O vizinho gostava de ouvir rock às duas da manhã. Comprei um violino para o meu filho e começámos a praticar escalas precisamente às oito, quando o vizinho acabava de adormecer.
Sempre que chegava meia-noite e meia, o teto do meu quarto começava a vibrar. Primeiro, um estrondo abafado, como se uma trovoada se formasse ao longe; depois surgiam os graves, e o cristal do aparador tilintava nervoso ao ritmo da bateria.
O meu vizinho de cima, chamado Pedro Oliveira, era um verdadeiro apaixonado pelo “trabalho artístico”, que consistia em ouvir obsessivamente a discografia dos Metallica e dos Xutos & Pontapés, acompanhado por cervejas baratas, a qualquer hora do dia ou da noite.
Sou uma pessoa pacífica por natureza. Trabalho como contabilista, sou mãe solteira de um menino de sete anos, o Tomás, e sonho apenas em poder dormir bem. Mas quando acordamos com a sensação de que James Hetfield está a gritar “Enter Sandman” diretamente ao ouvido, a pacifista interior desiste rapidamente.
Na primeira vez, subi até à porta dele por volta das duas da manhã de robe e chinelos. A porta abriu-se para revelar um homem perto dos trinta, despenteado e com olhar confuso. A casa cheirava a tabaco e rock pesado.
Pedro, tenha um pouco de consideração disse, tentando manter a calma. É de noite, amanhã trabalho, o Tomás vai à escola.
Mas não está assim tão alto respondeu ele, encostado à ombreira, sinceramente surpreendido. A aparelhagem é boa, os graves são suaves.
A minha lâmpada balança repliquei.
Está bem, vou baixar murmurou e fechou a porta.
A paz durou dez minutos. Depois, tudo voltou ao mesmo.
No dia seguinte, decidi seguir os procedimentos. Chamei a polícia. Chegaram uma hora e meia depois, quando o concerto já tinha terminado e o Pedro dormia profundamente. Os agentes encolheram os ombros: Não há barulho, não há nada a registar. Fale com o delegado.
O delegado realmente apareceu, mas só uma semana depois.
Já falei com ele avisou ao telefone. Prometeu ser mais moderado, mas entenda, as multas são irrisórias; ele não se importa.
Assim, tudo continuou. Todas as noites o mesmo ritmo, baque-baquetadas nervosas nos meus nervos. Passei a tomar chá de valeriana, a ir trabalhar de cara cinzenta, odiando o prédio, o Pedro, e a minha própria impotência.
O talento do Tomás precisava de ser cultivado
A ideia surgiu numa manhã de sábado, enquanto tomava café e olhava as olheiras do Tomás. Ele também não dormia bem.
Mãe, será que posso aprender violino? perguntou, folheando algo no telemóvel.
Já alguma vez ouviram um violino nas mãos de um principiante? Não é música. É um som de cortar qualquer ser sensível: agudo, estridente, como se o tecido da realidade se rasgasse.
Claro, meu querido disse, sorrindo pela primeira vez em meses, um sorriso astuto. E vamos comprar um bom instrumento.
Fomos à loja de música nesse dia. O vendedor, um senhor simpático de cabelo branco, ajudou-nos a escolher um quarto de tamanho.
O rapaz tem ouvido? perguntou.
Ele tem motivação respondi.
Entretanto, estudei a fundo a Lei do Ruído regional. Podia fazer barulho a partir das 8h nos dias úteis, e um pouco mais tarde aos fins de semana.
Pedro calava-se por volta das quatro da manhã. E às oito, estava num sono fundo.
Segunda-feira. De manhã. Eu e o Tomás no meio da sala.
Força, Tomás, escala de dó maior. Firme. Bem alto.
O som que se seguiu desafia descrição. Parecia um gato a ser apertado pela porta, misturado com o arranhar de um prego no vidro. O violino, sem qualquer abafador, ressoava perfeita e diretamente na laje de betão, saudando o vizinho de cima.
Dez minutos depois, ouviu-se um estrondo. Provavelmente, Pedro. Cinco minutos depois, bateram nas canalizações. Mas continuámos, a lei estava do nosso lado.
Às 08h20 tocou a campainha. Abri a porta. Pedro, de camisola e cuecas, olhos vermelhos, cara de quem viu uma tragédia.
Estão a gozar comigo?! resmungou. Oito da manhã! As pessoas querem dormir!
Bom dia, Pedro! respondi alegremente. Estamos a ensaiar. O Tomás tem talento, o professor recomendou praticar todas as manhãs antes da escola. Pelo menos uma hora.
Não pode ser, a minha cabeça já não aguenta!
Que estranho disse, fingindo surpresa. Não está assim tão alto. Por sinal, gostou do Enter Sandman esta noite? Achei que os graves estavam um pouco fracos.
Ele olhou para mim e para o Tomás, que segurava o violino e o arco como um pequeno guerreiro.
Isto é de propósito?
É arte, Pedro. E a arte exige sacrifícios.
Acordo musical
Ensaio durante uma semana. Sempre às oito em ponto. Ao terceiro dia, os concertos noturnos cessaram Pedro esperava que, com silêncio, também parássemos. Mas interromper o treino é inviável.
Às sextas, Pedro desceu. Sóbrio, de jeans e camisa.
Olha, vizinha disse cansado. Precisamos chegar a acordo. Já não aguento. O chiado ecoa na minha cabeça o dia todo.
Estou a ouvir convidei-o para a cozinha.
Pus uma folha de papel e uma caneta sobre a mesa.
Condições simples. Silêncio absoluto depois das 22h.
E se houver amigos em casa? tentou negociar.
E se o Tomás tiver inspiração às sete de domingo? retorqui calmamente.
Pedro quase tremia.
Certo. Depois das dez, silêncio. Está combinado. E o violino pode vender?
Não, Pedro disse. Fica guardado. Garantia do acordo. Sempre pronto, como prevenção.
Assinámos este improvisado pacto de silêncio, que vigora há meia ano. Na verdade, o Tomás já deixou o violino agora é fã de xadrez.
O prédio está finalmente em paz. De vez em quando, cruzo-me com Pedro perto do elevador. Olha para o meu filho com prudência, para mim com respeito. Parece que entendeu: uma mãe tranquila, com um filho bem-educado, pode ser mais firme do que qualquer roqueiro rebelde.
Às vezes, para encontrar harmonia, é preciso ousar tocar a nossa própria música.






