O meu casamento parecia normal. Não era “perfeito” como nas redes sociais, mas era estável. Não havi…

O meu casamento parecia normal, ou pelo menos tinha o sabor das coisas estáveis. Não era como aquelas imagens cintilantes das redes sociais nada de perfeito, mas seguro, rotineiro. Não havia discussões barulhentas, nem cenas de ciúmes, nem indícios estranhos pairando pela casa. Ele nunca escondeu o telemóvel, não chegava tarde, não mudava os horários de forma suspeita. Jamais suspeitei de coisa alguma.

A mulher por quem me deixou trabalhava com ele. Chamava-se Margarida nome doce como o dos gelados lisboetas mais nova do que eu, solteira e sem filhos. Vi-a uma ou duas vezes; numa delas até entrou em minha casa, num jantar de convívio da empresa. Cumprimentou-me com saudades de outros sonhos, falou de forma cordial, quase esquecida do que se passava nos bastidores do tempo. Nunca reparei em nada de especial.

Naquela sexta-feira, como num daqueles sonhos onde as janelas abrem para o mar, ele chegou a casa, pousou as chaves pesadas sobre a mesa e disse-me que precisava de falar. Sentou-se em frente a mim com olhos de nevoeiro, e sem rodeios, largou: já não me amava, estava confuso, tinha conhecido outra e ia embora com ela. Acrescentou que não era culpa minha, que eu era uma mulher generosa, mas ao lado da outra sentia-se realmente vivo. As palavras dele deslizavam como sardinhas por entre dedos escorregadios.

Perguntei há quanto tempo aquilo dançava por dentro dele. Ele confessou: há meses. Quis saber por que nunca notei nada, e respondeu que foi precisamente por ser cuidadoso. Na mesma noite, enfiou algumas roupas numa mala velha e saiu sem fazer barulho, como quem abre a porta entre dois sonhos e desaparece. Não houve discussões eternas nem promessas de milagres.

Os meses seguintes foram um inverno sem fim. Não tinha um trabalho fixo. As contas chegavam em avalanche: renda, eletricidade, a conta da água a lembrar o Douro, comida em moedas de euro. Comecei a vender alguns objetos da casa, talheres herdados de tias dAveiro, livros comprados nas feiras de Santo António. Houve dias em que só comi uma vez; noutras noites fechava o gás para não gastar. Chorava baixinho, mas sempre fui buscar forças em qualquer gaveta funda do peito, porque a vida tem dessas.

Procurei trabalho, mas ninguém queria contratar uma mulher sem experiência recente ou diplomas pendurados na parede. Um dia, por desespero, lembrei-me da receita de arroz-doce da minha avó Palmira e vendi uma travessa à vizinha do 2.º andar. Depois fiz mais. Comecei a partilhar as fotos no WhatsApp, e lá ia eu, com passos pequenos, a calcorrear as ruas estreitas do bairro, a vender doces de porta em porta. Por vezes, voltava sem ter vendido quase nada; noutras ocasiões, conseguia despachar tudo.

Com o tempo, o burburinho espalhou-se pelos prédios de Alfama. Passei a fazer doces durante a noite para entregar de madrugada. Com esse dinheiro pagava o mercado, depois a luz, depois a renda. Não foi rápido nem bonito: meses de cansaço, dormindo de olhos abertos e com o coração à janela, a sobreviver na corda bamba.

Ainda hoje vivo assim. Não fiquei rica nunca tive esse sonho em português , mas não dependo de ninguém. A casa já não guarda o mesmo cheiro, mas é só minha. Ele continua com a Margarida, e nunca mais lhe ouvi a voz. Aprendi a sobreviver quando só havia a opção de continuar. Não porque quisesse ser uma força da natureza lusitana, mas porque simplesmente não havia mais ninguém para o fazer.

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O meu casamento parecia normal. Não era “perfeito” como nas redes sociais, mas era estável. Não havi…