O meu marido foi-se embora de repente. Foi assim que descobri que todos os nossos bens tinham sido transferidos para a jovem senhora.

Dizem por aí que, se escolheres como marido um homem muito inteligente, ele nunca há de trair-te, vai ser sempre fiel e, claro, sabe bem o que é amor e cuidar. Era o que a minha mãe e a minha avó não se cansavam de repetir. Por isso, já com alguma idade (não vamos especificar para não estragar o mistério), nunca levei a sério homens com gostos… digamos, duvidosos; nem sequer percebia porque é que havia de começar esse tipo de relação para quê, não é verdade?

Foi então, através de uns amigos, que me cruzei com o Filipe. O Filipe era daquelas pessoas que entram na sala e parece que já ganharam o jogo licenciado pelo Técnico, cabeça brilhante e objetivos afiados como as facas do mercado da Ribeira. Eu, por outro lado, terminei Letras, com uns calos nos dedos de tanto folhear livros. Mesmo assim, havia sempre conversa de sobra.

Começámos por falar um pouco, depois passámos a passar tempo juntos. O que é certo é que me entusiasmei de verdade sentia-me genuinamente feliz ao lado dele. Um ano depois, fez-me o pedido de casamento dei-lhe o sim com um sorriso até às orelhas. Fomos viver para o T1 que a minha avó me tinha deixado ali em Arroios. E olha que, enquanto éramos só dois, até era espaçoso! Depois veio a gravidez, nasceu o nosso filho, e logo a seguir uma filha.

Ora, espaço já era coisa rara, dinheiro então nem se fala, era contado ao cêntimo. Foi aí que o Filipe se lançou nos negócios um autêntico Dom Quixote dos empreendedores. Eu fiquei em casa com as crianças, mas nunca deixei de o apoiar em tudo, mesmo quando o cartão multibanco só servia para ver o saldo aproximar-se perigosamente do zero. Por mais voltas que déssemos, acreditávamos sempre que haveríamos de chegar onde queríamos.

Depois de muitos anos a lutar, lá conseguimos a nossa empresa deu sinais de vida, os miúdos foram para as melhores escolas de Lisboa e depois para a faculdade. Eu, finalmente, podia dar-me ao luxo dos meus hobbies extravagantes (sim, até tentei fazer jardinagem num vaso no parapeito da janela).

O Filipe também tinha os seus interesses. Passava fins de semana inteiros em aventuras com os amigos, tipo Os Maias na era moderna. E a mim não me incomodava nada ele era o melhor pilar da casa e também tinha direito ao seu espaço. No geral, o nosso casamento era equilibrado amor e respeito nunca faltaram. Enfim, tudo a correr tão bem que já dava vontade de desconfiar.

Até que, num fim de semana, o Filipe adoeceu à séria, chamámos o INEM, lá vai ele de ambulância, e, passado umas horas… desaparece. Como se nunca tivesse existido. Caiu-me tudo em cima: além da dor de perder alguém querido, ainda veio o golpe de teatro. Descobrimos eu e os miúdos que há cinco anos o Filipe andava enrolado com uma menina que nem idade tinha para ser filha dele, quanto mais outra coisa. Era com ela que ia de férias. E deixou-lhe tudo a empresa, a casa em Campo de Ourique, a quinta no Alentejo, o Volkswagen novo. Eu e os miúdos? Ficámos nas mãos de Deus.

Não há palavra para o choque, a ira e o susto. Como é que ele foi capaz? Como é que alguém anda por aí de pastel de nata em pastel de nata a saber que vai deixar a família a dormir ao relento? Francamente, não faço ideia de como continuar a vida, mas olha, cá estamos ainda com um resto de esperança, porque, no fundo, um português nunca desiste… pelo menos até ao próximo café.

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O meu marido foi-se embora de repente. Foi assim que descobri que todos os nossos bens tinham sido transferidos para a jovem senhora.