A notícia de que tinha nascido uma filha apanhou Manuel Gouveia de surpresa, mesmo ali no escritório da madeireira, justo no dia em que recebia o ordenado. Os homens, com as notas de euro já no bolso, iam-se retirando, levando os baldes vazios que dantes serviam para o gasóleo, enquanto ele ficou ali parado à porta, apertando as notas amarrotadas na mão.
Que azar, pá! murmurou entre dentes, cuspindo para o chão coberto de serradura. Bem disse à mulher: dá-me um rapaz. Não, tinha que ser uma miúda!
Sentiu-se ferver de mágoa e rancor por dentro, tudo aquilo contra a sua mulher, Amélia. Custava-lhe tanto aceitar que, agora, iria para casa uma casa vazia onde nem o riso duma mulher se ouviria. Enquanto Amélia e a recém-nascida lutavam pelos dias no hospital de Santarém, Manuel pegou nos seus poucos pertences, enfiou mudas de roupa e pão num saco de lona, e foi-se para a aldeia da sua mãe, do outro lado do Tejo, uns vinte quilómetros de caminho.
Amélia, depois de trazer a primeira filha ao mundo, voltou passado duas semanas à casa vazia. Olhou para aquela sala arrumada de forma estranha (lá foi Manuel, antes de partir, tentar ajeitar as coisas), pousou o embrulhinho ao lado na cama e sentou-se, caindo a cabeça nas mãos. Os ombros tremiam-lhe no silêncio do choro. A menina, tão pequenina, dormia aninhada no cobertor, chupando os lábios de quando em quando. E Amélia ali pensativa, amarga, perguntando-se: Quem diria que serias tu, minha filha, a separar pai e mãe?
Manuel era homem de poucas palavras, robusto, de cara fechada, sempre conhecido pela aldeia pelo feitio difícil. Não admitia contraditório, qualquer resposta atravessada era afronta séria. E metera-lhe na cabeça: havia de ser um rapaz, um sucessor. Em pequeno, crescera como o filho mais novo depois de duas irmãs e achava que só nele, Manuel Gouveia, é que se segurava o nome de família. Agora, uma rapariga! Para quê? Um peso morto.
A sogra, mãe de Manuel, ainda tentou ir falar-lhe, chamá-lo à razão, mas ele estava decidido: Enquanto aquela miúda ali estiver, não volto! E vinte quilómetros tornaram-se uma distância impossível para Amélia.
Recuperada do parto, Amélia atirou-se ao trabalho. Em 1957 ninguém se alongava em licenças de maternidade: tratava da casa, ia para o campo cedo. No fundo, desejosa de acalmar o coração de Manuel, chamou a filha de Benedita pelo menos o nome soava sério, forte. A miúda cresceu saudável, tranquila. Nada de birras, nem choro. Com seis meses já se segurava à borda do berço, com pouco mais de um ano mal a tiravam do cavalinho de pau que o vizinho lhe ofereceu. Andou e falou cedo, com um ano e meio já tagarelava pela casa, incansável, um furacão, dizia a avó.
Na creche, a Benedita (que ninguém tratava senão por este nome) virou logo o centro das atenções. Rápida, decidida, dava dois a qualquer rapaz da idade dela. Com três anos, calava o vizinho de cinco se tentava ficar-lhe com o balde de areia. Era de pulso firme: não ia para o colo de toda a gente, nem se deixava mandar facilmente. Corria pelo pátio, de camisa remendada, um ramo de vime na mão para escorraçar as vacas do vizinho do quintal. De onde vinha tamanha coragem naquela cria tão pequena?
O Manuel, entretanto, foi-se consolar noutras bandas. Chegou-se a uma viúva, a Eugénia Paredes, que já tinha dois filhos. Primeiro era para enganar a saudade, mas ela, mulher de esperteza e matreirice, tratou de o agarrar. Tornou-se-lhe simpática, dava-lhe conversa, parecia só ver qualidades nele.
Dou-te um filho, Manuel prometia ela, enroscada nos lençóis. O melhor de todos!
Rapaz, quero eu! resmungava o Manuel, já sem a imponência de antigamente.
Mas o tempo passou e Eugénia não engravidava. Talvez nem pudesse. Manuel foi ficando amargo. Dois anos se passaram, nada. Criar filhos de outros não era vida queria era um dos seus.
Foi então que chegaram rumores à aldeia nova: diziam que a filha dele, Benedita, crescia igual a um rapaz. Forte, vivaça, corajosa. Três anos só, mas já valia por dois homens.
Mãe Manuel, irredutível: Vai lá ver a filha. O sangue é o sangue. Ele talvez nem fosse, mas apanhou Eugénia com uns saquinhos de raízes, ervas secas atrás do armário. Estranhou aquilo e ainda soube que ela ia consultar a curandeira.
Nesse mesmo dia, Manuel fez a trouxa, bateu a porta com tal força que até o vidro tremeu e sumiu de lá. Eugénia gritou, explicou-se, que era tudo para engravidar mais depressa, mas ele já estava a caminho.
Quatro anos depois, Manuel volta a casa. Viu a filha pela primeira vez. Pequena, desgrenhada, saia rota e olhares de desconfiança. Nem quis saber do rebuçado que ele tirou do bolso.
Olha-me esta miúda rosnou Manuel, desconcertado com aquele olhar fixo. A tua mãe deve andar a falar-te de mim…
Amélia, feliz da vida, correu a recebê-lo:
Deixa-te disso, Manuel! Nunca disse mal de ti. Só queria que voltasses, que fosses pai dela. Somos a tua família.
Amélia, apesar de tudo, amava o marido. Mesmo com os seus modos duros, quase cruéis. Manuel era silencioso, seco, por vezes bastava bater com o punho na mesa e o mundo parava. Muitas vezes levantava até a mão.
Benedita com cinco anos já entendia bem o que se passava. Mal o pai olhava de lado para a mãe, franzia as sobrancelhas ela encolhia-se e apertava o punho:
Mau, mau! Não faças isso! Olha que eu te dou!
O punho era miúdo, infantil, mas o Manuel ficava furioso, vendo naquela filha a rebeldia que nele sempre quis abafar.
Houve um sossego quando Amélia teve o segundo filho, um rapaz. Chamaram-lhe Tomás. E logo a responsabilidade de cuidar do irmão recaiu toda sobre Benedita. Era ela que o levava às costas, que dava de comer, que trocava as fraldas enquanto a mãe trabalhava.
Manuel ficou satisfeito. Mas era uma alegria amarga, nunca se manifestou muito. Continuava a mandar e ralhar, caso algo lhe desagradava.
Amélia, calada, aguentava tudo, só queria paz, que ele não se exaltasse.
Mas a Benedita (já com sete anos) batia o pé, cerrava os punhos e gritava:
Falo com o guarda se fizeres mal à mãe!
O Manuel até saltava de raiva:
Sua marota! Quem te ensinou a responder assim?
Tentou uma vez dar-lhe com a vara, para a endireitar. Benedita aguentou sem razão, mordeu a ponta do avental e não chorou. Manuel achou que tinha vencido. No dia seguinte, Benedita foi mesmo chamar o guarda da aldeia.
Amélia ficou sem palavras. Nunca pensou ver a filha ir tão longe.
Senhor guarda, vê bem explicava a mãe apressada. Só queria educar a criança… O Manuel é trabalhador, está sempre a tratar da casa e da família…
O guarda, o senhor Carlos Duarte, tirou o boné, limpou a testa suada:
Olhe, dona Amélia, tenha cuidado. Isto pode chegar ao presidente, para o senhor Manuel não era bom. Por agora, fica só o aviso.
Manuel ficou cabisbaixo, fez-se humilde:
Chegámos ao ponto de chamar a polícia? Daqui nada, são as crianças que mandam em casa!
A verdade é que, a partir daí, Manuel começou a ter mais cuidado com a filha. Olhava-a de lado, resmungava:
Bicho do mato…
Amélia, convencida que a tempestade tinha passado, engravidou outra vez. Nasceu uma menina, Inês. Manuel nem sequer olhou para a bebé. Foi-se embora da sala em silêncio.
Com a Inês, ele nunca se chegou muito. Era a Benedita novamente quem fazia de segunda mãe.
Ao voltar da escola, Benedita deitava as coisas, fazia os trabalhos, comia um pedaço de pão e ia tomar conta da irmã. Enquanto a mãe trabalhava, ainda lavava a roupa. O pai vendo a filha ocupada, não dizia nada. Lembrava-se do caso do guarda.
Assim cresceu Benedita, até chegar ao oitavo ano. Um dia, disse que ia estudar para Lisboa. Manuel ficou vermelho, os cabelos até pareciam mais eriçados:
Vais comer do quê? Vens para cá pesar na bolsa ou quê? Não bastou tudo o que te demos?
Benedita, com quinze anos feitos, era forte, determinada. Era respeitada por todos, até os rapazes mais velhos lhe tinham algum receio. O professor de ginástica até comentou um dia:
Tu, Gouveia, devias era ir para a luta greco-romana. Metes medo a qualquer um!
Não me interessa, respondia Benedita, seca, como sempre.
Olhou o pai nos olhos, como em pequena:
Eu vou. Vou-me fazer à vida.
Olha que não te dou dinheiro!
Não preciso. Ao menos paga aos mais novos, pai…
Pegou no cinto, avançou para ela. Benedita já estava junto ao fogão, com a tenaz na mão.
Se te atreves! Vais sair mal…
Amélia gritou, meteu-se entre os dois. Manuel olhou para a filha, firme e decidida, e percebeu que se tentasse, sairia ele a perder. Atirou o cinto, saiu porta fora.
Vai sussurrou Amélia, limpando as lágrimas. Nem olhes para trás. Seja como for, não recues.
E tu, separa-te! disparou a Benedita.
Deixa-te de ideias, filha! Nunca na vida…
Até quando vais aguentar isto? Ele trata-te como criada!
Toda a vida foi assim. Ele, ao menos, nunca faltou com o pão. O que diriam na aldeia?
Olha, se algum dia te bater de novo, diz-me. Eu trato dele.
Pecado, rapariga… Já bastou a polícia e as ameaças!
E ele pode fazer tudo?
Filha, cada um vive como sabe…
Pronto, não discuto mais. Mas não volto. Obrigada pelo dinheiro e pelo apoio.
Só quero que venhas, que não te esqueças de nós…
Benedita partiu para Lisboa com uma trouxa só roupa e alguma comida, e um punhado de euros que Amélia juntara às escondidas do marido. A mãe, com o rosto já marcado e os ombros cansados:
Filha, toma. Guardei isto para ti. Precisas mais que eu.
A cidade recebeu Benedita com barulho, gente apressada, cheiro a gasolina. Quase sem pensar, escolheu o curso de engenharia mecânica num instituto. Os exames não lhe custaram: estava bem preparada, e as dificuldades da vida só lhe deram mais garra para estudar.
O primeiro mês dormiu numa pensão barata, depois conseguiram-lhe vaga num quarto perto da faculdade. A colega de quarto, Leonor, era divertida, faladora, esperançada em arranjar marido rico. Benedita pouco se deixava distrair; veio para estudar, não para casamentos.
Arranjou trabalho à noite a limpar o escritório de uma fábrica de tecidos. O pouco que ganhava bastava para manter-se sem pedir nada à mãe. Leonor, apesar da diferença, acabava por admirar-lhe a força de vontade:
Tu és feita de ferro, Benedita!
Chegou o novo professor do terceiro ano, doutor António Lobo. Jovem, formal, cabelo castanho puxado para trás, óculos finos. A sala tornou-se ruidosa, quase ninguém o respeitava.
Leonor cutucou Benedita:
Olha lá, que vai ser feito deste? Nem parece que aguenta os rapazes…
Benedita, observando, ficou ofendida pela forma como o ignoravam. Levantou-se:
Basta! Se não quiserem sair da sala, eu própria trato disso. Eu preciso deste diploma, não estou cá para conversas fiadas. Ou estudam ou vão para casa dos pais!
A sala calou-se. Todos sabiam que não era boa ideia contrariar Benedita Gouveia.
O professor cruzou um olhar de gratidão. Desde aí, o respeito estava ganho.
Leonor tornou-se noiva de um engenheiro, com grande festa e tudo, e Benedita foi madrinha. A própria Benedita andava cansada da solidão, via as amigas casando-se e tinha dúvidas: Será que vou passar a vida assim, sozinha? Mas os homens à volta eram sempre demasiado infantis, desleixados ou casados.
Lembrou-se do pai:
Antes só do que viver como a mãe.
Até que apareceu Bernardo Costa, tímido, tranquilo, trabalhador na fábrica. Ao princípio, falava pouco. Mas um dia, nos bailaricos, ganhou coragem para a convidar.
Dança comigo?
Ela sorriu:
Claro.
Começaram a sair. Bernardo era muito diferente do pai: calmo, respeitador, dava-lhe paz. Passados meses, pediu-a em casamento.
Posso confiar em ti? perguntou Benedita.
Para sempre prometeu ele.
Casaram discretamente, só com os mais próximos. Logo veio a pequena Madalena.
O sonho, porém, durou pouco. Bernardo, em vez de ser o companheiro esperado, caiu na rotina: perdia o interesse, aparecia tarde, o ordenado encolhia. Começou a beber. Se Benedita reclamava, respondia seco:
Que pensas tu, que sou teu escravo?
Ela lembrou-se do velho ditado: Cada um leva a sua cruz. E recorreu à decisão: terminou com ele, ficou sozinha com a filha.
Estás doida? exclamava Leonor. E agora?
Se me deixei ir abaixo, nunca teria saído da aldeia. Habituada estou.
Trabalhou, pôs Madalena na creche, nunca deixou faltar comida em casa. O irmão Tomás foi viver com ela quando veio estudar. Estranhou ver a irmã erguendo a família, sozinha.
Tu és uma força da natureza, mano brincava ela. Aqui não se encosta ninguém.
Leonor acabou por divorciar-se, infeliz com a escolha:
Tinhas razão, Benedita. A felicidade não é só aquilo que se ostenta. Devia era procurar alguém como o nosso professor António…
Olha que ele agora está só…
O reencontro aconteceu por acaso, no café Vidro Azul. Num sorriso tímido, António sentou-se à mesa.
Falaram, trocaram memórias, descobriram que a vida os preparara para aquele momento. Ele convidou-a à casa de campo.
Numa tarde, chegam dois homens suspeitos de carrinha. António saiu para averiguar; Benedita, notando o perigo, saiu atrás, munida de machado. A coragem dela assustou os larápios, que fugiram imediatamente.
António olhou-a admirado. A força daquela mulher surpreendeu-o.
Depois desse dia, soube: Benedita era a companheira de vida que queria. Fez-lhe o pedido. Casaram discretamente, família reunida até Manuel, contra vontade, foi, vencido pela insistência da mulher.
A filha Madalena, feliz, chamava António de pai. A casa de campo transformou-se em lar. O pomar, plantado por Benedita, dava fruto.
Um fim de tarde, no alpendre, a filha pergunta:
Mãe, és feliz?
Benedita olhou para o marido, para a filha, para o jardim. Lembrou-se das lutas, das mágoas e da coragem. E teve a certeza: tudo valeu a pena.
Muito respondeu.
António sorriu, abraçando-a.
Ali aprendeu-se que a vida pode ser dura, injusta. Mas quem não deixa de acreditar, quem nunca aceita ser menos, conquista por direito um final feliz. O respeito, o amor e a força são a melhor herança mais que qualquer nome ou riqueza.







