«Sabes, aos 50 anos, uma mulher já é um gasto, não um ativo.» Um homem de 57 anos explicou sua opinião durante o jantar. O que eu fiz

Lisboa, sexta-feira à noite

Hoje, ao jantar, aconteceu algo que mexeu comigo. Sentei-me em frente ao António Gonçalves num restaurante daqueles requintados, onde os empregados deslizam pelo chão em silêncio e o menu dispensa euros porque, se precisas de perguntar o preço, estás deslocada ali. Ele mandou vir uma garrafa de vinho do Douro que custava mais do que o meu salário mensal, sem olhar sequer para o ano ou o produtor. Fez um aceno confiante ao sommelier, aquele gesto de quem sempre esteve habituado a não contar trocos.

António tem cinquenta e sete anos. Cabelos grisalhos bem cuidados, fato impecável, relógio clássico, de marcas que só quem conhece percebe o valor. Voz calma, postura segura, refinamento de quem subiu na vida sozinho, o típico self-made man português. Falou dos negócios, viagens, livros sem ostentar, mas com aquela clara vaidade de quem sabe o seu percurso. Eu partilhei histórias do mundo do marketing, mencionei o meu último projeto, desabafei sobre o cansaço dos e-mails intermináveis e reuniões sem fim.

Durante uns vinte minutos o jantar decorreu sem sobressaltos. Conversámos sobre trabalho, sobre infância, livros. Ele ouvia atento, de vez em quando lançava perguntas precisas. O ambiente era confortável até ao instante em que António se recostou, sorriu, e saiu-se com uma frase que me apertou o peito:

Sabes, nunca considero relacionamentos sérios com mulheres da minha idade. Aos cinquenta, uma mulher já não é um ativo, é um encargo. É a natureza, nada pessoal.

Fiquei imóvel, com o copo a meio caminho da boca.

Sem ressentimentos, disse ele.

Sem ressentimentos? Sério?

Como fui parar ali: conhecemos-nos sem filtros

Conheci António no site Par Ideal, após insistência das amigas: Inês, não vais ficar sozinha até aos cem, pois não? Diziam que tinha de tentar, de sair, de me desafiar. O perfil do António era sóbrio: nada de selfies em elevadores, apenas fotos na Serra da Estrela, viagens, nada ostensivo. Escrevia: Empresário. Adoro vinho do Douro, montanhas e conversas inteligentes. Procuro alguém interessante.

Eu tenho cinquenta e um. Não faço de conta que tenho trinta e cinco. O meu perfil é honesto: fotos reais, sem filtros. Divorciada, filhos adultos, trabalho, adoro viajar e ler. Não procuro patrocinador nem quero dependências.

Troca de mensagens leve, educada, sem insinuações. Uma semana depois, ele propôs jantar. Aceitei sem grandes expectativas era só para perceber como são os encontros depois dos cinquenta.

O jantar começou bem. Mas acabou na palavra encargo.

Ele escolheu o restaurante: caro e cheio de pompa. Vestia um vestido sóbrio, elegante, sem extravagância. Não queria parecer desesperada por impressionar. António levantou-se quando entrei, cumprimentou-me com um beijo na mão, puxou a cadeira.

Durante os primeiros trinta minutos pensei: Um senhor, sabe estar.

Falámos de trabalho. António contou peripécias dos negócios, dos parceiros, dificuldades de gestão. Eu falei do meu novo projeto, dos desafios, do medo de arriscar. Ele escutava, fazia aquelas perguntas certas.

Até que falámos do passado. Resumi o divórcio, sem drama: não funcionou, seguimos em frente.

Ele assentiu:

Percebo. Já fui casado duas vezes. A primeira por impulso. A segunda porque já não aguentava cobranças.
Sorri:
Cobranças existem sempre. A questão é saber se são justas.
Ele sorriu de volta:
Por isso hoje vejo as mulheres de outra forma. Mais pragmático.

E ali percebi que algo ia mal.

Aos cinquenta és um encargo. A teoria dele

António bebeu um gole de vinho, olhou-me com uma serenidade filosófica e expôs a sua teoria:

Já pensei muito sobre isto. Uma mulher depois dos cinquenta já é outra coisa. Já não vai ter filhos, a carreira já acabou, tem um passado: ex-maridos, filhos adultos, hábitos, mágoas, medos. Precisa de estabilidade, mas emocionalmente é volátil. Procura apoio financeiro e dá em troca rotina, casa.

Fiquei calada. Um gelo perigoso crescia dentro de mim.

Sentindo-se seguro, continuou:

Uma mulher jovem é um investimento. Com ela constróis o futuro. É enérgica, não está cansada, não tem passado pesado. É leve. Uma mulher da mesma idade… desculpa, mas comprar um carro com muitos quilómetros é arriscado. Pode ser que funcione, mas pode dar despesa.

Coloquei o copo devagar.

Estás a falar a sério?
Ele encolheu os ombros:
Apenas sou honesto. Muitos homens pensam assim, só não dizem. Prefiro franqueza.
Franqueza implica respeito, respondi. Agora estás a olhar para mim como um contabilista olha para custos.
Ele sorriu:
És inteligente, percebes que aos cinquenta não há ilusões. A vida é para analisar com realismo.

Peguei na carteira.

Por que saí, sem terminar o vinho caro

Levantei-me com calma, sem escândalo. Retirei o porta-moedas e deixei no prato o valor do meu jantar uns cem euros.

António ficou surpreso:

Para onde vais? Não queria magoar-te. É apenas o ponto de vista masculino.
Olhei-o nos olhos e disse:

Sabes o que é curioso? Falas de ativos e encargos, mas vejamos o teu lado. Tens cinquenta e sete. Dois divórcios. Cabelos brancos. Provavelmente compraste comprimidos para a tensão. Filhos que passaram a vida longe porque trabalhaste sem parar. Queres uma jovem não por amor, mas porque temes que uma mulher da tua idade veja quem és cansado, frágil, escondido por detrás do sucesso.

Ele fez uma expressão diferente.

Estás enganada… começou.
Não, interrompi. Não procuras investimento. Procuras um espelho onde não vejas a tua idade. Uma rapariga que admire e não faça perguntas difíceis.

Vesti o casaco.

E sabes, também és um encargo. Só dá jeito aos homens pensar que envelhecem com dignidade, enquanto as mulheres só envelhecem.

Saí. Sem olhar para trás.

O que entendi depois daquele jantar

Caminhei pelas ruas de Lisboa e senti tranquilidade. Não raiva, não mágoa. Lucidez.

Vi ali o retrato de tantos homens. Aos cinquenta, acham que o mundo deve-lhes juventude, energia, admiração. Querem mulheres que encaixem em padrões onde eles próprios já não cabem.

Na maioria das vezes não é amor, mas medo do tempo e da morte. Negação do seu próprio envelhecimento.

E percebi ainda: estar só não é castigo. É escolha. Escolha de não me trair, de não aceitar ser encargo na equação de alguém.

O que se passou depois

Uma semana depois, vi de novo o perfil do António no site: mudou o texto. Procuro jovem 2838 para relação séria. Homem realizado, oferece estabilidade e conforto.

Sorri e escrevi este texto. Não por vingança. Para todas as mulheres que duvidam: Será que exijo demais? Será que devia baixar expectativas? Será esta a última oportunidade?

Não.

Não somos encargo. Nem ativo. Nem investimento. Somos mulheres. Vivas, com histórias, marcas, experiências. Se alguém nos olha como um contabilista olha para números levantem-se e saiam. Nem precisam acabar o vinho, nem explicar.

Epílogo

Três meses depois, conheci outro homem. Da minha idade. Cinquenta e três. Divorciado. Dois filhos. Professor de História. Não é rico nem bem sucedido à moda do António.

Mas quando me olha, não há julgamento. Só curiosidade, ternura, desejo. Pergunta pelo meu dia, ri das minhas piadas, dá-me a mão no cinema e beija-me na testa só porque sim.

Sou feliz. Não porque é perfeito. Mas porque ao lado dele sou eu mesma com as rugas, o passado, as dúvidas.

Ele também. Com os cabelos brancos, salário modesto, cansaço mas uma alma viva.

E isso vale mais do que qualquer vinho caro.

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«Sabes, aos 50 anos, uma mulher já é um gasto, não um ativo.» Um homem de 57 anos explicou sua opinião durante o jantar. O que eu fiz