Quando abri o guarda-roupa no quarto do hotel, encontrei no saco do meu marido um vestido que nunca tinha visto.

Quando abri o roupeiro do quarto do hotel, encontrei no fundo da mala do meu marido um vestido que nunca tinha visto antes. Era de seda azul-escuro, muito bem dobrado entre as camisas dele. Ao lado, um pequeno cartão de uma boutique elegante.

Nunca fui de bisbilhotar, mas aquele vestido definitivamente não era meu.

O hotel era requintado, com vista para o Tejo. Viemos a Lisboa para o evento anual da empresa onde João trabalha uma gala sofisticada. Os espelhos dos corredores reluziam, a alcatifa afundava sob os pés, e do restaurante no rés-do-chão subia um aroma de pratos caros e champanhe.

Olhei de novo para o vestido. O tamanho era mais pequeno do que o meu.

E nesse instante, o João entrou no quarto.

Ainda não estás pronta? perguntou ele, já a desatar a gravata.

Eu segurava o vestido nas mãos.

Ele ficou imóvel. Só por um segundo. Mas foi o suficiente.

De quem é este vestido? perguntei, calma.

Aproximou-se devagar.

Não é o que estás a pensar…

Mas aquela frase só quer dizer exatamente isso: já estou a pensar.

Compraste um vestido para alguém disse. Só que, de certeza, não foi para mim.

João suspirou fundo.

Leonor, não comeces um drama agora, por favor. Temos de descer daqui a pouco.

Que engraçado retorqui baixinho. Então o drama é o problema. Não o vestido.

Ele olhou em direção à porta, como se o corredor lá fora lhe pudesse dar uma saída.

É uma prenda.

Para quem?

Ele não respondeu logo.

E isso já era resposta.

Aquele silêncio pesava. Só o ar condicionado zumbia suavemente.

Há quanto tempo? perguntei.

Leonor…

Há quanto tempo?

Não interessa.

Observei o vestido mais uma vez. O tecido parecia gelado, liso.

Vai usá-lo esta noite?

Ele nada disse.

No mesmo evento onde vou estar sentada ao teu lado?

João mordeu o lábio.

Isto não era para ser assim.

Mas foi.

Guardei o vestido de novo na mala, fechei o fecho devagar.

Quem é ela?

Uma colega.

Pois claro.

Peguei na minha carteira, sentei-me na cama a calçar os sapatos.

Onde vais? perguntou ele, nervoso.

Ao jantar, obviamente.

Ele ficou incrédulo.

A sério?

Claro que sim.

Abri a porta do quarto.

Quero ver quem é que vai usar este vestido.

Dez minutos depois, entrámos no salão imenso do hotel. Lustres de cristal, música a soar, pessoas em trajes de gala.

Numa das mesas, uma rapariga loira aguardava. O cabelo caía-lhe sobre os ombros, e o vestido azul-escuro brilhava sob as luzes.

O mesmo vestido.

Ela viu-nos e sorriu ligeiramente ao João.

Nesse instante, percebi. Não era segredo escondido em cantos escuros. Toda a gente ali já sabia.

Aproximámo-nos da mesa.

A mulher levantou a cabeça com confiança.

Boa noite disse ela.

Olhei para o vestido.

Fica-te mesmo bem.

Ela sorriu, satisfeita.

Obrigada.

João estava ao meu lado, tenso, como quem espera uma tempestade.

Tirei a minha aliança, coloquei-a sobre a mesa, ao lado do copo dele.

As prendas dizem sempre a verdade murmurei. Às vezes, aparecem é nas mãos erradas.

Depois virei costas e caminhei para a saída do salão.

Enquanto me afastava, ouvia atrás de mim murmúrios, cadeiras a arrastar-se.

O estranho foi sentir, ao fim de tanto tempo, que não estava magoada. Só livre.

Digam-me, sinceramente o que dói mais: descobrir uma traição em segredo, ou ver todos saberem primeiro do que tu?

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Quando abri o guarda-roupa no quarto do hotel, encontrei no saco do meu marido um vestido que nunca tinha visto.