Rita foi à casa da sua amiga Patrícia para regar as plantas e alimentar a tartaruga, enquanto Patríc…

Há muitos anos, nos tempos em que os telemóveis ainda eram novidade, recordo como a vida sabia surpreender até nos invernos mais solitários. Lembro-me de Maria de Fátima a quem todos tratavam por Fátima uma rapariga reservada mas de coração grande, que ficou sozinha nos festejos do Ano Novo, sentindo-se mais melancólica do que orgulhosa da sua solidão.

Era vizinha de Edite, a sua melhor amiga, que morava noutro bloco do mesmo prédio na velha Lisboa. Edite partira dias antes do Ano Novo, acompanhada do marido, rumo à Serra da Estrela para uns dias de descanso entre a neve. Antes de ir, confiou a Fátima as chaves de casa, incumbindo-a de regar as plantas e alimentar a tartaruga, um animal de estimação que Edite acarinhava com graça rara entre os portugueses.

Fátima acedeu sem hesitar ela era conhecida entre as amigas pelo senso de responsabilidade. Nem imaginava, porém, que as vésperas do novo ano lhe reservavam provação ainda mais dura.

Uma semana antes do Ano Novo, António ou Tozé, como carinhosamente lhe chamava , com quem Fátima partilhava casa e sonhos há dois anos, anunciou durante o jantar que encontrara outro amor. A nova eleita já estava grávida de quatro meses e, como homem de valor, Tozé sentia-se obrigado a assumir compromisso, pressão reforçada pela mãe e avó da rapariga. Tozé aceitou sem hesitar.

E eu? balbuciou Fátima, sem chão.

Tozé continuou a comer, indiferente ao abismo nos olhos de Fátima.

Tu? Vais superar. Concorda comigo: o que tínhamos esfriou há muito. Eu não sou nenhuma grande perda. Devias agradecer-me por te libertar. Ajudas-me a arrumar as coisas? Não? Pronto, trato disso sozinho.

E, sem dramas, começou a empacotar a vida em malas

Durante quatro dias, Fátima não saiu de casa apenas as lágrimas e o café lhe fizeram companhia. No quinto dia, Dulce, outra amiga, veio visitá-la e percebeu que Fátima não comia desde a notícia da separação.

Antes da reviravolta, já tinham planeado a noite de Réveillon: Fátima, Dulce e Tozé iriam festejar no restaurante “O Solar Minhoto”, reserva feita com antecedência. Agora Tozé apareceu com a nova esposa, e Fátima não queria, de forma alguma, juntar-se aos pais naquela noite eles, sempre tão protetores.

Apesar das desilusões, Fátima, como tantas vezes no passado, continuava a crer num milagre. Sabia bem que os adultos aprendem a aceitar a ausência das fadas madrinhas, mas o ritual de pedir um desejo ao soar das doze badaladas nunca a abandonara.

O dia passou sem cor, lentamente transformando-se em noite chuvosa. Fátima percebeu que não entregara a Tozé a prenda de Natal comprada para ele pouco antes de tudo desabar: um suéter de lã azulmilhafre, bem caro, de um tom que lembrava o céu alentejano. Experimentou-o. Enorme, os ombros largos demais até para Tozé. Dobrou-o com desânimo, devolvendo-o ao saco.

Maquilhou-se levemente e prometeu a si mesma não voltar a chorar. Precisava de sair, acreditando ainda no ditado: “Ano novo, vida nova”. Preferia passear à chuva pelas ruas da Baixa do que sentar-se a remoer mágoas em casa.

Faltava uma hora e meia para soar o novo ano. Passou por um supermercado, enfiou a mão no bolso do casaco e encontrou o papel com as tarefas que Edite escrevera antes de partir. Depois das flores, vinha o recado de alimentar a tartaruga duas vezes por semana. Fátima sentiu um calafrio: esquecera completamente a pobre tartaruga entre tanta tristeza.

Num átimo, correu para casa de Edite. Abriu a porta com a chave, entrou no corredor e ficou boquiaberta. Em toda a casa, luzes acesas, a árvore de Natal a brilhar com fitas e bolas prateadas, o televisor a rebentar de volume. Da casa de banho vinham sons insólitos.

Fátima, cheia de receio, empurrou a porta da casa de banho e ficou transtornada ao ver um desconhecido a barbear-se, assobiando uma modinha alentejana.

A primeira reação foi o susto: um ladrão? Mas por que raio alguém há de fazer a barba?

Quem é o senhor? disparou Fátima, autoritária.

O homem enxaguou rapidamente o rosto e sorriu calorosamente.

Não se assuste! Não sou um intruso. Sou o Manuel, primo direito da Edite. Vivo e trabalho no Porto, mas estou cá em Lisboa para uma reunião que se prolongou mais do que esperava. Liguei à prima e ela disse para me acomodar aqui. Felizmente havia uma chave e tudo ficou facilitado.

E… viu a tartaruga? apressou-se Fátima.

Vi, e já tratei da janta dela respondeu ele, apontando para trás do sofá. Agora fugiu para o cantinho dela.

Já vestido, estendeu-lhe a mão.

Sou o Manuel.

Fátima apresentou-se. Então, Manuel sugeriu:

Que tal celebrarmos juntos? Faltam só dez minutos para a meia-noite!

Num impulso, Fátima fugiu escadas abaixo, com Manuel surpreso atrás dela.

Espere! Não quis assustá-la! chamou ele.

Fátima foi a correr a casa buscar o saco do suéter e voltou tão depressa quanto partira. Ao entrar de novo na casa de Edite, o relógio marcava doze badaladas.

Manuel estendeu-lhe um copo de espumante, e Fátima, o presente.

Para si, votos de um ótimo Ano Novo! disse, sem hesitação.

Manuel desembrulhou a prenda era o pulôver azulmilhafre. Vestiu-o rapidamente: servia-lhe na perfeição, até nos ombros.

Surpresas já tive muitas no ano novo, mas nenhuma como esta! exclamou, feliz.

Fátima sorriu. Pensou para si: “Este ano recebi dois presentes libertar-me do Tozé e conhecer o Manuel”. Mas nada disse em voz alta.

No Ano Novo seguinte, Fátima, Manuel e a sua filha pequenina celebraram a noite em casa deles, rodeados de amor, em Lisboa, com cheiro a bolo-rei e promessas de muitos anos felizes.

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