Nicolau chegou à aldeia para visitar a sua tia. Aproximou-se da casa familiar, abriu o portão e foi recebido no quintal pela Galina.

Olha, deixa-me contar-te o que se passou com o Manuel sim, o primo de Lisboa. Ele já não tem quase família cá no interior, só a tia que sempre foi a sua segunda mãe. Então, um dia ele decide fazer-lhe uma surpresa e aparece lá na aldeia, perto de Santarém, onde a tia Laurinda mora. Abre o portão do quintal, e a tia, ainda de avental, sai imediatamente à porta e diz:

Ó rapaz, então mas não avisavas que vinhas? Não custava nada mandar um telefonema! Depois abraçou-o com aquela força que só ela tem.

A Laurinda é mesmo um doce. Lá foram para dentro, ela logo pôs a mesa com tudo o que tinha melhor lá por casa. Sentaram-se, almoçaram aquele cozido maravilhoso, e mal acabaram, a tia ficou mais séria e disse:

Olha lá o que eu encontrei na arca do sótão.

E dá-lhe um papel dobrado, com um ar meio misterioso. O Manuel, curioso, abriu o documento. Enquanto ia lendo, a cara dele mudava, como quem vai recebendo um balde de água fria.

A tia Laurinda percebeu logo:

Oh, não faças esse drama todo, Manuel. Isso já foi há tantos anos! Nem fiques com isso na cabeça. O que lá está escrito já não deve contar e olha que criaste dois filhos, eles nasceram do vento, foi?

Nessa noite, o Manuel ficou a dormir ali em casa da tia, mas não pegou no sono. Aquilo que tinha lido era um diagnóstico antigo, que dizia que depois de uma doença em miúdo, ele não podia ter filhos. O papel até era dirigido à mãe dele, e ele nunca se tinha cruzado com aquilo na vida. Agora, imaginar que isso era verdade? Não fazia sentido nenhum! Afinal, criou dois filhos em casa, tinha uma vida de família normalíssima com a Alexandra.

A mãe do Manuel tinha partido quando ele ainda nem dez anos tinha feito, e pouco depois o pai levou outra mulher para casa. Ele, então, começou a passar mais tempo com a tia Laurinda, que era a irmã mais nova da mãe dele e morava na casa ao lado. A Laurinda era a pessoa que mais gostava e sempre o tratou como se fosse dela.

Quando terminou a tropa, o Manuel não quis voltar para a aldeia. Não havia cá trabalho e com o pai as coisas nunca mais foram as mesmas. Instalou-se em Lisboa e arranjou trabalho como motorista, começou por viver num quarto alugado, depois passou a camionista de longa distância. Conseguiu juntar uns trocos, comprou um pequeno apartamento.

Foi aí que conheceu a Alexandra. Ela contou-lhe que estava grávida antes sequer de casarem. Casaram-se, e três anos depois nasceu o segundo filho, um rapaz. A família era unida.

Quando fez quase quarenta anos, já com algum dinheiro de lado, o Manuel deixou os camiões e abriu a sua própria empresa de transportes. Deu trabalho, claro, mas a coisa foi crescendo devagarinho e tornou-se estável, dando-lhe um bom rendimento já em euros, o suficiente para sentir-se confortável.

Depois daquela visita à tia Laurinda, Manuel não conseguiu ir logo para casa. Meteu-se num autocarro para Lisboa, foi a médicos, fez exames. Confirmaram-lhe que, de facto, ele tinha aquela condicionante: em teoria não podia ter filhos. Voltou para casa devastado.

Chegando a casa, a Alexandra todo contente por vê-lo:

Já chegaste! Queres jantar?

Ele apenas lhe entregou o relatório. Ela ficou em choque a olhar para o papel.

O que é isto? perguntou tremendo.

É um relatório, Alexandra. Diz que eu, afinal, nunca poderia ter sido pai.

Ela quase desatou em lágrimas, atordoada.

Manuel, não pode ser, isto é um engano qualquer

Não mintas mais respondeu ele seco, não te quero ver.

Alexandra pediu-lhe que a ouvisse. E lá começou a abrir o coração: contou-lhe que, quando estava na escola, tinha um namorado, o Luís, com quem ainda se envolveu depois de terem acabado. Quando ficou grávida, mal sabia de quem era o filho. Sentiu-se perdida e, como os pais eram tão conservadores, o casamento com Manuel foi a tábua de salvação.

Pronto, a primeira filha percebo, eras nova, foi uma confusão Mas o nosso filho? interrompeu o Manuel, cheio de dor.

Ela chorou mesmo, e contou-lhe que, durante uma das longas viagens dele, voltou a encontrar o antigo namorado, e que aconteceu uma vez, apenas uma. Nunca mais o viu, continuou casada com Manuel, arrependidíssima, mas sem coragem de contar. Ele era, afinal, o grande amor da vida dela.

O Manuel ficou ali, sem chão. A Alexandra agarrou-se a ele, suplicou que não fosse embora.

Não faças isso, não me deixes, Manuel! Não sei viver sem ti.

Ele saiu de casa, doeu-lhe demasiado. Durante dias enterrou-se no trabalho, evitava pensar naquilo. Ao fim de semana, voltou para a aldeia, para junto da tia Laurinda, buscando alguma paz. Mas sentia-se desfeito, a vida parecia perder sentido.

Então vai ser assim? pensava ele de noite, a olhar para o teto. Vivo enganado, mas ao menos vivi uma felicidade que de outro modo nunca teria sentido. E se em miúdo soubesse disto, alguma coisa destas teria acontecido?

Domingo de manhã, toca à campainha. Eram os filhos, que tinham apanhado um comboio de Lisboa para a aldeia.

Ó pai, não sei o que se passa entre ti e a mãe, mas parece que já não queres saber de nós, até te afastaste. Vais deixar-nos também? atirou logo a filha, a Matilde.

Oh filha, claro que gosto de vocês! Mas com a vossa mãe precisamos de conversar

Pai, por favor, volta para casa pediu o Simão, o rapaz. A mãe anda noite e dia a chorar, estou preocupado.

E mais interrompe a Matilde, com olhos de esperança. Em breve vais ser avô, percebes? Tu e a mãe vão ser avós!

O Manuel sentiu um calor dentro do peito, abraçou a filha com força.

Isso sim são boas notícias!

E nós daqui não saímos sem ti disse o filho, firme. Chega de birras, depois de tantos anos juntos, não é razão para acabarem assim!

O Manuel sorriu, sentiu-se finalmente um bocadinho mais leve.

Têm razão, pronto, vamos para casa.

E assim foi, seguiram juntos, outra vez, como uma família portuguesa, cheia de problemas, mas com um coração enorme para o perdão.

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