Ora vê lá tu! exclamou o Gonçalo. Está certo! A última palavra deve ser sempre do homem.
Naquela manhã, o neto já adulto dos Fernandes chegou da cidade, trazendo consigo boas lembranças do recente casamento, ao qual toda a família tinha comparecido. Veio o Gonçalo buscar batatas, porque desde criança ajudava sempre os avós preferidos, fosse a plantá-las, fosse a apanhá-las.
Então conta lá, Gonçalo, como está a correr a vida com a tua Filipa? apressou-se a avó, ocupada junto ao fogão de lenha.
Olha, avó, nem sempre é fácil respondeu o neto, hesitante. Cada dia é diferente
Espera lá, espera lá interrompeu o avô Manuel, franzindo o sobrolho. Que é isso de cada dia ser diferente? Então já discutem ou quê?
Até agora, ainda não andamos a discutir. Andamos é a tentar perceber quem manda lá em casa confessou o Gonçalo.
Ai, filho, suspirou a avó Maria com um sorriso maroto , isso já se sabe!
Pois claro, riu-se também o avô. Sempre se soube que quem manda na casa é e será sempre a mulher.
Ora, ora voltou a ouvir-se da cozinha.
Ó avô, estás a brincar, não estás? O neto olhou para o avô admirado.
Não brinco nada respondeu logo o Manuel. Se não acreditas, pergunta à tua avó. Vá lá, Maria, diz tu: quem é que lá em casa tem sempre a última palavra?
Deixa-te de disparates, replicou benevolente a avó.
Não, diz lá, insistiu o avô. Quem é mesmo que toma as decisões finais, tu ou eu?
Sou eu, na verdade
Como pode ser isso? admirou-se o neto. Nunca notei nada disso por aqui. Eu acho que o homem devia sempre ser o chefe da casa.
Oh Gonçalo, não digas disparates! riu-se o avô. Numa família a sério as coisas não são bem assim. Deixa cá contar-te umas histórias que tu logo percebes.
História
Pronto, lá vamos nós outra vez resmungou a avó. Aposto que agora vem aí a história da motorizada.
Que motorizada? perguntou o neto, curioso.
Aquela velha motorizada que apodrece há anos no palheiro confirmou alegremente o avô. Aquilo já devia estar num museu. Mas sabes como é que a tua avó me obrigou a comprá-la?
A avó? Obrigou?
Pois foi. Pôs logo a nota em cima da mesa, das economias dela. Mas antes disso, houve outra história.
Uma vez, consegui juntar algum dinheiro, bastante para comprar uma motorizada com atrelado. Disse à Maria que é tua avó que queria comprá-la, para trazer as batatas do campo. Antigamente, davam-nos as terras para cultivar batata longe de casa.
A tua avó não queria respondia sempre que mais valia comprar uma televisão a cores, que na altura custavam muito dinheiro. Disse-me para continuar a carregar as batatas na bicicleta, como sempre fizera.
Um saco na barra, e siga. Cedi, que a última palavra era dela. Comprámos a televisão.
E a motorizada? perguntou o Gonçalo, intrigado.
A motorizada também acabou por vir suspirou a avó. Só muitos meses depois. É que o teu avô ficou com as costas em mau estado, e fui eu que tive de andar a carregar quase toda a batata. Quando fizemos a matança dos porcos, no São Martinho, dei-lhe todo o dinheiro que fizemos, e disse-lhe: vai lá então comprar a motorizada com atrelado.
E no outono seguinte conseguimos arranjar mais algum dinheiro, continuou o avô. Disse-lhe: temos de reconstruir o forno, que já não presta e precisa de telhado novo. Mas a tua avó pôs o pé atrás mais valia comprar mobílias novas, para termos a casa como a dos outros. Disse-lhe outra vez: seja como quiseres, a tua palavra é a última. Comprámos o mobiliário.
E depois veio um inverno cheio de chuva e vento, rematou a avó e o velho forno desmoronou-se todo. Não era de admirar, o telhado já não valia nada. Foi aí que decidi: a partir daí, fazia-se sempre como o Manuel dissesse.
Vês bem! exclamou o Gonçalo. Então está certo! Há-de ser sempre o homem a ter a última palavra.
Ora bolas, Gonçalo, não percebeste nada! riu o avô. Antes de fazer qualquer coisa, vou sempre ter com ela e digo: quero reconstruir a lareira, posso? E depois faz-se sempre como ela disser.
Depois dessas histórias, aprendi a responder: faz o que entenderes, Maria.
Por isso, Gonçalo, em qualquer família, o último voto deve ser sempre o da mulher concluiu o avô. Percebeste agora?
O Gonçalo ficou a pensar uns segundos, depois desatou a rir. Quando se acalmou, parecia ter chegado a uma conclusão.
Agora sim, avô. Já percebi tudo. Quando chegar a casa vou dizer: Está bem, Filipa, vamos passar férias no Algarve, como tu queres. O carro, por acaso, fica mais um tempo na oficina, que precisa da caixa automática nova. Se avariar de vez, paciência. Vamos de autocarro para o serviço até ao fim do inverno. É levantar mais cedo, qual é o problema É assim que se faz, avô?
Está certíssimo, aprovou o avô, sorrindo. Daqui a uns anos, Gonçalo, vão ver que as decisões em casa passam a ser sempre as mesmas.
E a mulher é sempre quem deve mandar na família. Assim o homem dorme descansado. Digo-te eu, que sei do que faloLá fora, o aroma a terra molhada misturava-se com o cheiro do pão acabado de cozer. A avó Maria espreitou pela porta entreaberta e viu o neto a sorrir sozinho, pensando talvez já na resposta que daria à mulher em casa. O avô Manuel, de olhar feliz, remexeu as brasas do fogão, satisfeito com o desenlace.
No calor acolhedor da cozinha, o relógio de parede bateu a hora e, por instantes, todos ficaram em silêncio, ouvindo o tique-taque tranquilo do tempo que passa. Ao fundo, um passarinho chilreou à janela. Gonçalo olhou para os avós e sentiu um nó suave de carinho apertar-lhe o peito. Era ali, entre histórias, manias antigas e gargalhadas, que tudo fazia sentido.
Na viagem de regresso, de saco de batatas ao ombro, Gonçalo percebeu que, afinal, muito mais importante do que saber quem manda, é saber ceder e rir, aprender e amar ao seu tempo, como o forno antigo que só caiu para que a casa crescesse mais forte.
Sorriu então, imaginando-se a repetir aquelas histórias, cabeça branca, para outros netos inquietos. E ali, no meio do caminho, soube que no fundo, quem tem mesmo a última palavra numa família, são sempre as memórias partilhadas essas sim, levam-nos sempre de volta a casa.







