Operário enfrenta o frio de -35°C, ouve um piar junto a um vagão abandonado. O que encontrou mudou completamente a sua visão do mundo

Manuel Teixeira, nas redondezas conhecido apenas como Teixeirinha, caminhava pela estrada coberta de geada, amaldiçoando a sorte que lhe fizera esquecer o termo de café em casa. Era uma noite de janeiro, e o frio de cortar o corpo, qualquer coisa como menos trinta e cinco, transformava a paisagem minhota à volta da pacata povoação de Paredes de Coura numa tela azulada e distante de tudo. Faltava-lhe ainda uma légua para chegar a casa, pelas curvas enterradas na neve.

Seguia pelo atalho do costume atravessando um pinhal esquecido, ladeando as ruínas de uma antiga pedreira, onde o silêncio era rei e poucos humanos metiam os pés. Por isso, quando Teixeirinha ouviu um chiado ténue e sofrido, pensou por um segundo que fosse um devaneio qualquer, talvez o vento ou a sua imaginação.

Parou, a respiração desenhando arabescos de vapor diante do rosto. Só silêncio, tirando o gemido das copas dos pinheiros e o ranger da neve sob as botas. Deu mais uns passos. Lá vinha outra vez aquele som, um guinchar rouco, pequeno e improvável no meio da ventania.

Raios partam isto murmurou, voltando-se para onde a melodia incomodamente viva chamava.

Por entre as sombras de um contentor de obras abandonado, semi-afundado em mantos de neve, Teixeirinha deparou-se com uma cena que lhe virou o peito do avesso. Numa cavidade escavada a custo pela própria pata, com certeza jaziam, encolhidos e desacreditados, uma cadela esfarrapada e dois cachorrinhos enrolados no seu ventre gelado.

Os olhos da cadela, grandes e cor de castanha torrada, pareciam abismos de súplica. Não se movia, não rosnava, não fugia, só esperava, muda, o coração preso ao futuro dos filhotes.

Ajoelhou-se numa nuvem de vapor: Santinha… Então quem te abandonou assim ao Deus-dará?

Pela pelagem, cheia de nós, percebia-se que já tinha tido dias melhores. Agora, só pele, os olhos fundos, o corpo todo a tremer, mas sem se afastar nem um centímetro dos pequenos.

Teixeirinha arriscou um afago. Ela cheirou-lhe a mão e, num suspiro, cedeu, rendida ao último fio de esperança. E essa confiança pesou-lhe mais que pedra.

Como vieste aqui parar?, perguntava em voz mansa enquanto coçava atrás da orelha. E este poço de sofrimento, quanto tempo a aguentas, menina?

O solo compactado e pisado à volta mostrava que ali ninguém passara por acaso. A cadela cavara cada vez mais fundo, tentando isolar os bebés do frio, com o corpo já quase cristalizado, esperou um milagre. Talvez só tivesse esperado por ele.

Teixeirinha despiu o velho casaco de burel e com cuidadosa ternura enrolou cada cachorrinho no pano. Choramingavam, o que lhe devolveu alento ainda respirava esperança.

E tu, mãe corajosa? inquiriu, como se ela realmente pudesse responder.

A cadela ergueu-se, trôpega, e avançou um passo, lento mas decidido, aceitando um destino desconhecido.

Vamos para casa prometeu Teixeirinha, vamos, agora é contigo.

A caminhada de regresso tornou-se num labirinto onírico: cachorrinhos aninhados dentro do casaco, a mãe coxeando ao seu lado, enquanto o vento gelado lhes cortava as faces. Paravam a cada cem metros: um encorajamento, uma festa na cabeça, o desejo que ela não desistisse.

À porta do casebre, ela tombou, esgotada. Teixeirinha compreendeu naquele instante: ela tinha dado tudo, era tempo de repousar.

Nem penses em ceder agora! ralhou, pegando-a ao colo como fazia com os irmãos em criança.

Quando entraram na casa aquecida pela lareira, ela olhou-o com uma gratidão tímida, que quase o desarmou. Chamar-te-ás Deolinda disse-lhe, como se já soubesse de sempre. E os teus meninos têm tempo para os nomes.

Três dias se quedou em casa, dizendo a quem perguntasse que estava ranhoso. Não era mentira: era uma dor no peito miudinha pelo destino da recém-família.

Deolinda não comia. Só lambia um pouco de leite quente. Teixeirinha percebia: era preciso relembrar-lhe o caminho do alimento, colher a colher. Incentivava como a um filho.

Mais uma colher, só mais um bocadinho, para eles.

E ela aceitava, porque a confiança era tão ténue mas sólida quanto a cerâmica velha do lume sabia que ali não havia traições.

Ao quarto dia deu-se um milagre: Deolinda caminhou até ao prato e tentou uma dentada sozinha. Os cachorrinhos piam, exigindo o mundo. Bravo! exultou ele, e naquele instante sentiu o gelo derreter.

Chamou-lhes Faísca e Fado: o primeiro maior e buliçoso, o outro pequeno e pensativo. Cresciam como erva daninha.

Os vizinhos não acreditavam: Estás doido, Teixeirinha? Três cães, desses tamanhos? E ele só sorria, porque explicar não valia nada. A casa tinha estado morta desde que a mulher se fora; agora, de novo, havia risos mesmo de quatro patas.

Deolinda mostrava coração e esperteza: parecia ler-lhe a mente. Pela manhã, acordava-o, à noite esperava à cancela. E, sobretudo, nunca esquecera: em cada alvorada pousava uma pata na mão dele, olhando-o fundo, obrigando-o a agradecer.

Anda, larga isso resmungava envergonhado, sentindo o peito inchar.

Faísca e Fado eram pestinhas: cavavam o quintal, mordiam chinelos, brincavam como meninos. Deolinda, firme mas amorosa, guiava-os.

No verão, veio o irmão da cidade. Por que não dás um dos cachorros a alguém? Três é um exagero!

Teixeirinha só respondeu: E tu separar-te-ias da tua mãe?

O irmão calou.

No outono, uma reviravolta: Teixeirinha cavava batatas quando lhe chegou aos ouvidos um latir aflito de Deolinda. Espiou e viu, do outro lado da porta, um homem de blusão de marca e um rapazito. Achegou-se:

O que procuram, senhores?

O meu filho diz que esta cadela é nossa, desapareceu no inverno

Deolinda encostou-se à perna dele, sem coragem para fugir, mas cheia de temor.

Riqueza! chamou o miúdo. Riqueza, anda cá!

Deolinda enterrou-se ainda mais em Teixeirinha. Ele entendeu: não eram donos perdidos eram os mesmos que a largaram no frio, prenhe.

Não é vossa cortou seco. Chama-se Deolinda.

Trazemos papéis! protestou o homem.

Papéis de quê? Da cadela que deixaram a morrer na neve, com filhos na barriga?

O homem ficou corado, o menino chorou, e Teixeirinha fechou-lhes o portão: Sigam o vosso caminho. Aqui não entram mais.

Quando partiram, Deolinda lambeu-lhe as mãos e trouxe-lhe Faísca e Fado, já dois cães lindos. Sentaram-se à volta, fechando o ciclo.

Somos família, não somos? riu-se, abraçando-os.

Nesse momento percebeu: ao salvá-los, tinha-se salvo também. Da solidão, do vazio, da vida sem sonhos.

A partir daí, cada manhã era o princípio da alegria contada em latidos. Cada anoitecer, um hino de respiração calma pousada aos pés. O amor voltara fiel, simples, sem perguntas.

Às vezes, enquanto via Deolinda e os filhos adormecidos, pensava: sorte a minha aquela noite gelada, ter parado para escutar o chiado do impossível.

No final sonhador e sereno compreendia: há salvação para quem resgata, e resgatar é, às vezes, ser resgatado.

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