Pedro era um rapaz sossegado, daqueles que até os vizinhos da Dona Lucinda achavam exemplar. Quando fez 25 anos, os pais deram-lhe um presente especial: ajudaram-no a juntar dinheiro para a entrada do crédito habitacional. Assim, Pedro conseguiu finalmente ir morar sozinho para um T2 no Barreiro. Trabalhava como programador, gostava de viver no silêncio do seu lar e o contacto social era tão raro como um dia sem pastel de nata.
Para não enlouquecer com a solidão, Pedro resolveu adotar um gatinho. O bichano tinha um problema nas patas da frente a mãe do gato, que vivia na casa do senhor Manuel, quase viu o filho ser levado para o veterinário para descanso eterno. Mas Pedro sentiu um aperto no coração e levou o felino para casa, baptizando-o de Formoso. E viveram bem juntos: Pedro chegava a correr do trabalho só para ver o Formoso, que o aguardava no tapete de entrada, com ares de quem manda na casa.
Passado algum tempo, Pedro começou a ligar-se a uma colega do escritório. Chama-se Filomena, nome que nem aparece nos dicionários estrangeiros. A Filomena era decidida, conquistou o Pedro num instante e em três semanas já estava instalada no apartamento dele, com os sapatos na entrada e tudo.
Formoso não caiu nas graças da Filomena logo de início, e ela começou a pedir a Pedro que se livrasse do animal. Pedro recusou-se, explicando muito sério que Formoso era essencial para ele. Filomena insistiu. Segundo ela, o Formoso estragava o ambiente, porque cada vez que recebiam visitas, as pessoas torciam o nariz às patas do animal. Pedro ficou dividido entre o amor pela gata e pela Filomena, parecia novela da TVI.
Os pais do Pedro não gostaram nada da Filomena: acharam-na bruta e mal-educada. Pediram ao filho que não tivesse pressa em passar pelo registo civil Vê lá se a moça vale o esforço!, diziam eles.
E quando os pais da Filomena apareceram para uma visita à casa, Pedro percebeu finalmente que aquela relação não era para ele. O pai da Filomena, mal entrou, soltou uma gargalhada ao ver o Formoso: Que bicho mais esquisito!, exclamou. Pedro defendeu a sua mascote, com uma dignidade mais firme que a estátua do Marques de Pombal.
Durante toda a noite, Filomena e o pai divertiram-se a inventar formas de despachar o Formoso, desde enviá-lo à pesca em Setúbal até mandá-lo para o convento dos gatos. A mãe da Filomena também deu umas boas risadas. Na manhã seguinte, Pedro voltou do trabalho e não encontrou Formoso em casa. Perguntou à Filomena pelo gato, e ela respondeu que o tinha deixado na clínica veterinária do bairro.
Pedro correu por todo o Barreiro atrás do seu companheiro felino, e ao fim de cinco horas encontrou Formoso, que mal viu o dono, levou a típica massagem de cabeça contra a mão. Pedro levou-o para casa e, sem mais conversa, avisou Filomena para arrumar as suas coisas e procurar outro teto. A situação já o repugnava.
Filomena fez as malas, saiu de mansinho e nunca acreditou que um gato pudesse ser mais importante do que ela. Agora, Pedro e Formoso vivem juntos, e o gato ronrona feliz todas as noites quando Pedro chega do trabalho. A paz voltou ao lar, só falta o cheiro a sardinhas para ser uma verdadeira casa portuguesa.







