O Sabor do Silêncio: Quando o Heroísmo Alheio Revela a Solidão de um Casamento – A Jornada de Ludmil…

Que bem que se está assim… murmurei para mim mesma, entre um gole de café.

Nada se compara ao silêncio da manhã, este breve intervalo em que o Pedro ainda dorme e Lisboa ainda vai acordando devagar, com o céu ganho de luz nova por detrás das janelas. Nesses minutos, tudo parecia estar no seu devido lugar. O emprego seguro. O apartamento acolhedor. O marido tranquilo e de confiança. O que mais se pode querer para se ser feliz?

Nunca invejei as amigas que se queixavam dos maridos ciumentos, das discussões por ninharias. O Pedro nunca mostrou desconfiança, nunca me fez uma cena, nem sequer espreitou o meu telemóvel ou exigiu relatórios dos meus passos. Limitava-se a estar presente e, por estranho que pareça, isso para mim bastava.

Ritinha, viste as minhas chaves da arrecadação? Pedro entrou na cozinha com o cabelo todo desarrumado do sono.

Devem estar na prateleira ao pé da porta respondi. Vais outra vez ajudar o senhor Manuel, é?

O carro voltou a não pegar. Diz que é da bateria ou lá do carburador, vou só lá ver.

Lá lhe servi uma chávena de café, como já fazia quase de olhos fechados. Era tão habitual. Na verdade, o Pedro parecia ter sempre tempo e paciência para ajudar toda a gente: colegas de trabalho com mudanças, vizinhos com torneiras avariadas, familiares com papeladas ou obras. Às vezes ria-me silenciosamente: O meu cavaleiro andante. Sempre pronto a resolver problemas que não eram os dele.

Foi essa generosidade que me atraiu desde o primeiro encontro, quando parou na rua para ajudar uma idosa a levar os sacos até ao prédio. Podia ter seguido caminho, mas não ficou ali até ao fim. Diferente de tantos homens que conheci.

A nova vizinha do segundo andar tinha chegado há uns três meses. Nem reparei nela de início; nos prédios de Lisboa, as pessoas vão e vêm sem deixar rasto. Mas a Sílvia era daquelas mulheres que se fazem notar.

Ria alto nas escadas, andava pelos corredores noite e dia de saltos altos e falava ao telefone como se quisesse que todo o bairro a escutasse.

Nem imaginas, hoje ele trouxe-me as compras, um saco cheio! Sem eu pedir nada ouvi da boca da Sílvia, um dia, quando nos cruzámos junto às caixas do correio. Ela irradiava alegria, aquela felicidade ridícula de quem está nos primeiros embalos de paixão.

Novo namorado? perguntei, mais por educação.

Não é bem novo piscou-me o olho, toda misteriosa mas é uma jóia. Resolve tudo o que é problema, acredita? A torneira avariou, ele veio cá; as luzes piscaram, ele arranjou; até já me ajudou a pagar contas, veja lá! falava sem parar.

Tem sorte disse, por dizer.

Sorte, não… Nem imagina! Só há um senão: é casado. Mas, hoje em dia, casamento é só um carimbo, não é? O importante é como nos sentimos…

Subi as escadas já com um incómodo que não sabia de onde vinha. Não era o moralismo, era qualquer coisa que me roía fundo.

Nos dias seguintes, os encontros casuais com Sílvia persistiram. Parecia de propósito, esperava por mim no elevador ou em frente ao prédio, só para partilhar os seus entusiasmos.

Ele é tão querido, pergunta sempre se preciso de alguma coisa…
Ontem trouxe-me anti-gripais à meia-noite, porque disse que estava constipada!
E sabe o que ele diz? Que o sentido da vida dele é ser preciso…

Nessa altura, senti um arrepio. Ser preciso eram palavras do Pedro. Tinha-as ouvido mil vezes, até no nosso aniversário de casamento, quando se atrasou porque foi ajudar a mãe de uma colega com a horta.

Coincidência convenci-me. Há homens assim, feitos para se sentirem precisos.

Mas os pormenores foram-se acumulando: os gestos de trazer compras sem ninguém pedir, o gosto de reparar tudo, a frase feita repetida. E, apesar disso, tentava afastar os pensamentos: É paranóia, não vou duvidar do Pedro só por ouvir a conversa de uma vizinha.

Foi então que Pedro começou a mudar. Não de rompante: pouco a pouco. Saía dizendo é só um minuto e perdia-se durante uma hora, nunca largava o telemóvel, nem na casa de banho, e respondia-me às perguntas curtas e com impaciência.

Vais onde?
Tenho coisas a tratar.
Que coisas?
Ó Rita, agora interrogatórios?

Curiosamente, parecia feliz, de alma cheia. Senti algo estranho: ele andava a alimentar-se desse sentimento de ser útil, mas já não era comigo…

Numa dessas noites, voltou a sair.

Um colega precisa de ajuda com papéis…

A estas horas?

Só pode ser agora, durante o dia ele está a trabalhar.

Deixei-o ir sem dizer nada. Espreitei à janela: ele não saiu logo do prédio.

Peguei na mantinha, já resignada, e desci devagar. Fui directa à porta conhecida do rés do chão.

Carreguei no botão da campainha. Não pensei nas palavras, não preparei um discurso só queria saber.

A porta abriu-se rapidamente, quase como se já aguardassem por mim. A Sílvia, de robe curto de seda e copo de vinho na mão, perdeu o sorriso quando me viu.

Por trás dela, já no corredor iluminado, lá estava o Pedro, sem t-shirt, cabelo ainda húmido do banho, à-vontade, como se aquela fosse também a sua casa.

Olhamo-nos em silêncio. O Pedro gelou, a boca entreaberta. A Sílvia limitou-se a encolher os ombros, indiferente.

Virei costas e subi as escadas. Ouvi as passadas dele a correr atrás de mim, aquela voz atrapalhada: Rita, espera, deixa-me explicar Mas não o deixei entrar em casa.

De manhã, apareceu a Dona Graça, mãe do Pedro. Era inevitável. Sabia que ele ia ligar-lhe mal pudesse.

Rita, filha, não sejas criança instalou-se na minha cozinha como se nada fosse. Os homens são como meninos, precisam de se sentir heróis. Aquela vizinha tua, coitada, só precisava de alguém a ajudar. O Pedro não sabe dizer que não…

Falhou-lhe é na cama, está a ver?

A Dona Graça fez cara de ofendida, como se eu tivesse dito uma obscenidade.

Não baralhes as coisas. O Pedro sempre foi bom rapaz. Sempre pronto a ajudar. Isso não é crime. Envolveu-se, sim acontece. O meu marido também às vezes Bah, isso passa. O importante é a família. Vais largar tudo por um disparate?

Olhei-a e vi nela tudo aquilo que temia tornar-me: resignada, capaz de fechar os olhos a tudo para manter o verniz do lar.

Obrigada pela visita, Dona Graça, mas quero ficar sozinha.

Saiu porta fora, magoada, ainda resmungando sobre estas novas gerações que não sabem perdoar.

O Pedro voltou ao final do dia, cabisbaixo, arrastando-se pelo corredor, olhos de cão arrependido, a tentar pegar-me na mão.

Rita, não é o que pensas… Ela só disse que precisava que lhe arranjasse a torneira, depois fomos falando, é tão infeliz, tão só…

E tu lá sem roupa porquê?

Entornei água de propósito… quando estava a arranjar a torneira. Ela emprestou-me uma t-shirt, a seguir entraste tu…

Via-o e só me ocorreu: sempre foi um péssimo mentiroso. Cada gesto revelava nervosismo, cada frase soava a treta.

Olha, mesmo que… vá… mesmo que tenha acontecido alguma coisa não significa nada! Eu amo-te a ti. Ela foi só uma parvoíce, um escape. Fraqueza minha de homem.

Sentou-se ao meu lado no sofá, a tentar abraçar-me.

Esquece, está bem? Nunca mais volto a fazer. Até te digo, já me está a cansar. Ela quer sempre, sempre, sempre, tudo…

Aí compreendi, finalmente. Não era arrependimento era medo de perder a zona de conforto. Medo de ficar com alguém que realmente o precisasse, em vez de poder continuar a brincar ao herói.

Vou pedir o divórcio disse, tão simples como se dissesse, vou desligar o ferro.

O quê? Rita, perdeste o juízo? Por causa de um deslize?

Levantei-me, fui ao quarto, tirei a mala de viagem do armário, comecei a pôr os documentos dentro.

O divórcio saiu dois meses depois. O Pedro foi viver com a Sílvia, que o recebia com festa, mas só durou até as listas de tarefas se acumularem: arranja isto, paga aquilo, compra o outro, resolve mais aquilo.

Ia sabendo disso por amigos comuns; encolhia os ombros, sem rancor: cada um tem o que merece.

Eu fui alugar um T1 do outro lado de Lisboa. Todas as manhãs tomo o meu café em silêncio, sem ninguém a perguntar pelas chaves do carro, sem volto já nem cheiros a perfumes alheios. Ninguém me pede para ser compreensiva e prática.

Estranho pensei que ia doer, que viesse a solidão, a saudade, o desgosto. Mas não foi uma leveza nova, uma paz estranha, como se me tirassem das costas um casaco velho e pesado, que carregava há anos sem dar conta.

E pela primeira vez em muitos anos, eu era só minha. E isso, percebi, vale mais do que toda a estabilidade do mundo.

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