Sempre que o Valter aparecia lá em casa, a Zézinha parecia que ficava logo com os neurónios trocados. Era o efeito da felicidade, diziam. Desatava a correr dum lado para o outro, toda nervosa, começava a pôr-se jeitosa, escondia debaixo das almofadas a roupa que tinha espalhado enquanto tentava decidir o que vestir para ele, e ainda se desembaraçava dos rolos do cabelo, como se fosse uma diva à pressa. Depois, disparava para a casa de banho, onde se penteava e dava um retoque ao batom. Só então, completamente produzida e confiante, é que se dignava sair para o pé dele. Pois claro, quem não tinha motivos para estar de sorriso de orelha a orelha era ela!
Vejam só: Zézinha, mãe solteira, nunca tinha sido propriamente casada; teve ali um namoro rápido com o seu Serginho, que não durou mais do que um mês ou dois, até que o rapaz partiu de Évora para a terra dele e, até hoje, a Zézinha não percebeu bem de onde ele era: parecia que era da Moldávia ou talvez da Ucrânia, quem sabe. Aqui por estas bandas trabalhava na feira, mas nem posição certa se sabia.
Enfim, foi-se embora o raio do Serginho, deixando a luz dos olhos da Zézinha ligeiramente grávida. Muito pouco, mesmo. Nem duas semanas estava o caso avançado; a Zézinha nem sonhava. Depois, quando ele deixou de aparecer nem uma noite a dormir lá em casa, nem outra vez em mais de mês aí a nossa heroína começou a perceber que, bem ficou sozinha, por outras palavras.
E no devido tempo, zás! Nasceu-lhe um menino, lindo de morrer! Ora, para quem saía ele? Claro que para eles: Zézinha, uma beleza daquelas que não se vê todos os dias, e o Serginho, parecia um daqueles galãs de novela.
Importa dizer que teve sorte com o filho. O Tiaguinho era mais calmo que um santo: passava a vida a dormir ou, quando acordava só queria saber de mamar, e com vontade! Felizmente, leite era coisa que Zézinha tinha em abundância, bem podia ter alimentado mais um ou dois bebés sem problema.
Quase nunca ficava doente, nada daqueles sustos normalmente reservados a todos os recém-nascidos.
E porquê Tiago? Ora, ela achou nome bonito e ainda porque, quando andava grávida, apanhou de relance o filme antigo Guerra e Paz na televisão. Havia lá um Príncipe André Bolkonsky, interpretado por Vjačesláv Tíkhonov, que tinha um ar igualzinho ao Serginho dela. E pronto, faltaram alternativas. Assim ficou: Tiago Sérgio Boloto. Zézinha, sempre que repetia o nome, achava que até soava a música. Pura poesia, se querem saber.
O pequeno Tiago era mesmo um raio de sol. Quando a mãe precisava de cozinhar ou limpar, estendia-lhe um cobertor no chão, montava à volta um cercado de cadeiras e punha-lhe ao lado a sua mala velha, uns rolos de cabelo e um ou outro trapo qualquer. O miúdo ficava ali a brincar sem dizer ai nem ui, nada de fitas nem birras. Até quando, certa vez, a mãe espreitou da cozinha e apanhou o filho com a cabeça entalada entre duas cadeiras (provavelmente quis mostrar serviço e sair dali sozinho), o rapaz esforçava-se caladinho, só tentando abrir caminho com aquelas mãozinhas gordinhas.
À medida que o Tiago crescia, continuava sossegado. A mãe deixava-o ir brincar para o pátio sem preocupações, só lhe pedia que, de dez em dez minutos, viesse à janela (moravam num rés-do-chão, claro) gritar: Mãeeee! Estou aqui!…
Ora, como o miúdo não sabia as horas, aparecia ali a cada três minutos, sempre a berrar, até a Zézinha dar o ar da graça e responder: Está bem, filho!. E mesmo assim o miúdo não arredava pé. A mãe tinha de perguntar: Então? Vai brincar! E ele: Ainda não sorriste. Só com aquele sorriso verdadeiro e espontâneo é que voltava à vida dele, e lá ia ele para o pátio de novo.
Um dia, o Tiaguinho apareceu à janela com o seu mãeeee, estou aquiii! costumeiro, mas havia novidade: vinha a apertar contra o peito um gatinho.
Mãe, foi a dona Odete que me deu. Disse que se chama Jeremias. E que tu vais gostar, e que temos de o proteger.
O rapaz era tão sinceramente honesto naquele momento que à Zézinha nem lhe ocorria outra coisa senão sorrir de volta. E ainda disse:
Aposto que o Jeremias está com fome. Venham, entrox, que vou deitar-lhe leite na tigelinha.
E lá foram os dois escadas acima o miúdo aos saltos com o gato debaixo do braço. Felicidade pura para o Tiago. O Jeremias, por agora, nem tanto.
Assim foram levando a vida, os três. Até ao dia em que a Zézinha conheceu o Valter. Eram da mesma idade, ele nunca tinha casado, homem sério, com ar responsável, mas nada velho. Trabalhava numa fábrica de móveis e até ganhava bem. Ao sábado, começou a ficar lá em casa. Era homem de poucas palavras, comia como um alarve, mas não abusava muito nos copos. Sempre que vinha, a Zézinha preparava-lhe uma garrafinha de aguardente branca e punha-a a refrescar no congelador; servia-lhe num copinho de vidro pequeno, daqueles antigos, com pezinha. O Valter adorava aquelas mini-tacinhas.
Nesse sábado, tudo decorreu como sempre. Chegou o Valter, cumprimentou o Tiago logo à entrada, sentou-se no sofá enquanto a Zézinha terminava o ritual de embelezamento. Depois, os três perdoem, os quatro, que o Jeremias já era gente ali (o Tiago sempre o tinha ao colo) viram um bocado a televisão e foram almoçar.
Em seguida, era tradição, vinham todos fazer uma sestinha, para logo mais darem uma voltinha pelo jardim da cidade.
Quando a Zézinha fechou a porta do quarto do Tiago e se aninhou ao lado do Valter, deitando a cabeça no braço dele, pela primeira vez ele puxou conversa sobre casamento:
Estava a pensar ficamos para já a viver aqui na tua casa. Depois juntamo-nos, para termos mais espaço. Ou então junto a renda do meu apartamento? Sempre dava um extra Só que, sabes, Zézinha, eu não sou homem de bichos. Aquilo do teu Jeremias tínhamos de o dar a alguém
Jeremias, Valter. É Jeremias, corrigiu ela, e sentiu o peito apertar.
Pois, Jeremias ficou calado, e ao fim de uns segundos, com voz de quem já tomou a decisão, rematou: E o Tiaguinho vai para a aldeia, para casa da minha mãe. Lá tem bom ar, há escola. Nós ainda somos novos, podemos ter uma data de filhos nossos.
A cabeça da Zézinha petrificou-lhe no ombro, nem piou. Ficaram assim, quietos, largos minutos. Depois ela levantou-se, cheia de pudor como se ele nunca a tivesse visto despida , embrulhou-se no robe, pegou nas calças dele, que estavam na cadeira, e estendeu-lhas:
Vá, pega lá nos teus calções Põe-te a andar.
Ir para onde?
Para tua mãe, lá na aldeia. Pro ar puro. Nós, cá por casa, já respiramos todo o ar de que precisamos, no nosso jardim.
E assim continuaram a ser três, bem contentes, e muito bem acompanhados do Jeremias.






