O pretendente sugeriu dar um passeio com uns majestosos -20 graus, porque os cafés são só para mulheres sustentadas. Então eu, muito prática apareci vestida com equipamento de ski e roupa térmica. Mas nem ele imaginava o presente que o esperava por lá
Chamava-se Tiago Ribeiro. Nas fotos parecia um homem perfeitamente normal, lá pelos trinta e cinco anos, arrumadinho, sem nada que gritasse por atenção. Na descrição do perfil, lá vinham filosofias sobre autoconsciência, crescimento pessoal e a busca pela verdadeira alma viva. Era logo para ligar o alerta: já aprendi que quanto mais barulho um homem faz sobre mulher genuína, mais procura uma opção confortável, alguém que não queira nada e não reivindique coisa nenhuma.
Ficámos a trocar mensagens uns dias. Tiago portava-se direitinho, embora aqui e ali escapasse um comentário meio estranho. Adorava divagar sobre o quanto as mulheres de hoje estão, segundo ele, estragadas pelo dinheiro.
Elas só querem restaurantes, Maldivas e telemóveis dizia. Ninguém quer olhar para a alma, só dar umas voltas e conversar.
Eu, como pessoa decente, assentia em pensamento, claro e desviava a conversa para outro tema. Afinal, cada um traz as suas cicatrizes. Talvez a ex lhe tivesse deixado sem casa ou sem ilusões quem sabe. Prefiro não tirar conclusões antes de tempo.
Até que ele propõe um encontro. Só havia um problema: era pleno janeiro, genuíno, não daqueles frescos, mas mesmo com menos vinte graus no termómetro e sensação de menos vinte e cinco por causa do vento. Os meteorologistas tinham lançado alerta laranja, a Proteção Civil mandava mensagens a pedir que ninguém saísse sem necessidade.
Vamos encontrar-nos no parque escreve Tiago. Passeamos, respiramos ar puro, conhecemos-nos sem máscaras.
Tiaguinho, respondo, lá fora estão menos vinte, daqui a pouco somos esculturas de gelo, não preferes um café na cafetaria?
A resposta foi tão rápida quanto a chegada de uma trovoada.
Não vou a cafés, só lá vão mulheres que esperam que lhes paguem tudo, e eu quero companheira de vida, alguém que esteja comigo no fogo, na água e no frio. Se é fundamental para ti que eu gaste vinte euros contigo, então não é por aí.
A curiosidade venceu. Era irresistível conhecer este paladino das relações puras, para quem um café americano era sinal de escravidão financeira.
Tudo bem escrevi eu. Parque é parque, às 19h à entrada principal.
A preparação foi digna de um ritual. Tirei do armário roupa térmica, uma camisola bem quente e, para arrematar, um fato de ski. Nos pés, botas de sola grossa com meias de lã, na cabeça um gorro à pescador.
No espelho, via uma pessoa pronta para hibernar no Ártico.
Vá, Tiago, prepara-te pisquei ao reflexo e mergulhei na escuridão gelada.
Às 19h em ponto estava no parque. O frio agarrou-se logo às bochechas era a única parte exposta. O chão rangia sob os meus pés, à volta nem uma alma: pessoas normais, incluindo as mulheres sustentadas, estavam em casa ao lado da lareira.
Tiago estava junto à entrada. De casaco de meia estação. Cambaleava, batia os pés e soprava para as mãos com desespero. O nariz já estava cor de azevinho maduro, as orelhas vermelhas como tomate.
Aproximei-me.
Olá disse, abafada pelo cachecol.
Ele olhou-me, claramente à espera de ver uma fadinha delicada de collants, a tremer de frio, dando-lhe oportunidade de ser herói. Mas em vez disso, tinha à frente alguém mais parecido com um bombeiro numa expedição polar.
Olá respondeu entre bater de dentes. Tu preparaste-te bem.
Como disseste: no fogo e na água, começou pelo frio. Bora passear e respirar ar puro?
15 minutos de glória
Lá fomos pela avenida. Aquela volta entrou de imediato para a lista dos encontros mais absurdos da minha vida.
Que achas do tempo? perguntei em tom elegante.
Revigorante conseguiu dizer. O rosto já mal se mexia, só os lábios que ficavam mais azuis a cada minuto. Adoro o inverno, põe as pessoas à prova.
Concordo acenei. E sobre as mulheres sustentadas, explica lá melhor porque é que um café é sinal de mercantilismo?
Falar custava-lhe horrores o frio queimava-lhe a garganta mas as convicções exigiam sacrifícios.
Porque voz trémula, as relações deviam ser baseadas no interesse mútuo, não no dinheiro. Se a mulher não consegue só passear, tem logo de arranjar comida, é consumidora.
E se ela simplesmente não quiser apanhar pneumonia? retorqui, ajustando o capuz.
Isso são desculpas cortou ele, e logo se ouviu um nariz a fungar. Quem quer, arranja maneira, é só vestir-se melhor.
Eu bem vesti abri os braços, mostrando o meu volume. Mas tu, parece, não. Estás mesmo bem?
Estou ótimo! respondeu torto, mas tremia tanto que se percebia até de noite.
Dez minutos depois, chegámos ao largo central do parque. Lá estava uma barraquinha de café, fechada. Tiago olhou para ela com a melancolia de um personagem de Camilo.
Voltamos atrás? sugeriu. O vento está pior
Estás a brincar! animei-me. Acabámos de começar. Querias conhecer a alma. Falemos de literatura. Gostas de Jack London? Tem um conto, Acender uma fogueira, em que o tipo morre de frio porque subestimou o inverno.
O olhar que ele mandou era tudo menos espiritual.
Olha, tenho de ir interrompeu. Tenho coisas urgentes.
Que coisas? Combinámos a noite!
Trabalho. Esqueci-me de enviar um relatório.
Às oito da noite, sexta-feira?
Claro! quase gritou.
Virou-se e começou a correr para a saída. Fui atrás, saboreando o momento: o meu sobrevivente aguentou quinze minutos exatos.
À porta do metro, nem se despediu só desapareceu para o conforto subterrâneo. Espero que lá tenha aquecido não só as mãos geladas, mas também as suas teorias. Mas duvido.
Eu voltei para casa, preparei um chá bem quente e apaguei toda a conversa com o Tiago. No tempo perdido nem pensei. Aqueles quinze minutos foram um ótimo antidoto para a culpa e um lembrete de que cuidar de nós não nos faz sustentadas.






