O Ano Novo começou sem graça, até que uma mulher desconhecida se sentou à mesa deles

O Ano Novo tinha começado de forma aborrecida, até que uma mulher desconhecida se sentou à nossa mesa

A Benedita saiu disparada de casa às dez da noite, no dia 31 de dezembro a mãe lembrou-se de repente que se tinha esquecido de comprar pão e mandou-a à mercearia. Na cozinha, o frango já chia no forno, a mesa estava quase posta e o pai tinha ligado a televisão com o concerto de fim de ano a fazer companhia.

Uma típica noite de véspera de Ano Novo numa família de três nada de especial, mas sem discussões. A Benedita tinha quinze anos e nos últimos tempos os feriados pareciam-lhe vazios, sem graça.

No pátio cheirava a frio e a tangerinas. Lá em cima batia música alta, alguém ria-se no varandim. E, junto à entrada do prédio vizinho, num banco debaixo do candeeiro público, estava sentada uma idosa com um casaco de pele antigo. Sozinha.

Tinha uma tangerina nas mãos já meia descascada.

A Benedita parou. Sentiu qualquer coisa a apertar-lhe o peito uma pena aguda, quase física.

Boa noite, disse ela, sem saber porquê nem para quê se aproximava.

A senhora sobressaltou-se e levantou os olhos claros, desbotados, daqueles das fotos antigas.

Boa noite

Está aqui sozinha? Hoje é passagem de ano.

Pois é. A senhora sorriu, mas o sorriso era tão vazio que Benedita sentiu frio de verdade. Só estou aqui um bocadinho. Em casa fico sozinha na mesma, aqui ao menos respiro o ar fresco.

Em casa sozinha. Na véspera de Ano Novo.

Não quer vir connosco? escapou-se-lhe antes de pensar. Só um bocadinho. Para beber um chá.

A senhora ficou imóvel.

Mas Para quê? Têm a vossa festa

Que festa? Estamos só os três, a comer saladas e a ver televisão. A sério, venha. Eu sou a Benedita.

Alzira Gonçalves, sussurrou a mulher, e algo muito especial uma réstia de esperança passou-lhe pelo rosto.

***

Quando Benedita abriu a porta e trouxe Alzira Gonçalves para dentro, a mãe ficou suspensa, ainda com o queijo na mão.

Quem é ela?

É nossa vizinha, mãe. Alzira Gonçalves. Mora no prédio ao lado.

Só venho um bocadinho, apressou-se a explicar a senhora, agarrando a mala gasta. Só sentar um pouco se não houver problema

O pai espreitou do quarto, olhou a convidada de lado. A mãe ficou sem reação. Mas eu, Benedita, percebi de repente: era aquilo. Aquilo que dá sentido à vida.

Sente-se, dona Alzira. Eu já ponho água para o chá.

Ao princípio estava tudo estranho. Alzira Gonçalves mal se encostava à cadeira, segurava a chávena com as duas mãos, como quem tem medo de lhe tirarem. A mãe olhava-a de lado, desconfiada, o pai calado, mastigando uma sandes.

Têm tão bonita a casa, disse baixinho Alzira. A árvore cheia de luzes Eu já não monto uma há uns cinco anos. Para quê, se estou sozinha?

E tem filhos? perguntou a mãe, com um certo tom desagradável. Benedita irritou-se, mas ficou calado.

Tenho, sim. Um filho. Mora noutra cidade. Trabalha muito, é sempre a correr. Liga de vez em quando, mas vir cá nunca pode. Trabalho, preocupações

Fez-se silêncio.

E netos? insistiu a mãe.

Dois. O filho divorciou-se há muitos anos, eram pequenitos. A ex-mulher A voz falhou-lhe. Nunca os deixou vir cá. Agora já são adultos, têm a vida deles. Para que querem uma avó que nem conhecem?

Levantei-me de repente, a cadeira arrastou.

Mãe, podes ajudar-me na cozinha, por favor?

Na cozinha, virei-me para ela:

Porque a estás a interrogar assim?!

Só perguntei

Vês o quanto lhe custa falar? Ela estava sentada sozinha num banco com uma tangerina na mão! Na passagem de ano! Percebes?

A mãe fez cara feia:

Benedita, percebo que tenhas pena, mas não sabemos quem ela é. E se

E se o quê? Ela é só uma mulher isolada, que se esqueceu do que é sentir calor humano! Hoje podemos fazer a diferença!

Os olhos da mãe suavizaram. Suspirou:

Pronto. Põe mais um prato na mesa.

***

Às onze da noite, tudo estava diferente. Alzira Gonçalves já não se agarrava ao canto da cadeira. Começou a falar do seu trabalho como contabilista, de como, depois do marido partir (há quinze anos), parecia que se fechou por dentro. Dos vizinhos, que cumprimentam, mas nunca perguntam nada.

Eu levanto-me, contava ela, cada vez mais baixo, e penso: mas para quê? Ligo a televisão, bebo o chá. Depois vou ao café ou à mercearia, volto para casa. Não digo uma palavra a ninguém. O telemóvel calado. Às vezes uma semana inteira sem um telefonema.

Uma semana sem telefonema.

Senti-me a sufocar.

E hoje, continuou dona Alzira, pensei: basta. Toda a gente vai brindar, rir, e eu Peguei numa tangerina e vim cá para fora. Só para ver pessoas. Só para não ficar fechada.

O pai pigarreou. Desviou o olhar. E a minha mãe, sem dizer nada, foi até Alzira Gonçalves e abraçou-lhe os ombros.

Agora venha cá a casa sempre que quiser, ouviu? Não fique sozinha. Moramos tão perto.

A senhora chorou baixinho. Lágrimas corriam pelas rugas. Benedita sentiu cá dentro uma coisa a abrir-se, uma geleira a derreter.

***

Passámos a meia-noite os quatro juntos. Enquanto as doze badaladas tocavam, Alzira segurava a minha mão e murmurava:

Obrigada, minha querida, obrigada

E eu, Benedita, olhava-a e pensava: quantas pessoas estarão agora sós? Quantos telefones mudos, mesas vazias, tangerinas encostadas de lado?

Com a meia-noite, a mãe trouxe o bolo, o pai pôs música. Alzira ria-se alto, aquele riso verdadeiro, de quem já não se lembrava de rir assim.

À uma da manhã, despediu-se.

Ai, já conversei demais convosco! Têm de descansar

Dona Alzira, Benedita agarrou-lhe na mão. Agora somos amigos. Está bem? Amanhã venha almoçar connosco.

Não é preciso, não quero incomodar

A sério. A mãe faz uma coisa boa, ficamos a conversar. Não é, mãe?

A mãe acenou:

Venha, sim. Às duas. Faço uma sopinha.

A senhora puxava o velho casaco, lágrimas a correr-lhe na cara. Mas agora, eram outras lágrimas.

Não sei como vos agradecer

Não precisa, disse Benedita, abraçando-a. Só venha.

Quando fechámos a porta, Benedita encostou-se à parede e fechou os olhos.

Ben, disse o pai baixinho, és uma miúda fantástica!

Só assustei-me. De ela estar ali assim, sozinha. De acordar amanhã e ouvir só o silêncio. De ninguém se lembrar dela.

A mãe pôs-lhe a mão no cabelo:

Deste-lhe o mais importante. Mostraste que não está sozinha.

***

No dia seguinte, Dona Alzira apareceu à porta às duas em ponto. Trouxe um álbum de família velho e falou do marido, do filho em criança, de como eram felizes dantes.

Voltou depois. Começou a vir com naturalidade.

Aos poucos, tornou-se parte da nossa família. Fazíamos crepes juntos, víamos filmes, conversávamos sobre tudo.

Eu via Dona Alzira mudar parecia ganhar vida. O olhar ganhou brilho, a voz ganhou entusiasmo. Já não passeava sozinha nas lojas, cumprimentava toda a gente, contava histórias sobre a minha Benedita.

Uns meses depois, tocaram à campainha.

Mãe? Ouvi a voz surpreendida ao telefone. Porque não tens atendo? Já te liguei dois dias

Ó Victor, desculpa! Estive com os vizinhos, esqueci-me do telemóvel. Está tudo bem contigo?

Da entrada ouvia a conversa. O filho perguntava: Com que vizinhos?, e Dona Alzira explicava sobre o Ano Novo, sobre a rapariga que a convidou, a família que a acolheu.

Mãe, quero ir aí. Quero conhecer essas pessoas.

Quando vi Dona Alzira depois desse telefonema, chorava. Mas não de tristeza.

Ele vem, sussurrava segurando nas minhas mãos. O Victor vem.

Está a ver, sorri-lhe. Correu tudo bem.

Foste tu, querida, tu salvaste-me. Se não fosses tu

Se não fosse ela.

Abracei-a e pensei como é simples a felicidade. Uma chávena de chá. Uma casa quente. Alguém que diga: Não está sozinha.

Uma tangerina num banco. Um minuto de atenção. E uma vida inteira pode mudar.

À noite, quando Dona Alzira se foi, o pai disse:

Sabes, Ben, sempre pensei que vivíamos para nós. Trabalhamos, ganhamos dinheiro, compramos coisas. Mas não é isso.

Então é o quê?

Olhou-me sério:

É saber ver o outro. O que está ali, esquecido, debaixo do nosso nariz. Estender a mão. Só porque ele também é gente. E dói-lhe.

Acenei. A garganta apertada, mas sorri.

Meio ano depois, Dona Alzira já fazia parte da nossa família. A vida dela encheu-se de sentido.

E eu percebi o essencial: a felicidade não está nos grandes gestos. Está nos pequenos, nos que fazemos quando ninguém vê. Parar. Reparar em quem precisa.

Fazer sentir: está aqui. É importante. Às vezes basta uma tangerina e um minuto para começar uma história nova. Uma história de humanidade. Porque somos pessoas. E temos uns aos outros.

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O Ano Novo começou sem graça, até que uma mulher desconhecida se sentou à mesa deles