Para evitar a vergonha, ela aceitou viver com um homem corcunda… Mas quando ele sussurrou o seu pedido ao ouvido dela, ela ficou sem chão…

Para não cair em desgraça, ela aceitou viver com um homem corcunda Mas quando ele sussurrou o seu pedido ao ouvido dela, as pernas tremeram-lhe

Ó Rui, és tu, filho?
Sou sim, mãe! Desculpa chegar tão tarde

A voz da minha mãe, cansada e aflita, ecoou no corredor escuro. Vestia um roupão velho, segurando uma lanterna como se me esperasse uma vida inteira.

Ruinzinho do meu coração, onde te andaste a meter àquelas horas? O céu já está negro, as estrelas brilham como olhos de gato no campo

Mãe, estive com o Diogo a estudar. Trabalhos de casa, preparação para o exame Perdi-me nas horas, desculpa não ter avisado. Bem sei que dormes mal

Ou andaste aí atrás de alguma rapariga? perguntou ela, desconfiada, semicerrando os olhos. Já te apaixonaste, foi?

Vá lá, mãe! ri eu, descalçando os sapatos. Nem sequer sou daqueles de quem as raparigas gostam Com esta corcunda, estes braços de macaco, a cabeça enorme quem é que precisa de mim?

Nos olhos dela passou uma sombra de dor. Mas não disse que ali via apenas o filho que criou na miséria, no frio, sozinha.

Eu, de facto, não era bonito. Mal chegava ao metro e sessenta, curvado, com braços compridos, quase a tocar nos joelhos, e uma cabeça grande, com caracóis a fazer de espantalho. Quando era pequeno, chamavam-me “gorila”, “duende”, “fenómeno”. Cresci, mas tornei-me mais do que apenas um homem.

Quando tínhamos ambos dez anos, viemos, a minha mãe Maria do Carmo e eu, para esta aldeia agrícola. Fugimos da cidade, da pobreza e vergonha: o meu pai tinha ido preso, e a minha mãe foi abandonada. Ficámos só nós os dois. Dois contra o mundo.

Esse teu Ruinzinho não dura, resmungava a senhora Augusta, olhando-me, franzino, Vai sumir-se do mundo e ninguém dá por ele.

Mas não foi assim. Agarrei-me à vida como as raízes à rocha. Cresci, respirei, trabalhei. E a minha mãe mulher de ferro, mãos destruídas de tanto amassar pão cozia broa para a aldeia toda. Dez horas por dia, durante anos, até ela própria já não se erguer.

Quando ficou acamada, fui filho, filha, médico, ama. Limpava o chão, fazia arroz doce, lia em voz alta as revistas antigas. E, quando ela morreu suave como o vento do campo fiquei calado, de punhos cerrados junto ao caixão. Já nem tinha lágrimas.

Mas as pessoas não esqueceram. Os vizinhos trouxeram comida, deram roupa quente. E começaram, aos poucos, a vir à minha casa. Primeiro os miúdos, fascinados por rádios e eléctrica. Eu trabalhava na rádio local reparava transístores, apontava antenas, soldava fios. Tinha mãos de ouro, mesmo que fossem desajeitadas.

Mais tarde, começaram a aparecer raparigas. Primeiro só para o chá e doce de abóbora. Depois, já ficavam mais tempo. Riam, falavam.

Um dia reparei: uma delas, a Celina, ficava sempre até ao fim.

Celina, não tens pressa? perguntei, quando já as outras tinham saído.

Não tenho para onde ir, disse baixinho, olhos no chão. A madrasta não gosta de mim. Três irmãos rudes, pai a beber, e eu sobrando Moro com uma amiga, mas não é para sempre Aqui é calmo. Não me sinto sozinha.

Olhei-a, e percebi, pela primeira vez, que eu podia fazer falta.

Fica cá a viver disse apenas. O quarto da minha mãe está vazio. Serás a dona da casa. Não te peço nada. Nem palavras, nem olhares. Só que fiques.

As pessoas começaram a comentar, em cochichos:

Uma beleza como aquela com o corcunda Rui? Que piada

O tempo passou. Celina arrumava, fazia sopa, sorria. Eu trabalhava, calava-me, cuidava.

E quando ela teve um menino, o mundo virou ao contrário.

A quem saiu o rapaz? perguntavam na vila. A quem?

O rapaz, o Duarte, olhava para mim e dizia: “Papá!”

E eu, que nunca pensei em ser pai, senti nascer no peito uma coisa quente como um pequeno sol.

Ensinei o Duarte as tomadas, a pescar, a ler. A Celina, a ver-nos, dizia:

Rui, devias encontrar-te uma mulher. Já não estás sozinho.

Tu és-me como irmã, respondia eu. Primeiro arranjo-te um marido bom. Depois logo se vê

E apareceu esse homem. Jovem, de outra aldeia, honesto, trabalhador.

Fizeram o casamento. Celina foi-se embora.

Um dia cruzei-me com ela na estrada e disse:

Quero pedir-te deixa-me ficar com o Duarte.

O quê? Para quê?…

Sei bem, Celina. Quando se tem um filho, tudo muda Mas o Duarte não é teu de sangue. Vais esquecê-lo. Eu não posso.

Não o dou!

Não o tiro, disse baixo. Vem visitar quando quiseres. Só deixa-o ficar aqui comigo.

Celina pensou. Depois chamou o filho:

Duarte! Anda cá! Diz, queres ficar comigo ou com o pai?

O rapaz correu, olhos brilhantes:

Não pode ser como antes? Os dois juntos?

Não suspirou ela.

Então fico com o pai! disse ele. Mas tu vens cá visitar!

E assim foi.

Duarte ficou. E eu, pela primeira vez, fui mesmo pai.

Mas um dia a Celina voltou:

Vamos mudar-nos para a cidade. Vou levar o Duarte.

O rapaz gritou, abraçado a mim:

Não quero ir! Fico com o pai! Com o pai!

Rui sussurrou a Celina, olhando o chão. Ele não é teu.

Eu sei, respondi. Sempre soube.

Eu fujo para ti, pai! gritava Duarte, sufocando em lágrimas.

E ele fugiu várias vezes. Levavam-no, voltava sempre.

No fim, Celina desistiu:

Seja como quiser disse. Ele já escolheu.

E começou outra história.

O marido da vizinha Rosa, a Masha da vila, morreu afogado. Um homem terrível, bêbado, bruto. Nunca tiveram filhos faltava amor naquela casa.

Comecei a ir lá buscar leite. Depois, a arranjar a vedação, o telhado. Por fim, a ir apenas conversar, beber chá.

Fomos ganhando confiança. Devagar, com muito respeito. Como gente crescida.

Celina escrevia cartas. Disse que o Duarte tinha uma irmã Beatriz.

Traz-nos cá, respondi. A família deve estar toda junta.

Um ano depois, vieram.

Duarte não largava a irmã. Pegava-lhe, embalava-a, ensinava-lhe a andar.

Filho, dizia Celina. Fica connosco: na cidade há teatro, escola, oportunidades

Não, abanava Duarte a cabeça. Não volto a deixar o pai. E já chamo mãe à tia Rosa.

E depois: escola.

Quando os colegas se gabavam dos pais taxistas, militares, engenheiros, o Duarte não se envergonhava.

O meu pai? dizia, com orgulho. Ele arranja tudo. Sabe como funciona o mundo. Salvou-me. É o meu herói.

Passou-se um ano.

Rosa e eu estávamos sentados à lareira, com o Duarte ao lado.

Vamos ter um bebé anunciou Rosa. Um pequenino.

Mas vocês não me vão mandar embora? sussurrou Duarte.

Como é possível, rapaz! exclamou Rosa e abraçou-o. És como se fosses meu! Sonhei contigo toda a vida!

Filho disse eu, olhando o lume como pudeste pensar assim? Tu és o meu mundo.

Meses depois, nasceu o Afonso.

Duarte segurava o irmão ao colo como se fosse um tesouro.

Agora tenho uma irmã sussurrava. E um irmão. E o pai. E a tia Rosa.

Celina continuava a chamar por ele.

Mas Duarte repetia sempre:

Já vim. Estou em casa.

Os anos passaram. Ninguém na aldeia já lembrava que Duarte não era do sangue. Os cochichos morreram.

Quando Duarte também se fez pai, contava aos filhos e netos:

O meu pai não era bonito dizia mas tinha mais amor do que todas as pessoas que conheci.

Todos os anos, no aniversário da sua partida, a casa enchia-se de gente filhos da Rosa, filhos da Celina, netos, bisnetos.

Tomávamos chá, ríamos, recordávamos.

Tivemos o melhor pai! diziam os adultos, brindando. Oxalá haja mais pais assim!

E em cada vez, alguém apontava o dedo ao céu às estrelas, à memória do homem que, ultrapassando tudo, foi pai de verdade.

O único.

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