Ontem pedi demissão. Sem aviso prévio. Sem carta de rescisão. Simplesmente deixei uma travessa com…

Ontem despedi-me.
Sem carta, sem aviso prévio.
Simplesmente coloquei o prato com bolo em cima da mesa, peguei na mala e saí da casa da minha filha.

A minha patroa era a minha própria filha Filipa.
E o ordenado, ou pelo menos assim pensei durante todos estes anos, era amor.
Mas ontem percebi: na economia da nossa família, o meu amor não vale nada ao pé de um tablet novo.

Chamo-me Maria. Tenho 64 anos.
Nos documentos sou reformada, ex-enfermeira, a viver com uma pensão modesta nos arredores de Lisboa.
Na prática, sou motorista, cozinheira, mulher da limpeza, professora em casa, psicóloga e até socorro permanente para os meus dois netos: Tiago (9 anos) e Diogo (7 anos).

Sou aquilo que se chama mulher da aldeia.
Sabem aquela expressão: É preciso uma aldeia para educar uma criança?
Hoje em dia essa aldeia costuma ser só uma avó cansada, movida a café, chá de cidreira e comprimidos para as dores.

A Filipa trabalha em marketing.
O marido dela, Ricardo, na área financeira.
São boas pessoas. Ou pelo menos costumo convencer-me disso.
Estão sempre cansados. Sempre a correr. Creche caro. Escola difícil. Atividades ainda mais. Quando nasceu o Tiago, olharam para mim como quem se afoga.

Mãe, não temos dinheiro para uma ama, disse-me a Filipa, com lágrimas. E não confiamos em estranhos. Só em ti.
E eu disse que sim.
Não queria ser um peso.
Por isso tornei-me apoio.

O meu dia começa às 5h45.
Vou até eles, preparo papas não qualquer uma, mas a verdadeira, porque o Diogo não come instantâneas. Arrumo os miúdos. Levo-os à escola. Volto a casa deles e limpo o chão que não sujei, e o WC que nem usei. Depois é voltar à escola, levar aos treinos, às aulas de inglês, futebol, ajudar nos trabalhos.
Sou a avó das regras.
Avó do não.
Avó polícia.

Ah! E ainda existe a Fernanda.
A Fernanda é a mãe do Ricardo.
Mora num apartamento novo em Cascais, vive de esticadelas ao rosto, carro novo, e viagens.
Vê os netos duas vezes por ano.
A Fernanda não sabe que o Tiago tem alergia.
Não faz ideia de como acalmar o Diogo quando ele entra em pânico por causa da matemática.
Nunca lavou vómito do banco do carro.
A Fernanda é avó do sim.

Ontem o Tiago fez nove anos.
Preparei-me durante semanas. Os euros não chegam, mas queria dar-lhe algo de verdade. Passei três meses a fazer-lhe uma manta pesada em croché, porque ele dorme mal. Escolhi as cores favoritas dele. Pus tudo o que tenho nela.
E fiz um bolo a sério nada de semi-pronto.

Às 16h15 bateram à porta.
A Fernanda entrou como um furacão perfume, cabelo arranjado, sacos de marca.
Onde estão os meus meninos?!
Os netos praticamente derrubaram-me para ir ter com ela.
Avó!
Ela sentou-se no sofá, puxou de um saco com logotipo.
Não sabia o que gostam, então trouxe o mais recente, disse ela.
Dois tablets de última geração. Dos mais caros.
Sem restrições, piscou o olho. Hoje mando eu!

Os miúdos perderam a cabeça. Esqueceram o bolo. Esqueceram os convidados.
A Filipa e o Ricardo brilhavam.
Mãe, não era preciso exagerar… disse o Ricardo, servindo-lhe vinho. Estás a mimá-los demais.
Eu, de manta nas mãos.
Tiaguinho… também tenho presente… e o bolo está pronto…
Ele nem olhou.
Agora não, avó. Estou a passar um nível.
Estive o inverno inteiro a fazer isto…
Ele suspirou:
Avó, ninguém quer mantas. A Fernanda deu-nos tablets. Porque és sempre tão aborrecida? Só trazes comida e roupa.

Olhei para a minha filha.
Esperei que interviesse.
A Filipa sorriu, incómoda:
Ó mãe, não fiques magoada. Ele é criança. Claro que o tablet é mais divertido. A Fernanda é a avó divertida. E tu… bem… és a de todos os dias…

Avó de todos os dias.
Como a loiça de todos os dias. Como o trânsito de todos os dias. Essencial mas invisível.
Quero que a Fernanda venha viver cá, atirou o Diogo. Ela não obriga a fazer trabalhos.

Naquele momento, algo quebrou dentro de mim.
Dobrei a manta. Pousei-a na mesa. Tirei o avental.

Filipa. Acabou.
Como assim? Vais cortar o bolo?
Não. Acabou.
Peguei na mala.
Não sou um eletrodoméstico que se pode desligar. Sou tua mãe.
Mãe, onde vais?! gritou. Amanhã tenho uma reunião! Quem vai buscar os miúdos?
Não sei, respondi. Talvez vendam o tablet. Ou talvez a avó divertida fique.

Mãe, precisamos de ti!
Parei.
Esse é o problema. Precisam. Mas não vêem.

E saí.

Hoje acordei às nove.
Fiz o meu café. Sentei-me ao sol, na varanda.
E pela primeira vez em muitos anos, não me doeu as costas.

Adoro os meus netos.
Mas não vou viver mais como criada gratuita, só porque dizem família.
Amor não é autodestruição.
E avó não é recurso.
Se querem avó das regras têm de respeitar as regras.

Por agora…
Se calhar vou inscrever-me em danças sevilhanas Dizem que é o que fazem as avós divertidas.

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