– Olá, Leonor! Peço desculpa, sou a sua vizinha de baixo.
– Já vou baixar o som da música, respondeu a jovem de robe leve, segurando um copo de vinho tinto.
– Não tem problema, não é por causa disso. Recebi agora um telefonema do trabalho do meu marido, pediram que fosse lá com urgência.
– Está tudo bem com ele?
– Não disseram nada. Só pediram para eu ir o mais depressa possível. E ir até casa da minha mãe demora muito. Será que podia ficar a olhar pelo meu filho? Ele tem sete anos e meio, podia ficar sozinho, mas fico preocupada. Já estou tão ansiosa…
– Claro, deixe-me só trocar de roupa e já desço.
– Ele é muito sossegado, ou está agarrado ao tablet ou passa o tempo a fazer perguntas.
***
A jovem, agora de t-shirt branca e jeans, estava sentada à mesa a beber chá enquanto conversava ao telemóvel:
– Aquela Fernanda da contabilidade é uma cabeça de vento. Nota-se bem como se atira ao Doutor Manuel.
O rapaz entrou na cozinha, com o tablet nas mãos. Ouvia-se uma discussão de um programa – o Jamie e o Adam do Caçadores de Mitos não se entendiam. Na t-shirt do rapaz lia-se O Futuro é dos Robôs!.
– Olha, desculpa lá, já te ligo. Estou aqui numa missão solidária. – despediu-se ao telefone a jovem. – Olá, eu sou a tia Leonor. Queres chá?
– Não, obrigado. Eu sou o Rui. A minha mãe avisou-me. A senhora é bonita… Mas a minha mãe diz que todas as bonitas são infelizes. O meu pai diz-lhe que, pelo que ela pensa, ou é feia ou o casamento é uma desgraça.
– Têm graça os teus pais. Obrigada pela parte do bonita. Quanto ao infeliz
– E onde está o seu marido?
– Bem foi ao supermercado, vá, já lá vão três anos.
– Ah, percebi! Deixou-a!
– Olha, vocês aqui em casa não têm nada mais forte que chá? Com estas perguntas começo a precisar…
– Acho que há vinho no frigorífico.
– Obrigada, mas como estou de visita, prefiro o chá.
– Tia Leonor, você precisa de um marido novo.
– Rui, vou esperar que tu cresças. Onde é que estão eles, não é?
– Mas o que é que procura? Vi num programa que é preciso imaginar muito bem o que se quer para encontrar.
– Manda-me o link desse programa! Basicamente, quero alguém rico, bonito, bondoso. Alguém que me ame e me dê tudo de bom.
– E a senhora, para que é que serve a ele?
– Como assim, para quê? Eu também vou cuidar dele, ir aos SPAs.
– Mas que vantagem tem ele nisso? Se for esperto, quer alguém que o ajude. Não um extra em casa…
– Disseste onde estava o vinho? – a jovem abriu o frigorífico, despejou o chá no lava-louças e encheu a caneca de vinho.
– Também vi um programa sobre as esposas dos milionários, diziam que elas acabam todas bêbedas, sozinhas em mansões.
– Isso, meu querido Rui, chama-se solidão. Queres brindar comigo? Estou a brincar!
– Sabe com quem é que eu quero casar?
– Eu já te disse, vai ser comigo!
– É a sério.
– Então com quem?
– Com a Filomena. Andamos juntos nas aulas de robótica. É muito inteligente, mais do que eu. Uma vez em competição, tínhamos dois módulos ligados por bluetooth que deixaram de se reconhecer. Estávamos na mesma equipa, fiquei em pânico, o robô nem mexia. Ela acalmou-me, começou de novo. Havia dez dispositivos visíveis, tudo menos o nosso. Pegou neles, fomos para o jardim. Ali já não havia interferências. No instante, os módulos encontraram-se. Ganhámos! Ela é a minha equipa, confio nela. Vale mesmo a pena gostar dela!
A jovem bebeu o vinho de um trago. Serviu-se de mais.
– Pronto, Filomena roubou-me o noivo. Do género, dizes que tenho de procurar marido aqui no trabalho?
– As pessoas de valor encontram-nos. Procurar não é ir ao supermercado escolher tomates
– Tu e essa filosofia, não entendo!
– Seja você própria rica, bonita e bondosa. Compreende agora?
– E para quê precisar de alguém depois disso? Ia viajar, aprender inglês, dançar, fazer cursos de cozinha Aprendia a fazer uma bela caldeirada!
– E o que é que a impede agora?
– Não tenho marido para pagar isso tudo.
– Então, desculpe, mas isso é mesmo ser um parasita.
– Olha, menos insultos! Só quero ter felicidade, como qualquer mulher.
– Tem de ver menos filmes! Vai passar a vida toda à procura de um homem que não existe, em vez de viver!
– Cala-te! Sabes lá tu da vida! Vai para o teu quarto, sabichão! Hora de dormir!
O rapaz foi-se embora. Ela chorava em silêncio. Acabou o vinho. O telemóvel tocou e ela rejeitou a chamada. A porta da entrada abriu-se. Entrou o casal, ambos com ar alegre e já tocados pelo vinho.
– Leonorinha, muito obrigada por ter ficado com ele, cantou a vizinha.
– Não foi nada. Só bebi aqui um bocadinho de vinho…
– Não faz mal, não faz mal.
– Vejo que está tudo bem com o marido?
– Imagine, foi tudo ideia dos colegas dele! Hoje faz anos do nosso primeiro beijo. Fui ao escritório dele, estava deitado no chão, com um bilhete no peito Sou o príncipe adormecido. Beija-me! Depois fomos comprar vinho e ao cinema, como nos tempos da faculdade.
– Combinados, só pode! Está na hora de eu ir.
– E o Rui, portou-se bem? – perguntou a mãe já à porta.
– Muito mal. Posso ficar com ele mais vezes? A ver se ponho juízo ao rapaz…
Olá, Svetlana! Peço desculpa incomodar, sou a sua vizinha do andar de baixo.







