Caminho para uma nova vida depois de tempos difíceis
Ultrapassar as adversidades da vida e reencontrar esperança
Amiga, imagina: aos 45 anos, senti que a minha vida tinha virado de pernas para o ar. O meu marido saiu de casa, virou o nosso filho contra mim, e acabei completamente sozinha, sem ter com quem partilhar as tristezas nem as alegrias. Para conseguir pagar as contas e manter o teto, arranjei trabalho como assistente de limpeza numa escola aqui da minha zona em Lisboa. Mas o stress do divórcio e aquelas batalhas judiciais constantes deixavam-me completamente à toa, e nem conseguia focar-me no trabalho. Não demorou muito e acabei por ser despedida.
Senti-me perdida, sem família, sem casa, sem autoestima. Vagava sem rumo pelas ruas, achando-me tão insignificante quanto o lixo que costumava apanhar. Um dia, depois de mais um daqueles dias pesados, ia eu pensativa pelo passeio e de repente, um clarão de luz e um travão estrepitoso cortaram o silêncio. Era um carro que veio mesmo na minha direção! Fiquei paralisada, e só me apercebi depois de o carro ter parado a meros centímetros de mim.
Do carro saiu um homem alto, com ar de trabalhador e olhar gentil, e disse-me: Tem consciência que quase era atropelada? Eu estava em choque, só conseguia acenar com a cabeça, sem voz. Ele viu o meu estado e, com mais suavidade, sugeriu ajudar-me e aconselhou-me a não andar sozinha por ali àquela hora. Nesse momento, apareceu uma senhora de idade, com um cãozinho, que lhe disse: Se calhar ela está mesmo a precisar de apoio, não lhe fale assim.
Aquelas palavras mexeram comigo. E olha, não é que foi mesmo um ponto de viragem? A professora Margarida, que também já tinha passado por muitos maus bocados, viu-me ali perdida e sugeriu que fosse ajudá-la num centro de apoio a sem-abrigo onde ela fazia voluntariado. Foi lá que conheci o Alexandre, um ex-psicólogo que tinha dedicado a vida a apoiar quem enfrentava crises. O Alexandre acreditava em mim quando nem eu mesma acreditava. Tornou-se um mentor e um verdadeiro amigo.
Com a orientação do Alexandre, comecei a frequentar sessões de terapia em grupo gratuitas e até experimentei arte-terapia. Aos poucos, fui aprendendo novas coisas e, acima de tudo, voltei a confiar nas pessoas. Percebi que o nosso valor não se resume ao passado, e que mesmo as maiores dificuldades podem ser o início de algo novo.
Reerguer-se através de grupos de apoio
Aprendizagem de novas competências e arte-terapia
Superar traumas do passado
Sabes o que é mais engraçado? O meu filho, o António, também começou a mudar nessa fase. Ele também passou momentos difíceis, mas com ajuda de um psicólogo e muitas conversas francas, foi percebendo que nem tudo tinha sido culpa minha. Começámos a comunicar, devagarinho, e a nossa ligação foi-se reconstruindo.
Passados uns meses consegui trabalho numa biblioteca aqui em Lisboa. Lá acabei por conhecer outras mulheres que também atravessavam crises. Partilhávamos histórias, dávamos apoio umas às outras e juntas fomos aprendendo coisas novas. A cada dia sentia-me mais forte e confiante.
Foi na biblioteca que conheci a Joana, uma mulher ativista, com um coração enorme, que lutava pelos direitos das mulheres em situações vulneráveis. A Joana viu em mim aquela força de mudança e convidou-me a juntar-me ao projeto dela, onde ajudávamos outras mulheres a recomeçar.
A força e a vontade de mudar são o melhor que podemos ter para alcançar novos caminhos, dizia-me a Joana.
Comecei a interessar-me por psicologia e serviço social, queria perceber melhor como podia ajudar outras pessoas e a mim mesma. Durante essa jornada conheci a Leonor, uma mulher experiente que se tornou minha mentora e amiga. Com ela aprendi a valorizar-me, defender-me e não ter medo de mudanças.
Com o tempo, eu e o António fomos restaurando a relação. Ele tornou-se um homem adulto, independente, e começámos a passear, sonhar e planear juntos. A bondade e o apoio dele davam-me força todos os dias. Aprendemos que família e confiança são mesmo o coração da vida.
Quando recuperei o ânimo, tornei-me voluntária numa associação que apoiava crianças em risco. Poder partilhar o que tinha aprendido e a garra que ganhei foi das melhores coisas, porque sabia o quanto fazíamos falta uns aos outros.
O voluntariado trouxe-me um novo sentido para tudo. Descobri que, através do meu exemplo, podia dar esperança a outras mulheres. Eu, a Joana e a Leonor acabámos por criar um grupo de apoio, onde nos ajudávamos em cada tropeço, aprendendo e ultrapassando obstáculos juntas.
Voluntariado e apoio a crianças
Formação de grupo de apoio para mulheres
Desenvolvimento pessoal e inspiração
Um dia, um rapaz jovem, que também tinha passado por muito, veio pedir-me ajuda porque queria tornar-se professor para crianças desfavorecidas. Vi logo nos olhos dele aquela faísca e acabei por ser o seu apoio nessa caminhada.
A minha vida ganhou outro sentido. Comecei a escrever artigos, fui convidada para conferências, partilhei a minha história e sabes, as minhas palavras tocavam muita gente. Sentia que finalmente estava a inspirar quem ainda lutava pelo próprio futuro.
O António, vendo tudo isto, também se quis superar. Entrou na Universidade de Coimbra para estudar Economia e já só falava de planos para o futuro. Virámos autêntica equipa, sempre a apoiar-nos um ao outro.
Depois mergulhei de vez em projetos sociais, desta vez com foco em ajudar mulheres e mães sozinhas. Dava formações, workshops, partilhava o que sabia. Era incrível ver como um bocadinho de apoio pode mesmo transformar vidas.
Houve um dia em que me convidaram para falar num grande encontro sobre justiça social e inclusão. Partilhei a minha história frente a muita gente, contei tudo o que aprendi e acho que acabei a dar força a muitos corações naquele auditório. Foi aí que percebi que esta missão era maior do que eu pensava.
Com o tempo fui fortalecendo ainda mais o meu laço com o António, agora já um adulto determinado. Passámos a fazer viagens em família, a sonhar e fazer planos sem medo. Percebi que o essencial da vida são mesmo amor, família e partilhar carinho.
Mais tarde dediquei-me à escrita, queria deixar a minha história para inspirar outras mulheres a encontrar coragem. Os meus textos e pequenos livros ajudavam muita gente a não desistir e a seguir em frente, aconteça o que acontecer.
Sabes que mais? Cada experiência, mesmo a mais dura, pode transformar-se num degrau para crescer, reencontrar esperança e viver com mais amor. Por isso, agradeço a todos os desafios porque foi isso que me fez quem sou hoje. E o mais importante é viver o presente, acreditar no futuro e nunca perder a vontade de recomeçar.
E olha, amiga Ainda há tanta coisa nova para viver. Vamos sempre acreditar.






