O meu marido escondia uma parte do ordenado e eu deixei de comprar comida com o meu próprio dinheiro

Duarte, o azeite acabou-se e já só há detergente para mais uma máquina de roupa disse Leonor, encostada à ombreira da porta da sala, as mãos húmidas apertando o pano de cozinha. Temos de passar pelo supermercado, a lista de compras já vai longa.

Duarte não desviou os olhos do televisor, onde o Benfica jogava um dérbi decisivo. Só resmungou, incomodado, puxando-se para trás no sofá.

Leonor, já sabes como isto anda suspirou, sem se virar. Na fábrica voltaram a atrasar os salários. O chefe disse logo, este mês nem cheiro a prémio. Dei-te anteontem os últimos setenta euros que tinha. Tens de esticar aquilo

Leonor soltou um suspiro pesado. O tens de esticar já o ouvia há meses, como quem pensa que o orçamento da casa é elástico. Voltou à cozinha, abriu o frigorífico e ficou a olhar, perdida, para um frasco solitário de azeitonas e uma panela com o resto do caldo do dia anterior. O caldo era fraco, feito a ossos de frango, desde que carne decente não entrava ali fazia já semanas.

Leonor era enfermeira-chefe no centro de saúde da cidade. O salário era estável, mas modesto. Noutros tempos, quando Duarte ainda trazia bom dinheiro do trabalho, podiam ir até ao Algarve uma vez por ano, comprar roupa nova e ter sempre o frigorífico a abarrotar. Agora, a crise chegou à fábrica. Baixaram ordenados, cortaram prémios, e Duarte quase só trazia trocos, que mal davam para as contas da casa e a gasolina do carro dele.

Caiu tudo sobre os ombros de Leonor. Multiplicava turnos, fazia noites, folgava menos, só para tentar tapar os buracos do orçamento. Duarte, por seu lado, chegava a casa, atirava-se para o sofá e lamentava a sorte, mas pedia sempre um jantar digno de domingo.

Esticar mais, como? murmurou Leonor, fitando o fundo do frasquinho do azeite. Qualquer dia rebenta.

No dia seguinte, Leonor saiu do turno e passou no Pingo Doce. Perdeu-se a olhar para lombos de porco, mas lá veio só com uma bandeja de moelas de frango. Pouco dinheiro, comida para esticar. Na caixa, despejou as moedas todas; faltavam três dias para o adiantamento e a carteira ficou vazia.

Em casa, enquanto as moelas ferviam, Leonor aproveitou para tirar o pó do hall de entrada. Duarte já dormia, saciado depois do jantar e das duas mini, que ele jurava comprar “com os tostões que sobrou”.

Arrumando o casaco do marido, sentiu no bolso interior qualquer coisa. Não era do seu feitio vasculhar, mas era hábito descartar os bolsos antes da roupa ir à máquina. Ali encontrou um papel dobrado: um talão do multibanco daquela noite, às 18h45. Leonor virou o papel e gelou.

“Saldo: 3 500 euros.”

Piscou os olhos. Devia ser engano. Não era. A linha imediatamente acima era ainda pior: “Crédito de vencimento: 780 euros”.

Setecentos e oitenta euros. Em casa, trouxe-lhe setenta. Disse que era tudo.

Leonor sentou-se pesadamente, o cérebro a zumbir. Lembrou-se como, semanas antes, tinha pedido desculpa por usar umas botas rasgadas, outra vez ensopadas, e ele dizia “aguenta mais um mês, não há dinheiro”. As visitas ao dentista adiadas, a comer trinca-osso em vez de carne. A revolta subia-lhe ao peito, cheia de azedume. Não era só raiva. Era traição.

Recolocou o talão no bolso. Quis correr ao quarto, acordá-lo, atirar-lhe o papel à cara, rebentar a casa toda se fosse preciso. Mas conteve-se. Ia ser só mais um escândalo; lá viriam as desculpas, as invenções, a conversa do surpresa ou erro no banco.

Não. Desta vez ia ser diferente.

Desligou o fogão. Guardou as moelas num tupperware e meteu-o na mala. Nem ao frigorífico comum foi parar.

Se não há dinheiro, não há comida, pensou, vingativa.

No dia seguinte, saiu mais cedo. Não lhe preparou o pequeno-almoço; deixou um prato vazio e um recado na mesa: “Desculpa, acabou-se tudo, não há dinheiro. Bebe água.”

Passou o dia em piloto automático no centro de saúde, só a pensar em como ia ser a noite. Ao almoço, esbanjou os trocos num filete de pescada com puré e sumo há meses que não se regalava assim.

Chegou a casa sem sacos. Mãos e costas livres. Caminhou serena.

Duarte recebeu-a à porta, já sem paciência.

Chegas tarde! Estou cheio de fome. Nem ovos tenho! Foste ao supermercado?

Leonor despediu-se do casaco e dos sapatos com calma, sentou-se na sala.

Não fui não, Duarte.

Não foste? E o jantar?

Não há jantar. Disse-te há dias não há dinheiro. O adiantamento é só depois de amanhã. Hoje andei a chá no trabalho, estamos todos a aguentar. Crise, lembras-te?

Duarte ficou a olhar para ela, incrédulo.

Estás a gozar? E a sopa? E o segundo prato? Sempre desenrascaste!

A criatividade chegou ao fim, querido. Não se fazem bifes do ar. E os meus trocos foram todos para a EDP e para o passe. Casa vazia.

Ele ficou especado, a abrir e fechar a boca. Talvez esperasse que ela fizesse um milagre: pedir dinheiro emprestado, sacar de um fundo secreto, ou descobrir comida num armário esquecido.

Mas o que é suposto fazer?!

Bebe água. Ou vai dormir, dizem que dormindo passa-se a fome.

Duarte bufou, foi bulir panelas, esbracejou. Acabou por cozer umas massas que achou numa gaveta. Sem nada sem azeite, sem salsicha. Leonor esboçou um sorriso lá no fundo. Massas para um milionário com três mil euros no banco: fazia-lhe justiça.

O cenário repetiu-se: almoço forte no trabalho, café e pastel de nata a caminho de casa, passeio tranquila no jardim. Chegava a casa sem fome nem peso na consciência.

Duarte passou do lamento à zanga.

Não tem piada nenhuma, Leonor! Dois dias a comer massa sem nada! Estás doida? Quem manda nesta casa afinal?

Sou tua mulher, não uma feiticeira respondeu, serena. Sem dinheiro, não há compras. Se me deres, vou, trago comida e ponho sopa no tacho. Simples.

Já disse que não há gritou, mas Leonor topou-lhe o olhar inquieto. A fábrica está a falhar!

Pois, também eu estou sem nada. Faz bem à linha, olha.

Nessa noite Duarte saiu, voltou a cheirar a bifana da roulotte, e Leonor reparou que afinal para esses luxos dinheiro não faltava. Em casa, nada trazia.

Assim passaram mais dias. Leveza estranha. Leonor deixou de cozinhar, lava-louça ficou à espera, deixou a roupa dele por tratar: “Detergente acabou. Não há dinheiro.”

Duarte arreganhava os dentes, trocava da súplica para a raiva.

Ficaste de pedra, Leonor! Trabalho, chego e encontro esta pocilga! Não sei para que te quero!

E eu para que quero um marido que nem pão traz para casa? Eu também trabalho, sabes? Por que só eu é que me martirizo com comida e roupa?

Porque és mulher! É a tua obrigação!

A minha obrigação é amar e cuidar de quem cuida de mim. Isto acabou.

Sábado de manhã, Leonor acordou com cheiro estranho: ovos e chouriço. Duarte sentado, lauto pequeno-almoço, pão fresco e queijo amanteigado; café ainda a fumegar. Ao vê-la, tossiu, mas recuperou o ar arrogante.

Senta-te, se quiseres. Ainda arranjei umas moedas numa velha gabardina, fui à mercearia.

Na mesa, ali estavam os produtos caros, compras de quem tem liquidez. Leonor teve vontade de rir.

Obrigada, mas não tenho fome mentiu. Come, vai precisar de força.

Duarte mal disfarçava o desconforto.

Ouve, Leonor, chega deste disparate. Falei com o Rui, emprestou-me duzentos euros. Vai tu ao supermercado, faz sopa, é impossível viver assim.

Pousou as notas sobre a mesa. Leonor olhou para o dinheiro e de volta para ele.

Emprestou-te o Rui? Ora que bom amigo tens tu. Como contas pagar?

Pago como der! Que te importa? Vai lá às compras.

Leonor rodou as notas nas mãos.

Está bem. Mas compro só para mim. Tu come o que o Rui te trouxer.

Estás a brincar? irrompeu, pondo-se de pé. Dei-te dinheiro! É para a família!

Família? a voz de Leonor soou fria, cortante. E quando recebeste setecentos e oitenta euros, eram de quem? E esses três mil e tal? É um fundo de solidariedade para maridos carentes?

Duarte estacou. Ficou pálido, depois vermelho. Gaguejou.

Andaste a vasculhar-me os bolsos?

Não desvies a conversa. Encontrei um talão. E o pior não foi saber do dinheiro. Foi veres-me contar trocos, privar-me de tudo, enquanto comias do pouco que havia, à conta do meu ordenado! Não tens vergonha?

Andei a poupar! barafustou, batendo na mesa. Era para comprarmos um carro! A minha lata qualquer dia pára. Era uma surpresa! Tu a pensar em dinheiro!

Surpresa é pouparmos juntos, sem mentiras. Surpresa é não me deixares passar fome. O que fizeste foi mesquinho. Foste um parasita.

És mulher, que é que percebes? Preciso mostrar serviço, ter carro como deve ser, que amigos não pensem que sou teso! Olha para ti, sempre com as moelas

Se morri por dentro, não foi à fome. Morreu a confiança. E a admiração.

Empurrou-lhe as notas de volta.

Compra um bilhete. Vai.

Um bilhete para onde?

Para onde quiseres. Para casa da tua mãe, para um quarto alugado. Não consigo viver mais com quem me trata como empregada e burra.

Vais-me pôr na rua? Por dinheiro?

Por falta de respeito, Duarte. Começa a juntar os teus pertences.

Não foi logo. Vieram horas de discussão, promessas, ameaças, choros. Disse que lhe daria um casaco de peles, se ela quisesse. Depois voltou à raiva. Leonor olhava-o como a um estranho ridiculamente mesquinho, infantil.

Ao final da tarde, fez a mala.

Vais arrepender-te! Quem vai querer-te, com essa idade? Vais acabar sozinha com os gatos! Eu vou arranjar uma mulher a sério!

Boa sorte murmurou, fechando-lhe a porta na cara.

Ouviu o trinco e deixou-se escorregar, desfeita, pelo chão. Nem lágrimas tinha; só um vazio cortante.

Na cozinha, a embalagem luxuosa de chouriço que Duarte comprara foi para o lixo. Abriu o frigorífico, só restava o tupperware das moelas. Sorriu.

Ao menos, agora sei onde gasto o meu dinheiro.

Um mês passou.

Leonor saía do trabalho devagar. Era maio, o cheiro da giesta e do mar enchia-lhe o peito. Entrou no Supercor. Pegou nas delícias: um frasco de ovas (em promoção, sim), queijo blue, vinho verde, legumes frescos, um lombo de salmão.

Na caixa, pagou com o cartão. Viu que agora o saldo nunca faltava. Ser só uma ficou-lhe muito mais barato. As contas baixavam, já nem cerveja, nem tabaco, nem gasolina alheia. Os pedidos infinitos deixaram de existir.

Chegou a casa, música a tocar, cozinhou com gosto. Jantou frente à janela, a ver o sol baixar.

O telemóvel apitou. Duarte.

“Leonor, olá. Como estás? Podemos falar? Percebi o erro que foi tudo aquilo. Não comprei o carro, ainda tenho aquele dinheiro. Vamos recomeçar? Tenho saudades.”

Ela tomou um golo de vinho frio. O rosto dele a gritar sobre moelas, a vergonhice dos pedidos, tudo foi claro de novo.

Apagou a mensagem. Bloqueou o número.

Também tenho saudades disse ela ao seu reflexo, na janela escura. Saudades de mim, da minha vida em paz. E isso não dou mais a ninguém.

No dia seguinte comprou novas botas caras, couro mole, italianas. E uma estadia de duas semanas num spa. O dinheiro poupado, afinal, chegava.

A vida, percebeu Leonor, não acaba depois do fim. Torna-se mais leve. E, sobretudo, honesta.

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