O Amor de Mãe

Amor de mãe

Leonor, é a Dona Rosa. Já deste de comer ao Miguel hoje? a voz do outro lado do telefone soava como se ela perguntasse por um gatinho esquecido na varanda e não pelo filho programador de trinta e dois anos.

Fechei os olhos por um momento, segurando o telefone junto à orelha. Na mesa da cozinha, ainda fumegava o salmão ao vapor com brócolos recém-preparado. O Miguel saía da casa-de-banho, acabado de tomar duche e ainda fresco da corrida da noite.

Boa tarde, Dona Rosa. Claro que sim, estava precisamente a pôr o jantar na mesa.

E o que é? veio logo a pergunta. Mais dessas tuas ervas e peixe insonso? Um homem precisa é de carne! E calorias! Ontem ouvi na televisão que os homens magros morrem mais cedo. Queres matá-lo com essas dietas?

O Miguel, ao reconhecer o tom familiar, revirou os olhos e fez-me sinal: Diz que não estou. Mas não era só fisicamente que ele não estava ali. O seu novo corpo, as suas escolhas, tudo ficava suspenso entre nós como um peso invisível.

Dona Rosa, ele é que pediu este regime. Sente-se muito bem. O médico até elogiou as análises.

Os médicos só querem saber de papéis! resmungou ela. Eu é que o conheço. Olha-lhe para as bochechas, está encovado, até se vêm os ossos. Era um homem robusto, agora… Ao menos faz-lhe um cozido como deve ser, daqueles de carne a sério! Eu levo-te amanhã. Ou não queres comprar carne, é isso?

Assim eram as minhas tardes. Todos os dias, às seis em ponto, o meu telemóvel vibrava e era ela. Dona Rosa. A minha sogra. Fiscal, inspetora e juíza-mor dos meus dotes domésticos.

E pensar que tudo começou tão bem.

***

Há oito meses, o Miguel chegou do exame médico anual do trabalho com ar pálido. Sentou-se no sofá, desapertou o cinto das calças e suspirou como quem acaba de correr a Meia-Maratona de Lisboa.

Leonor, tenho um problema.

Tive medo. Pensei no coração. No fígado. As piores doenças passaram-me pela cabeça.

O que foi?

Pressão alta. O médico disse que se não me cuido, faço quarenta a tomar comprimidos. O colesterol está alto. E o açúcar está no limite.

O Miguel tinha trinta e dois anos. Um metro e oitenta. Noventa e cinco quilos. Barriga a transbordar o cinto, cara arredondada, princípio de papo. Depois de cinco anos de trabalho de escritório, almoços rápidos e vida sedentária, o meu marido estava longe daquele rapaz esbelto que conheci.

Estou farto de arfar só de subir escadas. Até me envergonho de tirar a t-shirt na praia. Chega.

Abracei-o. Amava-o como era. Mas se ele próprio queria mudar, e a saúde estava em causa, era hora de agir.

Vamos juntos. Aprendemos a comer melhor. Procuramos bom ginásio. Eu cozinho saudável.

Dito e feito. O Miguel inscreveu-se no ginásio Atlético, arranjou um treinador. Eu instalei aplicações de receitas saudáveis, comprei uma balança para pesar alimentos, uma vaporera. Íamos juntos ao supermercado, liamos os rótulos, somávamos calorias e proteínas.

O primeiro mês foi duro. O Miguel andava aborrecido, faminto, resmungava dos brócolos sem azeite e dos bifes de frango. Mas o corpo lá se adaptou. Notou que já não ficava moído depois do almoço, que subir as escadas custava menos, que as calças começavam a largar.

De manha fazia-lhe papas de aveia com frutas e frutos secos, sem leite nem açúcar. Ao almoço, levava marmita de peru e legumes. Ao jantar, peixe, saladas ou uma barrinha de requeijão magro. Adeus ao maionese, aos fritos, sandes, croquetes… A comida parecia insossa, mas depois encontrámos sabor nos próprios ingredientes. Descobrimos que brócolos, afinal, podem ser deliciosos.

Os quilos começaram a desaparecer. Queriam humor, depois pressa. Em três meses, menos sete quilos. Em seis, menos doze. Ao fim do oitavo mês, a balança marcava oitenta. Menos quinze!

A cara dele ficou mais angulosa, os olhos pareciam maiores, o corpo firme. No espelho, era outra pessoa: enérgica, confiante, saudável.

Os amigos não tiravam elogios. No emprego vieram pedir conselho, saber o segredo. As mulheres olhavam-no na rua. Eu estava feliz por ele, orgulhosa. O meu marido tinha vencido!

Dona Rosa, nesse verão, estava na casa da irmã, em Braga. Partiu em junho só regressou em setembro. Três meses sem ver o filho, só falando ao telefonenão era o mesmo que observar-lhe o aspecto.

E quando voltou…

***

Lembro-me como se fosse hoje. A Dona Rosa tocou à campainha numa manhã de sábado sem avisar. Ainda não tínhamos saído da cama. O Miguel foi abrir com a t-shirt e os boxers.

Ouvi o seu grito da cama.

Miguel! Nossa Senhora! Que aconteceu?!

Corri ao corredor. Ela trazia sacos cheios, a cara branca, olhos enormes. Olhava o filho como se tivesse diante de si um fantasma.

Mãe, bom dia, disse o Miguel sonolento. Porque tão cedo?

O que te aconteceu?! Estás doente? Perderes assim tanto peso? largou os sacos, agarrou-lhe os ombros, apalpava-lhe os braços como para ver se estava vivo. Estás pele e osso! O que vos fizeram aqui?!

A última pergunta era para mim. Estava na porta do quarto, de camisola de dormir, sentindo o julgamento antes de qualquer palavra explícita.

Mãe, estou bem. Quis emagrecer. Estou no ginásio, como saudável.

Porquê?! afastou-se. Eras um homem normal, forte! Agora pareces um doente!

Dona Rosa, não está doente, avancei com calma. Está ótimo. O médico elogiou. As análises todas limpas.

Ela mostrou-me um olhar como se lhe tivesse envenenado o filho.

Tudo isto foi ideia tua? Estas dietas? tremia-lhe a voz. Andaste a fazer-lhe fome?

Mãe! O Miguel cerrava o sobrolho. Basta! Eu quis isto. Estava farto de ser gordo.

Gordo?! Ela levou as mãos à cabeça. Nunca foste gordo! Eras é homem feito, não um palito!

O Miguel pesava oitenta quilos para um metro e oitenta. Normalíssimo. Mas para ela, o ideal era aquele rapaz roliço de antes.

Trouxe consigo uma panela de cozido à portuguesa e um tabuleiro de batatas com carne, mais uma torta de espinafres. Pôs tudo na mesa e mandou o Miguel comer já.

Mãe, obrigado. Mas já tomámos o pequeno-almoço.

O quê? Espreitou a cozinha, viu as tigelas com restos de papa de aveia e fruta. Isso não é pequeno-almoço! Isso é comida de passarinho! Anda lá, senta-te e come como deve ser.

O Miguel olhou-me, resignado, e cedeu. Comeu a sopa para agradar à mãe. Só quando limpou o prato é que o rosto de Dona Rosa sossegou.

É isto que um homem precisa: sustança! Não esses verdes e peixinhos. Agora vou passar cá mais vezes para ver como andam a alimentar-te.

Mal ela saiu, o Miguel atirou-se para o sofá com o estômago pesado.

Vou precisar meio dia para digerir isto gemia. Já não estou habituado.

No dia seguinte começaram os telefonemas.

***

O primeiro foi às seis em ponto.

Leonor, é a Dona Rosa. O que é que o Miguel almoçou?

Fiquei espantada.

Boa tarde. Almoçou no trabalho. Levou peru com legumes.

Peru?! Olha que peru é carne seca! Ele precisa é de porco, vitela. E os legumes?

Pimento, tomate, pepino…

Isso é só guarnição. Onde estão as batatas? Onde está o arroz? Um homem sem hidratos desfalece.

Tentei explicar que tinha tudo o que precisava, equilibrado, aprovado pelo treinador. Ela escutou, depois decretou:

Eu criei o Miguel saudável, e vocês num ano acabaram com ele. Amanhã levo-lhe almôndegas a sério!

No segundo dia, quis saber o pequeno-almoço. Respondi: omelete de três claras e uma fatia de pão integral.

Só claras? E as gemas?! Onde estão as vitaminas? Estás a poupar nos ovos?

Não, só para baixar o colesterol.

O colesterol não vem dos ovos! O meu pai comia seis ovos por dia e viveu até aos noventa. Isso são coisas dos médicos!

Era inútil discutir.

No terceiro dia, perguntou se o Miguel ia mesmo ao ginásio.

Vai. Quatro vezes por semana.

Quatro?! Isso é morrer à fome e ainda gastar as forças todas! O coração vai-te abaixo!

Tem treinador, está tudo controlado.

Treinador! Eles só querem dinheiro. Devia era preservar-se, não ir puxar ferro. Queres matá-lo?

Eu já não tinha paciência. O Miguel chegava das sessões radiante, com energia, as análises estavam ótimas. Mas para a mãe, parecia um moribundo.

Na manhã do quarto dia, tocou cedo.

Leonor, pensei que o Miguel pudesse ter bichos. Por isso emagreceu assim.

Quase deixei cair o telefone.

Dona Rosa, ele está saudável.

Têm a certeza? Já fizeram análises às fezes? À tiróide? Ao estômago? Às vezes emagrecem por causa de úlcera!

Passei-lhe o telefone para a mão do Miguel. Explicou tudo, garantiu que era intenção, tudo controlado. No fim ela disse:

Não percebes o que te estão a fazer. Vou passar aí à noite.

E apareceu. Com arroz de pato e bolinhos. O Miguel comeu só o necessário para não a desiludir, depois ficou doente. E eu via no olhar dele a hesitaçãoqueria agradar à mãe, mas também queria manter o registo.

Leonor, desculpa. Ela já é velha. Não entende.

Miguel, se não lhe puseres limites, não tens paz.

Ela habitua-se, vais ver.

Mas não se habituou. Os telefonemas continuaram. Às vezes dois por dia, perguntas cada vez mais absurdas.

Vocês têm água quente? Talvez o Miguel emagreça por tomar banho frio.

Ele pede comida à noite? Não estás a dar-lhe de comer antes de dormir?

Esses batidos de proteína são perigosos, ouvi dizer. Ele bebe dessas químicas?

Chegou a ligar à família inteira a dizer que o filho estava doente, que eu o mantinha sem comer. Um dia a tia telefonou-lhe no trabalho:

Estás bem? Precisam de ajuda? A tua mãe diz que não te dão comida.

O Miguel ficou furioso. À noite ligou-lhe, pediu para parar. Ela chorou. Disse que ele já não a amava, que não dormia de preocupação, que podia morrer de tanta amargura.

Cedeu. Pediu-lhe desculpa. Prometeu visitar mais para ela ver como estava.

***

Na semana seguinte fomos lá. O Miguel vestiu uma camisa antiga, agora larga. Dona Rosa esperava-nos com mesa posta: frango assado, batatas fritas, salada russa, bolo, pudim.

Sentem-se, filhos. Miguel, come sem vergonha, é para veres se ganhas cor.

Vi logo que era armadilha. Se ele não comesse, seria discussão. Mas se comesse, deitava a perder o esforço de meses.

Pegou no frango e salada, evitou fritos e bolo. Ela ficou magoada.

Nem provaste do meu bolo? Fiz a pensar em ti. Acordei de madrugada para fazê-lo.

Mãe, não posso. Estou numa alimentação saudável.

Saudável? Isso é fome! Olha para ti! virou-se para mim. Foi tudo culpa tua. Agora ele é magro porque te obriga a seguir o teu exemplo.

Engasguei-me.

Dona Rosa, ele quis… nem sequer

Os homens nunca escolhem o que comer! Quem manda é a mulher! Tu só lhe fazes relva! Vejo sempre as vossas marmitas só verdes!

Têm carne, arroz, vegetais…

Sabes lá tu! Tenho trinta anos a alimentá-lo e nunca esteve doente. Agora está um caco!

O Miguel levantou-se.

Mãe, basta. A Leonor não tem culpa.

Claro, defendes a mulher e esqueces a mãe. Fiquei sozinha desde que o teu pai morreu, dei-te tudo, e agora estás cego por esta

Parou mas o significado ficou no ar.

Viemos embora em silêncio. O Miguel fechava os punhos no volante, eu olhava pela janela a tentar não chorar.

À noite, recebeu novo telefonema.

Leonor, desculpa. Fui dura contigo. Eu só quero o melhor para o meu filho. Ele era tão bonito e agora…

Ainda é bonito, respondi firme.

Para ti. Os nossos vizinhos todos dizem que emagreceu demais. Parece que passais fome. Não tens vergonha?

Não nos falta nada.

Então porque ele não come normal?

Eu já não tinha forças para explicar. A cada dia, mais acusações, mais controlo. Eu, a má esposa, incapaz de cuidar do marido.

***

A tensão subia dia sim, dia sim. Ela continuava a ligar, perguntar noites e dias, controlar cada refeição, cada passo.

Um dia atendeu-me no trabalho. A secretária trouxe-me o telefone, com ar espantado.

Leonor, é a Dona Rosa. O Miguel não atende. Está tudo bem?

O coração saltou-me ao peito.

Vou já ligar-lhe.

Disquei ao Miguel. Atendeu de imediato.

Estás bem? A tua mãe está aflita.

Desculpa, pus o telemóvel em silêncioestava numa reunião.

Fui acalmar a Dona Rosa.

Ainda bem, já estava a pensar que tinha desmaiado de fome.

Dona Rosa, ele não passa fome!

Tu dizes isso… mas ontem vi um programa perder peso é perigoso! Fica-se com a pele flácida, com órgãos em baixo. Levou-o ao médico depois disso?

Levou. Ele está bem.

Mas foi ao clínico ou ao gastro? E endocrinologista? Tem de ir a vários!

Desliguei, apoiei a testa nas mãos. As colegas olhavam-me com pena.

Sogra? arriscou uma.

Assenti.

Tive uma assim, suspirou ela. Até decidir: ou ela, ou eu. Ele ficou comigo.

Eu não podia dar esse ultimato. Dona Rosa estava só. O marido morrera cedo, quase não tinha mais ninguém. O Miguel era o seu tudo. Eu acabava por compreender. Ela tinha medo de o perderde perder utilidade, de o ver mudar. Mas eu também queria paz.

À noite, disse-lhe:

Precisamos de conversar.

Ele olhou-me, atento.

Sobre a tua mãe. Não aguento mais. Controla tudo que comes, culpa-me por tudo, liga-me até ao trabalho… não posso viver assim.

Ela preocupa-se, só isso.

E a nossa vida? Ela faz-me sentir inútil, como se eu não cuidasse de ti, como se fosses um bebé!

Ela não pensa assim…

Então por que me trata como uma ama mal paga?

Falo com ela.

No dia seguinte, falou com a mãe e pediu-lhe para parar de me telefonar ao trabalho. Ela silenciou dois dias, depois voltou, mas agora ligava ao Miguel, cinco vezes ao dia. Ele estava impaciente, cansado, atirou o telemóvel para o sofá à noite:

Acabou! Já não aguento!

Que se passa?

Ela liga-me de manhã à noite: se tenho tonturas, se ainda estou fraco. Pareço um doente terminal!

Abracei-o.

Precisamos falar todos juntos. Mostrar-lhe que estás bem, que é escolha tua.

Não vai perceber…

Ao menos tentamos.

***

Marcámos ir a casa dela ao sábado. Chegámos juntos. Dona Rosa, com a mesa posta. Mas o Miguel nem se sentou.

Mãe, precisamos de conversar.

Ela parou, os pastéis nas mãos.

Sobre os telefonemas. Sobre como tratas a Leonor. Não aceitas as minhas escolhas.

Ela pousou o prato.

Eu preocupo-me. Sou mãe. Posso.

Preocupar, sim. Mas não controlar. Tenho trinta e dois anos. Sou homem feito, tenho a minha família. Decido o que como.

Tu decides ou ela decide? olhou para mim.

Ninguém decide por mim, disse o Miguel. Mudei porque estava mal de saúde. Agora sinto-me ótimo. Está tudo nos valores certos. Vêes isto?

Só vejo que emagreceste quinze quilos! tremia-lhe a voz. Estás mudado, não és tu.

Agora sou eu mesmo, respondeu mais baixo. Antes era gordo, morria com pequenas coisas. Isto não é saúde.

Ela chorou. Sentou-se.

Tenho medo. Que te faças mal. Só te tenho a ti, Miguel.

Ele sentou-se ao lado dela, agarrou-lhe a mão.

Mãe, agora é que sou saudável. O médico disse que, se continuasse, andava a tomar comprimidos aos quarenta. Ou pior. Escapei a isso.

E se agora está magro demais?

Não estou. O peso certo para a minha altura. Estou confortável.

Ela ficou calada, mexendo nas mãos.

Para quê o ginásio? Para quê essas comidas light? Antigamente toda a gente comia caldo verde, pão, chouriço… não havia doenças.

Antigamente trabalhava-se mais, expliquei. Andava-se a pé, comida mais natural. Hoje, entre o computador e os aditivos, temos de cuidar mais da saúde.

Ela olhou-me com dor.

Estás a tirar o meu filho.

Fiquei gelada.

Só quero que ele seja feliz convosco.

Antigamente vinha cá, comia da minha comida, conversávamos. Agora recusa tudo, parece que sou estranha.

Dona Rosa, não é a comida que demonstra amor. Ele quer estar consigo, conversar, passear, mas sem este peso. Sem pressões.

Ela ficou muito tempo calada, até sussurrar:

Só sei cozinhar para ele. Foi assim que o criei. Agora já não precisa…

Percebi de repente: não era vingativa, só não sabia como dar amor de outro modo.

Ele precisa de si, mas como mãe, não como cozinheira. Pode vir cozinhar connosco, experimentar receitas novas. Mas sem mais perguntas diárias de se já dei comida ao Miguel. Isso magoa-me.

Ela acenou tristemente.

Vou tentar.

Saímos de lá mais leves. O Miguel apertou-me a mão.

Obrigado por seres paciente.

Dói, mas compreendo. Ela só tem medo.

Cabe-me mostrar-lhe que precisa de mim como filho, não só como tacho.

***

Passou uma semana sem chamadas. Ao oitavo dia, o telefone tocou às cinco e meia.

Leonor? Pensei que talvez vocês viessem cá no domingo. Faço salmão no forno com legumes. Vi a receita sem azeite. E uma salada, faz bem, não faz?

Quase suspirei de alívio.

Claro que sim, Dona Rosa. Nós vamos.

Ela demorou.

Desculpa por antes. Não queria magoar-te. Só me assustei, pensei que estava a perder o meu rapaz.

Ele é e será sempre o seu filho.

Agora já percebo.

Despediu-se e desligou.

O Miguel saiu do banho.

Que foi?

A tua mãe quer convidar-nos para um peixe ao forno saudável.

Sorriu devagarinho.

Está a esforçar-se.

Está.

Mas ao sábado à noite, outro telefonema, voz ansiosa.

Leonor, desculpa incomodar… Miguel pode comer cenoura? E beterraba? Vi que têm açúcar…

Sorri, paciente.

Pode, sim. Em dose moderada.

Cem gramas? Duzentos?

Cem está bem.

E peixe: melhor salmão ou pescada? Salmão é gordura, não faz mal?

Faz bem, tem gorduras saudáveis.

Ah… pensava que gordura era má. Bem, compro salmão então. E podes explicar como se faz arroz integral, só com água ou pode levar um bocadinho de manteiga?

Percebi: iria continuar. Não se muda um coração de mãe de um dia para o outro. Mas ela queria adaptar-se. Pouco a pouco.

Pode um fiozinho de manteiga.

Obrigada, Leonor. Não me levas a mal, pois não?

Claro que não.

Só quero que tudo corra bem, que fiquem satisfeitos.

Vamos adorar.

Despediu-se.

O Miguel ouviu e abanou a cabeça.

Agora vai ligar para pedinchar receitas fitness?

Melhor isso do que críticas.

***

No domingo fomos lá jantar. A mesa mais simples que antes: salmão assado com limão, vegetais grelhados, arroz integral e uma salada sem tempero pesado. Um pequeno bolo, só de gesto.

Fiz o meu melhor, disse ela. Se estiver mau, digam.

O Miguel provou e fechou os olhos de prazer.

Mãe, está incrível.

Ela corou.

A sério? Tive medo de deixar demasiado tempo no forno.

Perfeito, garanti eu.

Sorriu, aconchegando o cabelo atrás da orelha.

Quero aprender esses vossos batidos. Ensinas-me?

Com gosto.

Jantámos, conversámos sobre outros assuntos. Ela não vigia o prato do Miguel, não insiste em doses, só conversa.

Ao sair, abraçou-me com força.

Obrigada, Leonor. Por me ajudares a perceber.

Vai correr tudo bem.

No carro, o Miguel pegou-me na mão.

Talvez o começo de algo novo.

Talvez.

Mas três dias depois, novo telefonema às seis em ponto.

Leonor, já deste o jantar ao Miguel hoje?

Demorei a responder.

Já.

E o quê?

Foi aí que percebi: nunca ia terminar. Iria ligar, mais espaçado, sobre outras coisas, mas não mudaria de um dia para o outro. Era o modo dela ver-se ainda útil, ainda amada, ainda necessária.

Dona Rosa, se quiser saber o que come o Miguel, pergunte-lhe a ele. Ele já é crescido, sabe responder.

Mas…

Basta, por favor. Não queremos mais relatórios diários.

Houve silêncio.

Tens razão. Desculpa. É o hábito.

Os hábitos mudam-se, Dona Rosa.

Vou tentar.

Desligou.

O Miguel apareceu à porta.

Tudo bem?

Disse-lhe finalmente o que precisava.

Ele abraçou-me.

Tenho orgulho em ti.

Só estou cansada. Cansada de lutar pelo direito de ser esposa, não ama.

Agora não estarás sozinha.

E assim foi. Passaram-se dias sem chamadas. Depois uma semana. Parecia que, enfim, a linha divisória fora traçada.

Mas numa sexta à noite, tocaram à campainha. Abri. Dona Rosa com um saco pequeno.

Boa noite, Leonor. Trouxe-vos um pouco de guisado de legumes. Sem óleo quase. Talvez gostem.

O Miguel saiu, abraçou-a.

Obrigado, mãe.

É só treino. Não julguem muito.

Jantámos o guisado. Estava saboroso. Ela olhava-nos, orgulhosa:

Gostaram?

Muito, disse o Miguel.

Ela parecia feliz.

Saiu cedo, sem examinar a cozinha, sem perguntas, só com chá e conversa.

Quando fechou a porta, o Miguel abraçou-me.

Penso que ela está mesmo a tentar.

Acho que sim.

Sabia, no entanto, que seria uma trégua frágil. Haveria recaídas, tentativas de controlo, discussões velhas. Os hábitos são teimosos. Mas agora sabia pôr um limite, sabia poder dizer não, afirmar que a minha vida a dois importava, e o Miguel apoiava-me.

Na segunda, às seis da tarde, o telemóvel tocou.

Olhei para o visor. Dona Rosa.

Atendi.

Leonor, sou eu. Só queria saber, estão livres no domingo? Gostava de aprender aqueles pãezinhos de requeijão que fazes, os sem farinha. Ajudas-me?

Respirei fundo.

Com todo o gosto, Dona Rosa. Estaremos aí.

Despediu-se.

O Miguel perguntou:

Progresso?

Pequeno, mas é progresso.

Ele sorriu, beijou-me a testa.

Ela quer melhorar.

Quer.

E, lá no fundo, esperava que um dia, esses telefonemas fossem só isso: telefonemas. Sem medo, sem cobrança, só conversa entre quem se quer bem, tentando adaptar-se numa nova vida.

Por agora, naquela noite em que a cozinha cheirava a comida saudável e Rua ia descendo no céu entre as nuvens, sabia apenas isto: a batalha não estava ganha, mas também não estava perdida. A linha foi marcada. E do nosso lado, estávamos juntos.

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