Parentes do interior vieram passar uma semana, em grupo de cinco, no nosso T1 — e dei-lhes as boas-vindas coberta de manchas verdes, «tipo varicela»

Os familiares da aldeia vieram passar uma semaninha cá em casa, cinco ao todo, na nossa T0. Recebi-os toda pintalgada de verde era tipo varicela.

O meu sábado começou não com café, mas com o toque insistente do telefone. No ecrã, lia-se: Tia Otília.

Laurinda, prepara-te! a voz estrondosa da tia acordava até pedras. Já estamos a caminho, amanhã de manhã estamos aí! Fomos fazer-te uma surpresa: ver a capital e matar saudades tuas. Somos família!

Sentei-me na cama, a tentar processar aquilo. O mais aterrador naquilo tudo era a palavra somos.

Mas quem é que vem, tia Otília? perguntei devagar, ao mesmo tempo que dava um pontapé ao meu marido, o Ricardo, debaixo do edredom, para o acordar.
Ora, quem havia de ser! Eu, tio Artur, Teresa com o marido e o nosso neto. Não te aflijas, não somos esquisitos só precisamos de um sofá para dormir, vamos andar a passear o dia todo!

Cinco pessoas. Mais nós os dois. No nosso apartamentinho de trinta e três metros quadrados, onde o espaço livre é só o tapete do corredor e o caminho apertado entre o sofá e a televisão.

Desliguei o telefone em silêncio e olhei para o Ricardo. No olhar dele vi um pânico absoluto, bem como o desejo secreto de fugir do país ou pelo menos ir ali comprar pão e só voltar daqui a uma semana.

Tanta bondade assusta
Lembrei-me na hora da visita deles há três anos. Eram só três, mas essa semana ainda me aparece em pesadelos. O tio Artur fumava à varanda e atirava a cinza para as minhas plantas: Isto é bom, Laurinda, são nutrientes! A tia Otília ensinava-me a fazer caldo verde na minha cozinha de bonecas: Deixa cá ver como se corta isto. E nós, eu e o Ricardo, dormíamos num colchão insuflável que de manhã já era só chão, enquanto os nossos familiares se empertigavam no sofá em pose de reis.

Desta vez eram cinco. Teresa e marido sempre em altos berros, e o filho deles, Paulinho um furacão de sete anos para quem não faças isso mais parece um desafio.

Não podemos deixar, Laurinda disse o Ricardo, sério a olhar para o teto.
Mas como? suspirei. Já estão no comboio. Vou dizer voltem para trás? Conheces a tia Otília: ia discursar sobre laços de sangue, sobre quem me trocava as fraldas em pequena, sobre os ares de Lisboa. Depois, a aldeia inteira falava e a minha mãe caía para o lado de vergonha.

Quando a diplomacia falha
Ficámos na cozinha a beber café, à procura de saídas nenhuma boa. Arrendar-lhes um quarto? Esquece, depois do arranjo do carro não havia margem no orçamento. Ir nós para casa de amigos? Também não, nem todos conseguem acolher-nos uma semana inteira! Ignorar a campainha? Eles batiam até chamar os bombeiros.

De repente, fez-se luz. Era preciso uma razão que ninguém contrariasse. Uma daquelas de fugir a sete pés.

A varicela sussurrei.
Hã? o Ricardo não percebeu.
Varicela! Quarentena, sabes? Para adultos é perigoso: febre alta, complicações, marcas para a vida toda.

O Ricardo ficou na dúvida:
E se já tiveram?
A tia Otília e o tio Artur não, a mãe contou-me. Da Teresa não sei, mas arriscar com o filho pequenino? Não vão querer.

Camuflada de verde
Faltavam quatro horas para o comboio chegar, pusemo-nos a inventar. Fui buscar um frasco velho de mercurocromo.

Borrifa-me bem! ordenei, mostrando a cara. Testa, bochechas, pescoço, mãos. Quanto mais assustador, melhor.

O Ricardo fazia pontos grossos de verde a rir-se. No espelho via um monstro de banda desenhada. Para compor o cenário, vesti um robe largo e enrolei o pescoço num cachecol, despenteando o cabelo.

E eu? perguntou o Ricardo.
Tu és contacto direto. Próximo a apanhar. Isso assusta mais ainda.

Ensaiámos a história: adoecei ontem, febre altíssima, veio o médico, decretou quarentena rigorosa e espalhou medo do vírus mutante.

Não querem ao menos um chá?
A campainha tocou, pontual. Fora, malas a arrastar, vozes altas, o Paulinho a choramingar. Fiz figura de doente, o Ricardo abriu só um bocadinho a porta, tapando a entrada.

Ricardo, porque não vieram buscar-nos? o tio Artur já se esticava para passar.
Parem! cortou o Ricardo. Temos um problema sério.

Apareci eu, arrastando os chinelos, encostada à parede e moeite a respirar.

Bom dia arfei. Desculpem. Estou com varicela, forte. O médico disse que pega até pelo ar.

Instalou-se um silêncio no corredor. Todos me olhavam, olhos arregalados para o verde.

Varicela?! A Teresa recuou logo, protegendo o filho. Aos trinta anos?!

Fraca de defesas lamentei-me. Febres complicações

Via-se perfeitamente: na cabeça da tia Otília debatiam-se o amor ao alojamento gratuito e o medo à doença.

Artur, tiveste varicela?
Não acho que não o tio já se chegava para o elevador.
Nem eu! exclamou a Teresa. Mamã, vamos para um hotel!

E o Ricardo? desconfiou a tia Otília.
Sou o próximo suspirou o Ricardo. Dormimos juntos, é questão de tempo.

Bastou. A ideia de partilhar a T0 connosco, quase leprosos, foi cura imediata para o entusiasmo deles.

As melhores! murmurou o tio Artur, carregando no botão do elevador. Levamos as coisas, no hotel dão jeito.

O elevador levou malas, frascos e o incómodo connosco incluído.

Melhor que remédio
Fechámos a porta e o Ricardo escorregou parede abaixo, rebolando a rir. Fui ao espelho e desatei-me também.

Arranjaram alojamento num instante. Afinal, dinheiro uns bons euros tinham. Mas para quê gastar se podiam dormir às custas da família?

Dois dias depois, ligou-me a mãe:
Laurinda, o que se passa? A tua tia Otília diz que te estás a morrer, toda verde!
Já estou quase boa, mãe respondi animada. Milagres da medicina.

A verdade ficou por contar. Prefiro que achem que tenho saúde frágil do que mau feitio.

O mercurocromo saiu num banho, e passámos os dias seguintes entre silêncios, pizzas e a aproveitar cada centímetro do nosso minúsculo, mas tão livre, apartamento lisboeta.

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