Hoje fiquei imóvel, como se o tempo tivesse congelado ao meu redor.
O mundo, aquele em que eu acreditava poder comprar tudo pessoas, lembranças, o futuro desfezse em poucas frases ditas por uma menina de sapatos gastos.
Quem lhe mostrou isso? perguntei, quase sussurrando.
Ninguém, senhor Silva, respondeu Lurdes, baixinho. Só entendo. Às vezes os idiomas falam sozinhos.
Ao lado, a minha mãe, Helena Pereira, apertava as mãos, tentando não tremer. Via, no meu rosto, algo que nunca tinha percebido antes uma insegurança que se infiltrava onde antes só havia medo.
Está a mentir, disse ele bruscamente, quase grosseiro. Isto é só um truque. Uma artimanha para me impressionar.
Levantei-me, fui até a secretária e pressionei um botão. No monitor apareceu um manuscrito antigo.
Eis. Os professores da Universidade de Lisboa não conseguiram traduzir isto. Se me disseres uma frase verdadeira, doute mil euros. Se não, a tua mãe será dispensada.
Por favor, não faça isso, mãe! exclamou Helena, desesperada. É uma criança!
Calate! cortoume ele.
Lurdes não se abalou.
Muito bem, disse. Mas não vão gostar da resposta.
Aproximouse da tela e deslizou o dedo pelas linhas.
Não é apenas texto. É um aviso.
Ah! E que aviso? riuse nervosamente Ricardo.
Para ti.
Para mim?! a voz dele já tremia, misturando irritação e dúvida.
Lurdes sussurrou:
Quem se eleva acima de todos cairá por próprio orgulho. O seu nome será apagado pelo vento e a sua casa arderá em chamas.
Silêncio.
Um relâmpago rasgou o céu lá fora. A sala ficou em penumbra, e o rosto de Ricardo brilhou por um instante pálido, tenso, olhos arregalados.
Coincidência só coincidência, murmurou.
Lurdes virouse para ele.
Vocês zombam dos que limpam o vosso chão, mas sabem quem escreveu o código que sustenta o vosso negócio?
O quê o que queres dizer? a sua voz falhava.
O meu pai.
Helena agarrouse.
Lurdes não, por favor
Sim, mãe, é hora de ouvir. Lurdes não desviava o olhar de Ricardo. Ele era programador do departamento de cibersegurança. Trabalhava no vosso sistema à noite, enquanto vocês festejavam na costa. Quando adoeceu, assinaram a ordem de despedimento.
Como como se chamava? perguntou Ricardo, já pálido.
André Santos.
Os olhos de Silva alargaramse.
Foi ele o que escreveu o código de proteção? O mesmo que trouxe milhões do banco alemão?
Sim, confirmou Lurdes. E tu o privaste de tudo.
Silêncio. Só o som da chuva a bater nas janelas se fazia ouvir.
Não queremos vingança, sussurrou Helena. Apenas justiça. E paz.
Não sabia disse Ricardo, as palavras vazias.
Sabias, respondeu Lurdes. Só que não vos importava.
Ele afundou na cadeira. Tudo o que havia construído pareceu subitamente vazio.
O que querem de mim? Dinheiro? Educação? Casa? Douvos tudo.
Lurdes me observava, serena.
Não queremos nada. Mas lembremse Deus às vezes fala com a voz daqueles que vocês não enxergam.
Seguroua pela mão.
Vamos, mãe.
Helena virouse para ele.
Vou terminar a limpeza hoje. Depois procure outra mulher.
As duas saíram. A porta fechouse lentamente.
Fiquei só. Fiquei ali, imóvel, até abrir a gaveta e tirar uma pasta antiga A. Santos.
Dentro, havia um pedido de prorrogação de contrato por motivos de saúde. No fundo, a minha assinatura: Negado.
Coloquei a pasta sobre a secretária, tirei o relógio do pulso e deixeio ao lado.
Lá fora, a chuva escorria pelos vidros como vergonha líquida.
No dia seguinte, as notícias explodiram:
O empresário Ricardo Silva devolveu todo o seu patrimônio e participações a um fundo de educação para crianças carenciadas.
Um mês depois, a Torre de Cristal foi vendida à Universidade de Lisboa para se tornar um centro de ensino gratuito.
E, numa pequena escola nos arredores da capital, uma menina chamada Lurdes criou um círculo de idiomas para crianças sem recursos.
Quando lhe perguntaram por que o fazia, sorriu:
Porque o conhecimento é poder. Mas o verdadeiro poder está em perdoar.
Epílogo
Helena e Lurdes partiram de Lisboa. Ninguém mais ouviu falar delas.
E Ricardo Silva desapareceu da vida pública.
Meses depois, no último andar da Torre de Cristal, apareceu um letreiro:
Riqueza verdadeira é aprender com quem fala com o coração.







