube por onde pegar. Agora vou tentar.

Por cá, o dinheiro é como o estado do tempo: fala-se dele quando está mau, ou quando de repente aparece um extra. O teu pai, em pequeno, uma vez perguntou quanto eu ganhava. Nessa altura arranjara um biscate e apontou-se uma soma jeitosa. Disse-lhe o valor, olhos arregalados, És rico! e eu ri-me, É pouco, rapaz!

Uns anos depois, fui despedido e ficou a metade. O teu pai novamente quis saber o que eu ganhava. Dei-lhe o número, ele: Porquê tão pouco? Trabalhaste pior? Passei-me e disse que não sabia nada da vida. Mais tarde percebi que, naquele momento, lhe ensinei a nunca mais me perguntar por dinheiro.

Cresceu e nunca mais perguntou. Arranjou biscate, carregou caixas, consertou aparelhos. Eu achava sempre que devia perceber sozinho a minha vida.

Contigo não quero repetir essa asneira. Por isso digo já: a minha reforma é pequena, mas dá para a comida e os comprimidos. Carro novo não há, nem faz falta. O que junto agora é para novos dentes, que os velhos estão a falhar.

E tu, como te arranjas? Não estou a perguntar para andar a mandar-te transferências ou meias de lã é só para saber se comes e dormes em cama e não no chão.

Se te faz confusão, diz só normal, eu entendo.

O avô Nicolau.

O Salvador sentiu um aperto. Recordou as perguntas do antigamente, o pai a desviar ou responder torto e, no fim, essa ideia: dinheiro é coisa feia, nunca se fala.

Ficou uns minutos a olhar, até escrever:

Avô, olá.

Não passo fome e não durmo no chão. Tenho cama com colchão, não é de luxo mas serve. Pago a residência sozinho, foi assim que combinei com o pai. Às vezes atraso o pagamento, mas ainda ninguém me pôs fora.

Dá para comer, se não comprar disparates. Quando aperta, pego mais turnos e viro zombie, mas escolhi eu.

É estranho tu perguntares, e eu não poder perguntar-te. Tipo: e tu, avô, chega? Mas tu já disseste.

Preferia, às vezes, um está tudo ok sem explicações. Só que percebo: cresci a ver adultos sem nunca contar nada.

Obrigado por falares de dinheiro.

Salva.

Segundos depois, mandou outro:

Se algum dia te apetecer comprar algo e faltar dinheiro, diz-me. Não prometo, mas fico a saber.

E enviou, antes que mudasse de ideias.

A resposta do avô, das mais tremidas as letras aos ziguezagues.

Salva.

Li o teu sobre o se faltar. Ia dizer que não preciso de nada, só comprimidos e chá. Depois, ia fazer piada e pedir uma motorizada nova.

Mas pensei: a vida toda armei-me em homem capaz, acabei velho a ter medo de pedir ao neto uma ninharia.

Por isso digo já: se um dia me faltar mesmo alguma coisa, prometo não fingir. Por agora, tenho chá, pão, comprimidos e as tuas mensagens. Não é drama é a lista.

Sempre achei que éramos de mundos diferentes: tu com as tuas apps, eu com o rádio a pilhas. Mas a verdade é que temos muito igual: nenhum gosta de pedir e ambos fingimos que não nos custa.

Já que estamos a ser abertos, conto-te outra que não se diz em família. Não sei como vais levar.

Quando nasceu o teu pai, eu não estava preparado. Tinha arranjado emprego novo, deram-nos quarto na residência, achei que ia ser vida boa. Veio o puto choros, fraldas, noites sem dormir. Eu, vindo de turno, e ele aos berros. Um dia, num ataque, atirei com o biberão à parede. Partiu. A tua avó chorou, o bebé berrava, e só me apetecia sumir.

Não fugi. Mas anos fiz de conta que foi um momento de fraqueza. Na verdade, estive à beira de ir-me embora. E se tivesse ido, hoje tu não lias isto.

Não sei se precisas saber disto. Talvez para entenderes que o teu avô não é modelo. Sou só gente, às vezes apetece-me largar tudo.

Se depois disto não quiseres mais escrever, percebo.

O avô Nicolau.

O Salvador sentia-se de gelo e lume ao mesmo tempo. O avô tinha sempre sido aquele misto de cobertor felpudo e cheiro a tangerina no Natal. Agora, via um homem cansado numa camarata, miúdo a chorar, leite derramado.

Lembrou como, no verão, em trabalho num ATL, gritou com um rapazinho que só choramingava. Pegou-lhe no braço, assustou-o. Ficou a noite a pensar que seria um pai horrível.

Sentou-se muito tempo com a caixa de mensagem em branco. Escreveu: Não és um monstro. Apagou. Gosto de ti na mesma. Apagou, embaraçado.

Mandou:

Avô, olá.

Não vou parar de te escrever. Não sei o que se responde. Por cá ninguém fala destas coisas. Não se fala de gritos, de vontade de desaparecer. Aqui ou se cala ou se faz piada.

No verão, trabalhei num campo. Havia um miúdo sempre a chorar para ir para casa. Um dia perdi a paciência, berrei-lhe tanto que até me assustei. Achei que era péssima pessoa, que não podia ser pai.

O que tu contas não muda nada. Só mostra que estás vivo e és real.

Não sei se alguma vez serei tão honesto assim com um filho, se vier. Mas, ao menos, tentar não fingir que tenho sempre razão.

Obrigado por não teres ido.

Salva.

Mandou e percebeu que, pela primeira vez, esperava resposta não por educação, mas porque era mesmo importante.

A resposta demorou dois dias. A mãe em vez de foto dizia: Ele aprendeu a usar o gravador, pediu para não assustares. Passei para o papel.

No ecrã, nova imagem de folha com linhas.

Salva.

Li e reli o teu texto, e vejo que já és muito mais corajoso do que eu fui na tua idade. Ao menos admites que tens medo. Eu só fingia indiferença depois, partia mobília.

Não sei se serás bom pai. Mas só de pensares nisso já vale muito.

Disseste que sou real para ti. Sabes, nunca ninguém me chamou isso. Normalmente é cismático, casmurro, difícil. Real, ninguém dizia há muito.

Já que estamos na honestidade: se um dia te cansares das minhas histórias, avisa. Posso escrever menos, só em feriados. Não quero asfixiar-te com o passado.

Mais uma: se um dia te apetecer aparecer, sem motivo, fico em casa. Tenho banco livre e chávena lavada. Lavada já fui ver.

O teu avô Nicolau.

O Salvador sorriu com a parte da chávena. Imaginou a cozinha, banco velho, medidor de glicose, saco de batatas ao lado do radiador.

Tirou foto à sua própria cozinha de residência: lava-loiças cheia, a frigideira assustadora, uma embalagem de ovos, bule, duas canecas (uma com lasca). No parapeito, frasco com garfos.

Enviou ao avô e escreveu:

Avô, olá.

Aqui tens a minha cozinha. Bancos são dois, canecas também. Se algum dia te apetecer aparecer, eu cá estarei. Ou, vá, quase em casa.

Não te tornaste chato. Às vezes não sei o que responder, mas leio sempre.

Se quiseres, podes contar não sobre trabalho nem comida. Falares de algo que nunca contaste não por vergonha, só porque nunca houve com quem.

S.

Carregou em enviar e percebeu que nunca tinha feito tal pergunta a um adulto da família.

Deixou o telemóvel na mesa, ecrã para baixo, para não perder notificações.

Os ovos arrefeceram, mas comeu tudo, devagar, como a dividir com alguém.

As palavras gosto de ti nunca apareceram nas mensagens. Mas havia qualquer coisa por entre as linhas, o suficiente para ambos.

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