O meu pai deixou a família, alegando que a minha mãe me mimou demasiado. E recentemente recebi uma mensagem dele.

Olha, para mim, quando penso no meu pai só me vêm à cabeça discussões, gritos, brigas feias. Sempre vivemos com poucos recursos. A minha mãe, Antonieta, trabalhava até muito tarde para garantir que havia pão na mesa, enquanto o meu pai só procurava ocasiões para arranjar confusão. Uma vez fomos ao mercado em Lisboa para comprar legumes frescos. O vendedor, com aquele típico humor à portuguesa, brincou com a minha mãe e nós rimos todos. O meu pai ficou ali, com aquele olhar frio, sem dizer uma palavra.

Quando chegámos a casa, houve logo um barraco daqueles que até os vizinhos do prédio ouviram. Ele gritava tanto que toda a gente ficou a saber do que se passava. Acabou por bater na minha mãe. Depois houve outro episódio. Um colega do meu pai comentou numa conversa de café, a brincar, que eu não tinha nada fisicamente do meu pai, só da mãe. Na altura eu tinha 12 anos. O meu pai acabou por abandonar-nos, dizendo que a mãe me mimava demasiado.

A partir daí, passámos a viver com ainda menos dinheiro, mal havia para comprar comida. O meu pai nunca pagou pensão de alimentos. A minha mãe nunca quis ir para tribunal lutar contra ele. Ficou a desenrascar-se sozinha, arranjou um novo emprego. Enquanto estudava na escola, tentei ao máximo entrar na universidade, e mais tarde consegui arranjar um emprego.

Com o tempo, consegui casar-me bem e finalmente pude ajudar a Antonieta. E recentemente, recebi uma mensagem do meu pai. Ele dizia que queria renovar o contacto. Eu não sei bem o que fazer. Alguns amigos dizem que deveria encontrá-lo e conversar. Mas sinceramente, não me apetece nada. Recordo-me bem do dia em que nos abandonou. Ele é um estranho para mim, não tenho boas memórias dele. Por agora, decidi não contar à minha mãe sobre a mensagem. Não faço ideia do que vou fazerNaquela noite, fiquei sentado na mesa da cozinha, a olhar para o telemóvel como se fosse um objeto estranho. Antonieta estava a preparar o chá, o aroma de limão a espalhar-se pela casa pequena, aconchegante e finalmente em paz. Vi as mãos dela, marcadas pelo trabalho, mas tranquilas. Pensei em tudo o que tinha acontecido, em tudo o que ela sacrificou para me criar. O passado doía, mas agora era apenas uma sombra.

No fundo, sabia que a decisão estava feita. Apaguei a mensagem. Senti uma leveza imediata, como se tivesse soltado uma pedra presa ao peito. Levantei-me, abracei a minha mãe com força e disse-lhe, sem explicar exatamente porquê, que ela era o meu maior apoio, o meu verdadeiro lar.

Lá fora, começava a chover, as gotas a bater no vidro e a pintar Lisboa de nostalgia. Antonieta sorriu, e percebi que, apesar de tudo, éramos livres e felizes, com espaço para recomeçar. O passado ficou na chuva lá fora, e nós ficámos juntos, a saborear o chá, com esperança no futuro.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

O meu pai deixou a família, alegando que a minha mãe me mimou demasiado. E recentemente recebi uma mensagem dele.