Pressentimento de Desgraça — A angústia noturna de Júlia, a inesperada doença do pequeno Zé, a difíc…

PRESSENTIMENTO DE DESGRAÇA

Acordei no meio da noite, sobressaltado, e simplesmente não consegui voltar a adormecer até de manhã. Não sei dizer se foi um sonho assustador ou alguma inquietação inexplicável que me tirou a paz. O certo é que o peito ficou pesado, as lágrimas caíram sozinhas, sem que eu entendesse o motivo. Faltava o ar e um pressentimento terrível de tragédia se abateu sobre mim com força desmedida.

Levantei-me e fui até ao berço onde o meu pequeno filho dormia. O Vasco sorria serenamente no sono e fazia uns barulhinhos engraçados com a boca. Tapei novamente o menino com o cobertor e fui até à cozinha. Lá fora a noite era escura como breu.

Raquel, outra vez sem sono? ouvi o Pedro detrás de mim.

Outra vez Não percebo o que se passa comigo, Pedro respondi-lhe em voz baixa.

Se calhar é aquela famosa depressão pós-parto! tentou brincar ele.

Não sei, o Vasco já tem quase seis meses, nunca senti nada disto e agora aparece tudo assim do nada?

Pode ser os nervos, podes ter fé que isto passa! tentou acalmar-me abraçando-me.

Pedro, sinto mesmo medo sussurrei, refugiando-me nos braços dele.

Vai correr tudo bem! prometeu, afagando-me.

Três semanas depois, marquei consulta com a nossa médica de família. Tínhamos feito exames de rotina para o Vasco, já que ele acabara de fazer o meio ano. Todas as análises e especialidades. A chamada da enfermeira apanhou-me de surpresa.

Aconteceu alguma coisa? perguntei, já com o coração nas mãos.

Não se preocupe, Raquel, a doutora vai explicar tudo respondeu.

Na sala de espera do centro de saúde, tremia de ansiedade. Quando finalmente nos chamaram, mal me mantinha calma.

Sente-se, Raquel Maria, preciso de lhe dizer algo. Não fique aflita, mas precisamos de análises adicionais.

O que se passa, doutora? quase sem ar.

As análises do Vasco não estão boas. O número de leucócitos no sangue está muito acima do normal, há outros valores preocupantes. É fundamental repetir as análises, de preferência num hospital mais especializado.

Onde? perguntei, quase a perder a voz.

No Instituto Português de Oncologia respondeu a médica.

Mal me lembro de chegar a casa. O Pedro já me esperava. Mandou-me uma mensagem e veio logo do trabalho.

O que se passa, Raquel? perguntou logo.

As lágrimas corriam pela minha cara, mas já nem lhes dava atenção:

Mandam-nos para exames ao IPO murmurei.

Mas pode correr tudo bem! São só exames… tentou confortar-me.

Não são só exames suspirei, exausta. Sempre senti que algo não estava bem. Só não sabia de onde vinha a desgraça.

Abracei o Vasco com todas as forças e desfiz-me em choro. O bebé remexeu-se e continuou a dormir, alheio ao que se passava.

Leucemia aguda diagnosticou o médico idoso, analisando os exames É preciso começar logo o tratamento.

A tristeza invadia-me, incapaz de aceitar o que nos estava a acontecer. Começaram logo a quimioterapia. O Vasco ficou internado nos cuidados intensivos. Eu permanecia horas à porta.

Vá para casa, Raquel insistia a enfermeira. Hoje não o vai poder ver.

Não consigo… Sem o meu filho não faço nada.

Já vamos em oito anos de casamento. Foi uma luta engravidar: procurámos todas as respostas, fizemos exames, nada se descobria de errado, mas a gravidez só chegou ao oitavo ano. Foi a alegria das nossas vidas. O Pedro tratava-me como uma rainha, não me deixava carregar nada. O último mês da gravidez passei no hospital, recomendado pela obstetra, porque havia risco de parto prematuro. E nasceu finalmente, há seis meses: o nosso querido Vasco o nome do pai do Pedro, que tinha partido num acidente.

Não se deve dar o nome de quem morreu tragicamente a uma criança! alertou a avó.

São só superstições, avó! recusava-me a dar ouvidos. Sentia-me feliz e queria acreditar que nada podia estragar aquele milagre.

Agora, mais de um mês depois, via o Vasco tão magro, sem cor, olheiras afundadas. Mesmo permitindo-me ficar com ele, só o consegui após insistir e criar um pequeno escândalo, porque nos diziam que o risco de infeção era enorme. O desespero levou-me ao limite até me deixarem estar na tal sala esterilizada.

Não se fazem cá operações dessas! disse-me o doutor Henrique, o diretor clínico, no dia seguinte.

Onde as fazem? perguntei, firme.

Só em Israel, Raquel. Só aí o seu filho pode ser salvo. Mas é muito caro.

Vamos encontrar o dinheiro. Por favor, prepare toda a documentação.

Rapidamente enviámos os exames para uma clínica de referência em Telavive. Recebemos resposta positiva, estavam dispostos a operar o Vasco, mas o custo era superior a quinhentos mil euros.

Raquel, mesmo vendendo a casa e o carro não chega a metade! desabafou o Pedro. Já pus anúncios, mas demora.

Não temos dois meses sequer! chorei.

Começámos então uma campanha: colegas, vizinhos, amigos, campanhas solidárias, até a Câmara Municipal ajudou. Juntos reunimos pouco mais de metade, o tempo escasseava.

Vai tu com o Vasco disse-me o Pedro Eu continuo a angariar o resto e vou transferindo tudo. Espero conseguir vender a casa!

Toda a vila se comoveu, mas reunir tanto dinheiro parecia irreal.

Com os documentos organizados, embarquei para Israel com o meu pequeno. O que tínhamos não chegava. O Vasco iniciou exames e tratamentos preparatórios para a cirurgia. Não pensava em como angariar o resto só pedia um milagre. Estava prestes a fazer um ano.

No quarto ao lado, uma mulher portuguesa também acompanhava o filho, um rapazinho de três anos. Eram do distrito vizinho. A Fátima teve mais sorte: conseguiu juntar dinheiro. Mas a situação era mais grave o diagnóstico do Tiaguinho tardou, a doença avançou e a cirurgia era constantemente adiada.

Não chores, Raquel. Há-de correr tudo bem! Vais levar o Vasco ao circo, ao zoológico. O Tiago adorou ver o urso preto, ficou meia hora ali a olhar. Nessa tarde começou a sangrar do nariz eu nem percebia. Foi uma, duas, três vezes. Só depois fui ao hospital, já era fase avançada. Como não vi logo?

Força, Fátima! Vamos todos juntos ao jardim zoológico tentei animá-la.

Eu bem notava que algo não batia certo! O Tiago deixou de comer, emagreceu, chorava muito Deviam logo ter corrido para o hospital! soluçava a amiga. A minha mãe dizia-me, mas eu não queria acreditar!

A doença agravou-se e, uns dias depois, o Tiago foi levado para cuidados intensivos. Fátima ficou sentada no corredor, imóvel a olhar a porta, uma enfermeira administrou-lhe calmantes, mas a esperança já era pouca.

Quando o Pedro telefonou, eu embalava o Vasco, aproveitava cada instante, sem saber quanto tempo restava.

Raquel, consegui transferir mais cem mil euros. Hoje apareceu um casal a ver a casa. Baixei o preço, disseram que pensavam uns dias.

Está bem murmurei.

Um grito cortou o silêncio no corredor. O telefone caiu-me das mãos. O Vasco acordou a chorar, mas embalei-o de novo até adormecer. Fui a correr ao corredor. O corpo de Fátima tremia em frente à porta dos cuidados intensivos. As enfermeiras não a conseguiam acalmar, ela gritava sem parar. Nunca vi dor assim.

Fátima, aguenta tens de ser forte, pelo Tiago! disse-lhe, abraçando-a.

Para quê? O meu menino morreu! Como é que vou viver com isto? gritava.

Acompanhei-a até à enfermaria até lhe darem os calmantes. O médico suspirou:

Agora, só precisa descansar. Terá tempo de chorar depois.

Nessa noite não fechei os olhos. Fiquei junto ao Vasco, vigiando cada respiração, cada movimento.

No dia seguinte, a Fátima entrou no quarto. Não chorava. A dor envelhecera-a dez anos numa noite, e os olhos tinham uma tristeza sem fim. Abraçámo-nos longamente.

Que o vosso Vasco viva. Agarrem esta oportunidade. Eu agora tenho de cuidar do meu filho: o funeral, o luto, o jazigo limpou as lágrimas e deixou-me um envelope selado.

Obrigada foi tudo o que consegui dizer.

Quando fiquei sozinha, abri o envelope:

Querida Raquel, desejo que o Vasco viva, que ele cresça por ele e pelo meu Tiago: que jogue futebol, que vá aos escuteiros, que ria, que salte, que vá ao nosso Jardim Zoológico e cumprimente o grande urso preto, por mim No envelope está o dinheiro que restou da operação do Tiaguinho. Ele não vai precisar. Que salve o teu Vasco!

Chorei de alegria, porque podia finalmente operar o meu filho. Chorei de tristeza, pois aquele dinheiro tinha vindo da maior dor de uma mãe.

Pedro, não precisas vender a casa! disse-lhe no telefone no dia seguinte Havemos de regressar, todos juntos.

Mas e o dinheiro? Perguntou, espantado.

O dinheiro já tenho, Pedro. Vai correr tudo bem!

Desligou com um sorriso na voz, pela primeira vez desde o início da desgraça. Captei na voz dele o mesmo que sentia: confiança absoluta de que tudo se ia resolver. E assim foi.

A operação deu-se precisamente no dia de anos do Vasco: um ano de vida. Os dias seguintes passei à porta dos cuidados intensivos, como a Fátima. Mas desta vez, havia esperança e tudo correu bem. Ao fim de algum tempo, foi-me permitido estar com ele, depois ficámos juntos no mesmo quarto. Seguiu-se um mês de quarentena e vários de recuperação, mas eram pequenas coisas: o importante era estar salvo.

O Vasco foi recuperando cor, curiosidade pelas coisas, vontade de brincar. Um dia, soltou a palavra mamã e chorei de felicidade. O milagre acontecera.

Uuuso! apontava ele para o enorme animal preto na jaula.

Diz urso, Vasco! ri-me.

Era a nossa visita ao Jardim Zoológico de Lisboa, aquele mesmo onde o Tiago um dia ficou encantado a ver o urso. Fui até à jaula:

Um abraço do Tiaguinho para ti, ursinho murmurei ao animal.

O Vasco corria e ria, comia gelado e passeava às cavalitas do Pedro, observando todo o parque. Agora a vida dele enchia-se de alegria, de experiências novas. Os dias sombrios do hospital pertenciam ao passado. E só de vez em quando, de noite, um medo silencioso levava-me ao berço do Vasco, onde escutava o seu respirar sereno até sentir a tranquilidade regressar. Sabia que à nossa frente havia uma vida inteira por nós e pelo menino que, com a sua partida, deu uma nova oportunidade ao meu filho.

Hoje, aprendi que a esperança pode brotar do mais fundo desespero, e que o amor e a solidariedade tornam qualquer dor menos insuportável. Nunca sabemos onde termina a nossa força, até precisarmos dela.

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