O Presente do Papá

A mãe era linda, mas, segundo o pai, era o seu único ponto forte. Eu, que o adorava até perder o fôlego, via tudo pelos olhos dele.

Jorge dava aulas de ciência política na Universidade de Coimbra. Era um homem muito inteligente, de família culta, que nunca aceitou de imediato a Catarina, a minha mãe. Só mais tarde soube como eles se conheceram. Jorge, ainda estudante, fez parte de um grupo de voluntários que foi para uma cooperativa agrícola no interior de TrásosMontes para construir currais. Catarina, com 17 anos, trabalhava como leiteira. Só tinha concluído o 8.º ano, e mesmo depois de anos ao lado de Jorge nunca aprendeu a ler rápido; ainda seguia as sílabas com os dedos, murmurandoas baixinho. Mas era uma beleza rara: pele alva como marfim, cabelos dourados até à cintura, olhos azulcobalto e um perfil esculpido. Na foto de casamento parecia ter saído de revista. Jorge era alto, moreno, de bigode cheio e muito viril. No verão em que Catarina ficou grávida, ele teve de se casar com ela talvez porque, de fato, a amava. Mas a família dele pressionava, acusando a Catarina de têlo engodo e, na universidade, rodeavamnos jovens doutorandas, menos bonitas mas muito mais instruídas, que podiam acompanhar qualquer conversa. Além disso, sempre que Jorge a levava a jantares ou convívios, ela comia de forma desastrada, sem usar talheres e fazia tanto barulho ao rir que ele se envergonhava. Jorge não hesitava em dizer isso à mãe, que apenas balançava a cabeça com um sorriso triste, sem ousar contestálo.

Eu jurava nunca ser como a mãe. Queria que o pai se orgulhasse de mim. Antes mesmo de entrar à escola aprendi o alfabeto, lia melhor que a própria mãe e treinava números o dia inteiro, para que, quando Jorge me lançasse um exercício, eu acertasse e ganhar o seu elogio. À mesa observavao atentamente, imitandoo: comia com a boca fechada, não lambia o prato com o pão, usava faca e garfo. Mesmo assim, o pai mal me lançava um olhar, acariciavame os cabelos despeinados de forma distraída. Nos raros momentos em que conseguia conversar com ele, esses diálogos tornavamse meu consolo e guardavaas na memória.

Quando eu estava na segunda classe, Jorge desapareceu. A mãe tentou esconder, mas eu descobri que ele tinha outra mulher. Quando ouvi a palavra divórcio, só pensei: Se ao menos ele me levar para a casa dele. Claro que fiquei com a mãe. Tivemos que sair do apartamento, que pertencia aos avós, que só queriam livrarse de nós. Por um tempo, Jorge enviava transferências mensais de euros e a avó mandava caixas de doces nas festas. Mas a crise que devastou o país fez o pai ficar desempregado e o dinheiro acabou. Catarina arrumou vários bicos como empregada de limpeza, lavando pisos das manhãs até à noite, recebendo salários baixos e atrasados. Vivíamos apertados. A beleza da mãe desbotou com os anos; eu já não via nada de bom nela e culpava-a mentalmente por Jorge nos ter abandonado.

Jorge, por outro lado, entrou no mundo dos negócios. Uma vez apareceu à porta, trouxeme um casaco novo e deixou algum dinheiro. Esse dia ficou gravado: era inverno, eu acabara de chegar da escola, tremendo no velho casaco que já tinha as mangas curtas. Jorge ficou à porta a mãe estava no trabalho e ninguém lhe abriu. Ele esperou, firme. O meu coração disparou: ele não se esqueceu de mim! Oferecilhe chá com açúcar e falei sem parar sobre as notas da escola, tentando mostrar o quão esperta eu tinha ficado. Ele ouviu distraído, mas não foi embora, bebeu o chá até ao fim, tiroume o casaco novo, pôs dinheiro na mesa e disse:

Dá isto à mãe. No próximo mês trago mais.

Virá ao meu aniversário? perguntei timidamente.

Ele fitoume como se tivesse esquecido a data e respondeu:

Claro! O que queres de presente?

Uma boneca! respondi, corando, embora já fosse quase adulta. Por alguma razão queria aquele símbolo da infância nas mãos do pai. Normalmente ele me dava livros.

Está bem assentiu ele , será uma boneca.

Quando a mãe voltou, eu orgulhosamente lhe contei a visita e que ele prometera a boneca no meu aniversário.

No dia do meu aniversário corri para casa a toda velocidade, temendo que o pai não aparecesse. Esperavao no portal, mas ele não vinha. A mãe tinha preparado um bolo e, de manhã, deume um suéter novo com padrões da moda, que eu desejava há tempos. O bolo deixeio intocado, na esperança de que ele chegasse. Mas não chegou. À noite, quando a mãe regressou do trabalho, partilhámos o bolo, mas eu não estive nem um pouco de festa; no fim, acabei chorando. A mãe compreendeu, mas não comentou nada sobre o pai.

No dia seguinte a mãe entregoume uma caixa:

Trouxe do correio, atrasou um pouco. É do teu pai.

Abria e vi uma boneca novinha, embrulhada em rosa. Exclamei feliz e perguntei:

Por que ele não veio?

Deve estar em viagem de negócios respondeu a mãe, desviando o olhar.

Aquela boneca tornouse a minha favorita. Leveia até à escola, sem medo das risadinhas dos colegas. Jorge nunca mais apareceu. Os avós nunca enviaram o habitual apoio em euros. Aos poucos aceitei que só a mãe estava ao meu lado, mas ainda ansiava por ele, fazendo tudo na esperança de que um dia ele voltasse, visse quem eu havia tornado e sentisse orgulho.

Depois da 11ª classe ingressei na escola de medicina. Queria tanto contar a novidade ao pai que decidi encontrálo a qualquer custo. Lembravame aproximadamente o endereço do antigo apartamento de Jorge, onde vivi oito anos, e o da casa dos avós, onde só ia nas festas. Sem avisar a mãe, parti à procura.

Cheguei ao apartamento de Jorge e uma mulher abriu a porta, dizendo que não morava ali há sete anos. Perguntei sobre os antigos inquilinos, mas ela bateu a porta.

Na casa dos avós ninguém respondeu. Quando ia partir, abriuse a porta ao lado e apareceu uma senhora magra, de óculos grandes, que perguntou:

Quem é?

Vim ao Sr. Sérgio. Sou a neta.

A senhora olhoume mais atento e respondeu:

Se és neta, sabes que eles já há muito tempo estão na sepultura.

Fiquei vermelha.

Não sabia Os meus pais divorciaramse e eu

Sim, sim, divorciaram Então tu és a Maria?

Sim.

Queres ver a avó e o avô?

Queria. E ao pai também disse eu, suspirando.

A senhora me encarou de um jeito que tudo ficou claro.

Todos eles morreram. Por dívidas. Num dia. Por causa do teu pai

A verdade caiu sobre mim como uma tempestade, sem ar para respirar.

Não te matares assim exclamou a senhora , ainda és jovem, a vida à tua frente. A mãe ainda está viva?

Assenti.

Tenho aqui os números das sepulturas. Vou darte o endereço. Vai lá, fala com eles, isso vai aliviarte.

Cavou entre as gavetas, encontrou um caderno, leume as coordenadas e nomeou o cemitério. Agradeci e fui embora, embora o medo já me apertasse forte.

Os túmulos estavam cobertos de ervas daninhas, descuidados. Desenterreios com esforço para ler as lápides, todas alinhadas atrás de uma grade. Ao ver a data da morte, percebi que aconteceu dois dias depois da última vez que vi o pai.

No caminho de volta, num elétrico antigo, o pensamento me acertou: como é que o pai pôde ter enviado essa boneca no aniversário? Guardeia até hoje, a protegi como se fosse o único presente que a mãe jamais me deu. De repente pensei que talvez a boneca fosse da própria mãe. O rubor subiu às minhas bochechas, um nó ficou preso na garganta. Senti vergonha. Descobri que o meu pai era um bandido que destruiu a sua própria família. Ainda bem que não vivíamos juntos; senão estaríamos ambos no mesmo caixão.

Não contei nada à mãe sobre a visita. Inventei que tinha saído com amigas. Depois abraceia, disse que a amava muito e menti outra vez:

Obrigada por tudo.

A mãe ficou surpresa, seus olhos azuis, um pouco apagados pelo tempo, ainda brilhavam.

Sempre soube que a boneca foi tua disse ela , por isso a adoro tanto.

Lágrimas grossas escorreram dos olhos da mãe. Não me envergonhava da mentira; envergonhavame de todos os anos em que a julgava inútil, a achar que só a sua beleza fugaz importava

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